terça-feira, 26 de outubro de 2010

em veneza

eu entendo que o tempo
me dá tempo

e então eu danço
(ou tento).

e um dia, ela aparecida
era linda e leve e luzia
e eu tive
tempo
era feliz de um jeito triste
como chuva.
foi o que eu vi.

e fomos falar um ao outro
mas o sino da catedral viu
que eram seis horas
e foi avisar o mundo
calando sua boca
que abriu quase
depois fechou
e esperou o eco correr
pela ruas nuas
pelos cantos das pedras
pelos velhinhos passeando.

e seus olhos e a reverberância
do silêncio
me olhavam impacientes
e então sem pressa.
foi quando me disse a coisa mais linda:

quando se cansar de mim
não poder mais acompanhar meus passos
a minha dança machucar os nervos
ou as folhas caírem
deixando as árvores nuas
e nossas mãos não conseguirem mais
colocar elas de volta no lugar
nem fazer elas darem flores vermelhas
então
eu continuarei agarrada ao que me deu
nos últimos segundos
a esse olhar perdido
e a esse peito vivo
e a essa rosa na terra
com as pétalas caídas
e juntos
e impotentes
e apavorados
e muitas coisas mais
nós esperaremos o tempo
de ficarmos quietos.

e quando o eco foi tão longe
que quase voltava
e sua voz teve espaço
não disse nada dessas coisas
que o sorriso falou
mas eu sei que o tempo
me dá tempo
e que você não é misteriosa
mas é um mistério.

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