segunda-feira, 6 de abril de 2026

todos olhos
todo angústia

é possível cortar cada momento
em um instante menor

cortar cada instante na flor
de um gesto

uma mão no ar que se ergue 
 nunca chega ao seu rosto

o seu rosto um milagre
que nunca acontece

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

no lugar de nascer, 
         um sujeito 
no lugar de uma vida, 
         um verbo 
no lugar de um destino, 
         uma sintaxe 
no lugar de um túmulo, 
         um ponto final

sábado, 29 de novembro de 2025

minha voz eu atiro ao precipício
ela desce ao fundo do buraco
feito uma onda.
ela encontra, após andar muito,
um chão de flores mortas.
ela retorna a mim
como um eco
que não é mais meu,
pelo contrário:
o abismo tem a tua voz
e, como tu, pede que eu
pule.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

duelo

costuras com a língua
uma ferida no céu
da minha boca

forjo com a minha faca
uma mísera palavra
em teu ouvido

celas com os lábios
um silêncio no véu
da minha boca

corto com a minha adaga
outra ferida na paz
do teu ouvido

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

escrever um pequeno poema
um poema que caiba no corpo
de uma formiga
um poema que tenha a boquinha
de um cupim
um poema que faça um buraquinho
nos livros das suas estante
(um poema que transforme
todos os teus outros livros de poesia
em pó)
um poema pequeno como um
átomo
um poema que, ao abrir,
cause uma explosão
que destrua o mundo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

vida que segue, como dizias
mas eu pergunto: seguir como?
após pegar todas as sinaleiras abertas
após todos os sinais verdes
que nos fizeram imaginar que nunca mais
precisaríamos parar
após deixar para trás os cães de rua
que esperam para atravessar na faixa
de pedestres
após atropelar toda as inibições
e passar as rodas, à toda velocidade,
pelos nossos mortos (e mortas)
até que eles não fossem mais do que uma mancha
no passado
após nos acostumarmos à vista
que voa desesperada pela janela
todas as pessoas esticadas num único borrão
todas, sem excessão
(só eu e tu não)
após esse vento no rosto e esta pressa
esta pressa de chegar
esta pressa de imaginar que estamos chegando
não importa onde
esta pressa que virou a certeza de que algo
ou qualquer coisa
nos esperava logo adiante --
eu te pergunto: tudo bem, vida que segue,
mas seguir como?

sábado, 9 de agosto de 2025

assim meio a vagar
entre uma coisa e outra
assim meio a chegar
em lugar nenhum
assim meio a ter pressa
de dormir, mas não de acordar
assim meio querendo
o sonho, mais do que a vida
assim meio a dividir
duas metades, mal repartidas
assim meio a contar
os cílios de um olho aberto
assim meio a rugir
feito um leão, mas ser um gato
assim meio a pedir
mas em segredo
assim meio a lutar
já desistindo
assim meio ao luar
mas amanhecendo
assim meio a furtar
um ar da boca
assim meio a impedir
o próximo momento
assim meio a cortar
a língua nos dentes
assim meio a gerir
uma decadência
assim meio a partir
mas ir ficando
assim meio a ficar
feito um adeus.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

 esta noite me persegue
como uma sombra -

esta noite também me antecipa
como uma descoberta;

(chega até mim como um navio pirata
depois me invade como uma praia
deserta)

esta noite cerca-me e me extingue
como a uma chama;

(de sua boca sopra um leve sussurro
que me escurece -

não é nada demais:
uma lembrança)

esta noite vai durar mil e um anos
como uma canção de ninar

e começa agora
como uma criança.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

por causa do vento
mastigamos areia -
o sal pousou em nossas bocas
para não precisarmos
beber do mar.

por causa da areia
nossos pés afundavam
e porque nos arrastávamos lentamente
tivemos a chance de ficar em silêncio
muito tempo
ouvindo apenas o trêmulo
calor do teu corpo

porque irias embora
após a última música
te levei para ouvir o minueto
das ondas
"vamos nos despedir quando
o mar fizer silêncio",
eu disse

