acordar, levantar cedo,
engolir o sol efervescente dentro de um copo
de água
esperar com os pés dentro
da água
com as pernas afundando dentro da areia
por um barco que me busque
esperar no horizonte o desenho
de uma vela branca
que nunca chega
tornar a mim mesmo um cais
tornar meus olhos
um farol que é só desejo;
a noite me faz
pequenas sugestões
à beira do ouvido -
a noite produz duas velas brancas
nas minhas costas
e implora para que eu voe;
a noite sussurra que posso me elevar
até a lua
e tocá-la sem me afogar
e a que posso chegar até o horizonte
e então me dobrar
pelo seu precipício
em direção ao infinito;
depois acordo com a lua
na boca
como uma moeda de ferro;
meus olhos também são duas
moedas de ferro,
meus pés também são
duas moedas de ferro,
e mesmo dentro de um sonho
bom
estão fincados na areia
como duas pequenas
âncoras.
apoético
sem sono & sem sol
segunda-feira, 1 de junho de 2026
segunda-feira, 11 de maio de 2026
segunda-feira, 6 de abril de 2026
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
sábado, 29 de novembro de 2025
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
duelo
costuras com a língua
uma ferida no céu
da minha boca
forjo com a minha faca
uma mísera palavra
em teu ouvido
celas com os lábios
um silêncio no véu
da minha boca
corto com a minha adaga
outra ferida na paz
do teu ouvido
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
escrever um pequeno poema
um poema que caiba no corpo
de uma formiga
um poema que tenha a boquinha
de um cupim
um poema que faça um buraquinho
nos livros das suas estante
(um poema que transforme
todos os teus outros livros de poesia
em pó)
um poema pequeno como um
átomo
um poema que, ao abrir,
cause uma explosão
que destrua o mundo.
sexta-feira, 12 de setembro de 2025
vida que segue, como dizias
mas eu pergunto: seguir como?
após pegar todas as sinaleiras abertas
após todos os sinais verdes
que nos fizeram imaginar que nunca mais
precisaríamos parar
após deixar para trás os cães de rua
que esperam para atravessar na faixa
de pedestres
após atropelar toda as inibições
e passar as rodas, à toda velocidade,
pelos nossos mortos (e mortas)
até que eles não fossem mais do que uma mancha
no passado
após nos acostumarmos à vista
que voa desesperada pela janela
todas as pessoas esticadas num único borrão
todas, sem excessão
(só eu e tu não)
após esse vento no rosto e esta pressa
esta pressa de chegar
esta pressa de imaginar que estamos chegando
não importa onde
esta pressa que virou a certeza de que algo
ou qualquer coisa
nos esperava logo adiante --
eu te pergunto: tudo bem, vida que segue,
mas seguir como?
sábado, 9 de agosto de 2025
assim meio a vagar
entre uma coisa e outra
assim meio a chegar
em lugar nenhum
assim meio a ter pressa
de dormir, mas não de acordar
assim meio querendo
o sonho, mais do que a vida
assim meio a dividir
duas metades, mal repartidas
assim meio a contar
os cílios de um olho aberto
assim meio a rugir
feito um leão, mas ser um gato
assim meio a pedir
mas em segredo
assim meio a lutar
já desistindo
assim meio ao luar
mas amanhecendo
assim meio a furtar
um ar da boca
assim meio a impedir
o próximo momento
assim meio a cortar
a língua nos dentes
assim meio a gerir
uma decadência
assim meio a partir
mas ir ficando
assim meio a ficar
feito um adeus.
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
esta noite me persegue
como uma sombra -
esta noite também me antecipa
como uma descoberta;
(chega até mim como um navio pirata
depois me invade como uma praia
deserta)
esta noite cerca-me e me extingue
como a uma chama;
(de sua boca sopra um leve sussurro
que me escurece -
não é nada demais:
uma lembrança)
esta noite vai durar mil e um anos
como uma canção de ninar
e começa agora
como uma criança.