domingo, 11 de outubro de 2026

acordo
apalpo os contornos de uma
ausência
levanto
passo com os pés por cima
de uma ausência
que dorme ao pé
da cama
passo um café e sirvo duas xícaras
uma para mim
uma para ela
leio um livro
em silêncio meus lábios ainda se mexem
declamando versos depois
de verso
leio outro livro
mas este não leio com os meus olhos
e sim com os
outros
me visto
com uma meia de cada cor
caminho pela rua
deixando o espaço de um corpo
entre eu e os prédios
aponto para uma flor que nasce
de uma árvore
e ninguém olha
em casa deito-me no sofá
para que a ausência
trabalhe no escritório
antes de dormir
arrumo dois travesseiros
mas uma única
coberta
sonho com um trem sem maquinista
que me atropela
e me atira
para o mar.

domingo, 20 de setembro de 2026

capitão,
não me sinto mais à vontade
para pegar no ar uma palavra
e aprisioná-la na gaiola
de um poema

capitão,
não estou mais certo
de que exista algo qual
um verso livre,
não estou mais certo
de que um verso possa
ser livre

capitão,
não sei se é possível
ler um verso sem me arrepender
de uma palavra,
sem querer liberá-las com o sabre
que deixaste a meu tio
de herança
e depois espantá-las pelo ar
com um tiro da tua pistola,
que não sei
com quem ficou

capitão,
penso que chegaste aos cem anos
à tua maneira,
e que isto é o que faz todo homem:
vai até onde pode,
sem mais nem menos
à sua maneira,
que é única maneira que podemos
continuar

capitão,
se cometo o crime de aprisionar
estas palavras
é apenas porque sei que elas
podem ser livres
e cantar engaioladas
como faziam os teus
canários

19/9/2026

sábado, 1 de agosto de 2026

nessa rua é possível caminhar
sem ter uma lembrança
nessa rua é possível pensar no futuro
e é possível pensar no presente
nessa rua é possível pensar na luz vermelha
do pôr do sol
a luz vermelha que é uma cicatriz
nas nuvens cinzas da chuva
nessa rua é possível sentar-se para ler um livro
mas não trago um livro
(como tudo que admiro em mim,
estão guardados e trancados em casa)
nessa rua é possível ter todo o tempo
do mundo e é possível se surpreender
com a chegada do futuro
como se ele não passasse a vida inteira
numa esquina, esperando para dar
um bote
nessa rua é possível não ter uma lembrança
apesar de ainda estar ali
aquela casa
que não é mais habitada nem mesmo
por um fantasma.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

acordar, levantar cedo,
engolir o sol efervescente dentro de um copo
de água
esperar com os pés dentro
da água
com as pernas afundando dentro da areia
por um barco que me busque
esperar no horizonte o desenho
de uma vela branca
que nunca chega
tornar a mim mesmo um cais
tornar meus olhos
um farol que é só desejo;

a noite me faz
pequenas sugestões
à beira do ouvido -
a noite produz duas velas brancas
nas minhas costas
e implora para que eu voe;
a noite sussurra que posso me elevar
até a lua
e tocá-la sem me afogar
e a que posso chegar até o horizonte
e então me dobrar
pelo seu precipício
em direção ao infinito;

depois acordo com a lua
na boca
como uma moeda de ferro;
meus olhos também são duas
moedas de ferro,
meus pés também são
duas moedas de ferro,
e mesmo dentro de um sonho
bom
estão fincados na areia
como duas pequenas 
âncoras.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

este coração louco
que dispara à toda menção
do seu nome

que dispara ao encontrar
qualquer letra escondida
no seu nome

que dispara ao sentir
o perfume das sílabas doces
do seu nome

que dispara pelas veias,
ao invés de sangue, a música
do seu nome.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

todo olhos
todo angústia

é possível cortar cada momento
em um instante menor

cortar cada instante na flor
de um gesto

uma mão no ar que se ergue 
e nunca chega ao seu rosto

o seu rosto um milagre
que nunca acontece

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

no lugar de nascer, 
         um sujeito 
no lugar de uma vida, 
         um verbo 
no lugar de um destino, 
         uma sintaxe 
no lugar de um túmulo, 
         um ponto final

sábado, 29 de novembro de 2025

minha voz eu atiro ao precipício
ela desce ao fundo do buraco
feito uma onda.
ela encontra, após andar muito,
um chão de flores mortas.
ela retorna a mim
como um eco
que não é mais meu,
pelo contrário:
o abismo tem a tua voz
e, como tu, pede que eu
pule.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

duelo

costuras com a língua
uma ferida no céu
da minha boca

forjo com a minha faca
uma mísera palavra
em teu ouvido

celas com os lábios
um silêncio no véu
da minha boca

corto com a minha adaga
outra ferida na paz
do teu ouvido

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

escrever um pequeno poema
um poema que caiba no corpo
de uma formiga
um poema que tenha a boquinha
de um cupim
um poema que faça um buraquinho
nos livros das suas estante
(um poema que transforme
todos os teus outros livros de poesia
em pó)
um poema pequeno como um
átomo
um poema que, ao abrir,
cause uma explosão
que destrua o mundo.