"eu não vou ficar para sempre",
tu disseste
e eu respondi "shh --
estás perdendo a melhor parte"

naquela noite
nossas preocupações cabiam
numa concha de berbigão
porque o mundo cabe
numa concha de berbigão

depois o milagre:
o primeiro fio do sol
alisou o horizonte
e calou o mar

no espelho que sobrou
afundaste para nunca mais
voltar..

sexta-feira, 16 de maio de 2025

duas nuvenzinhas vermelhas

toda semana corro descalço
pelos espinhos d'um dia
útil
até o baixo cume d'uma
sexta-feira  -

de pés vermelhos me
lanço
do desfiladeiro;
um suicido sobre teus lábios
encarnados,
cor-de-sangue -

depois durmo
até me cansar,
como s'eu fosse a sombra
d'um pequeno
beijo
esquecido sobre
uma nuvem rubra.

terça-feira, 1 de abril de 2025

certas coisas
só aceitaria te dizer aos
sussurros
à beira do mar
durante uma tempestade
para que tu confunda as palavras
com o vento,
ou com as ondas
explodindo contra as
pedras,
palavras que eu não
gostaria que tu
ouviste
mas que eu gostaria de
pendurar nos teus cabelos
como gotas
d'água
ou derrubar na tua língua
como uma pedra
de sal
ou que caíssem e fechassem os teus
olhos como
um beijo.

sexta-feira, 7 de março de 2025

este cheiro doce é
uma fruta que apodrece -

a primavera distribui pequenos
beijos sem abrir a boca -

à uma música não importa
a voz que a cante -

uma flor qualquer só renasce
para que dance.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

minha vida como um grande matemático

conto as moedas (metal
subitamente arcaico) guardadas
na caixinha de plástico
em seus incrementos de cem --

sinto saudades do tempo
em que decidíamos nosso destino
com uma moeda de vinte
e cinco centavos --
este era o valor de qualquer um dos dois
caminhos que se abriam
para o nosso futuro;

na frente do espelho
estão dois olhos, mas sei que estes
não são os olhos que enxergam
e são, portanto, quatro olhos;
quatro olhos e dois homens -
e dois mundos -
e no reflexo de um reflexo
quatro mundos, e em cada espelho
o reflexo dos outros espelhos
e em cada espelho, o infinito --

quando estou sem sono,
caminho dentro do espelho contando
os mundos felizes
e os mundos trágicos;

quando estou sem sono,
conto as letras do seu nome
para adormecer.

o truque do espelho é que se
com os olhos reais vejo a coroa
no reflexo mostro, à mim mesmo, a cara --
por isto eu e meu outro sempre
nos afastamos do reflexo
na direção contrária.

conto com a sorte
para que me encontres também
do outro lado,
além dessa janela em que outra vida
se deixa relancear --

é por isso que sorrio sempre
que nos refletimos
lado a lado,
não é porque existe, como eu sonho,
duas de ti; não é porque quando nos beijamos
são infinitos lábios pousando-se
(em infinitos universos) como pequenos pássaros
macios;
mas porque mesmo na direção
oposta,
tu estavas lá.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

o trovão de uma porta fechada
à força -
todo homem é uma tempestade
ou pode sê-lo -
às condições corretas de umidade
e pressão precipitamos como uma
chuva fúnebre;
é possível ouvir o silêncio entre os nossos
soluços
ondulando como a água dourada
na face de uma poça
(saltamos como uma criança:
com os dois pés inteiros)
no horizonte púrpura
as estrelas caem como balas de prata;
a beleza também nos perfura
ao trocar a carne faminta por essa pele sutil,
de papel;
fustigado pela imortalidade
por trás de cada segundo
(cada partícula de tempo é única
e é feita de chumbo)
seguimos adiante, vamos tremendo,
mas vamos
porque contra a dor só há
um segredo, um único segredo
gritar:
        - Não aguento mais,
e aguentar.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

tentiva de sanar a dúvida de uma criança

 porque vai levando;
porque quem sabe, no além?
porque um tropeço,
uma queda, um buraco
porque hoje, amanhã,
não há urgência;
porque a página virada
é uma página dupla;
porque vai levando;
porque vai trazendo
sobre as costas;
porque por querer;
porque sete parágrafos
de eloquentes explicações,
trinta e sete mensagens,
dezessete apelos em forma de cartas ilegíveis,
quarenta e sete petições de princípio,
argumentos inconclusivos e inconclusíveis;
porque evidentemente;
porque há um dia após este
como houve ontem outro;
porque vai levando;
porque à espera da nova
coisa;
porque por quê?;
porque a resposta
nunca importa
como a pergunta
que a produziu.

domingo, 8 de dezembro de 2024

todo ano constrói
um dezembro

último mês para que
caia o resto da chuva prevista
e faça os últimos graus de frio

último mês para
ler os livros prometidos
e cumprir as metas primeiras

o mês dividido
entre urgência do prazos finais
e a nostalgia de um passado recente

(nos dedos das mão
contam-se as vitórias inquestionáveis,
nas mãos e nos pés,
os dias perdidos ou desperdiçados)

dezembro é um
suspiro
dezembro é um começar
tarde demais.

todo ano constrói
um dezembro
mas todo dezembro constrói
uma primavera.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

pequena fábula de amor real

 cai este imenso temporal

(as roupas todas
quarando à chuva fina,
pois é claro)

uma fina névoa
que nos separa do resto
do mundo

(há os que estão secos
e nós,
que somos úmidos)

com um impermeável
saio à tormenta
enfrentando a saraivada do céu
em ataque

o vento arranca
as roupas das minhas mãos,
arranca-as do varal

(atira-as para o céu
como se fossem fogos azuisvermelhos
de algodão)

eu, impotentemente,
um cão molhado,
abano-te minhas mãos:
- agora a opção que nos resta, amor,
é vivermos nus.

sábado, 9 de novembro de 2024

 na tua pele escreve-se
o langor da tua pele
- a noite escura adormecida
com a cabeça no teu peito -

teus lábios partidos,
dois mares de sangue, que
marulham - a sinfonia solitária
do teu hálito azedo -

não há em toda criação
criatura mais imperturbável
que o ressoar do teu silêncio
- nem o tambor no meu coração
pode arranhá-lo entre os lençóis -

existem imagens igualmente
perfeitas na fumaça de um cigarro
mas duram um só instante, não mais,
enquanto tu não.

tu duras
uma noite inteira.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

eu te aviso
para não acreditar
no poema

para não acreditar
no feriado
ou no poema

para não acreditar
no precipício da segunda-feira
nem nas cinzas de
um terceiro cigarro

para não acreditar
num mundo fora deste bolso
ou nas previsões de sol,
nem nas de chuva
porque o tempo parou

eu te aviso
para não acreditar
no poema
ou no poeta
e para ficar no escuro
deste bolso
e para acreditar apenas
na ponta da minha língua
a única parte minha
que não sabe mentir.

domingo, 29 de setembro de 2024

depois do almoço

em outros tempos
eram muitas as vontades
(capturar um pássaro de fogo
feito uma palavra lançada ao ar,
metê-la no bolso, e retorná-la
ao silêncio, como se a apagasse
dos seus ouvidos; submergir no mar
como se fosse o teu perfume,
singrar o teu cheiro denso como se
fosse o sal, e eu um navio zarpando
das espáduas do teu continente
selvagem; flutuar na fumaça cinza
desse cigarro nos teus lábios cor
de sono, subir aos céus até alcançar
a estrela mais viva, enfiá-la na boca
como se fosse um diamante das
tumbas de açúcar de um rei morto;
caminhar um ano inteiro sem repetir
uma única rua, desenhar com os pés
um labirinto sem paredes, abrir o
mundo inteiro como uma laranja,
revelar as teias brancas sob as entranhas
vermelhas; e seguir em frente, sempre
em frente, mesmo que para isso avance
de pés nus, que caminhe sobre as águas, e
precise amarrar minha rede nos ganchos
das nuvens, e a ambição me consuma
até que eu vire apenas o pó da estrada...)
mas as vontades passam como os anos
até sobrar apenas uma:
sentir a euforia desta folha verde
quando (em eterno repouso)
lhe beija o sol.