Mostrando postagens com marcador livre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livre. Mostrar todas as postagens

sábado, 6 de agosto de 2011

escrevo uma carta para você lembrar de mim
para você lembrar de mim mesmo sem a ler
só de ver o meu nome e saber que sou eu
e lembrar de mim, mesmo sem querer ou ter vontade
escrevo uma carta para você para você lembrar
das coisas que lembra quando me vê ou
quando pensa no meu nome, e em nós dois juntos
e começo a ficar curioso sobre quais coisas são
porque as minhas são diferentes das suas, eu sei
porque quando eu penso em você lembro de como nós éramos diferentes
escrevo uma carta para você para, quem sabe,
você sinta saudade de mim e da nossa felicidade passageira
escrevo sem me preocupar que você a leia
sem escrever nada dentro do envelope, sem um poema,
sem uma rima, sem uma palavra
escrevo sem ter nada para te dizer, nem vontade
de falar contigo, de saber como você está
escrevo uma carta para você para eu me lembrar de todas as coisas
escrevo uma carta para você não me esquecer
como eu ando te esquencendo.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

e no vento alguma coisa me disse
meu irmão - mon frère -
há no mundo um outro irmão
da mesma tua fraternidade
que sabe o teu nome, já,
por entre os dentes e os lábios,
e nos teus também o dele
e nada mais há de ser dito entre os dois
mais que os nomes
e o sangue apagado
e vós juntos numa só voz
irão escrever cartas sobre essa coisa
que um dia foi sofrimento
sem qualquer amargo
porque a dor, que um dia então esfria,
nas vossas mãos tentará ser poesia.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quieto & negro

entendo no silêncio
tanta coisa a mais
do que me poderiam dizer
aquele dia, aquela gota
de vinho na tua boca

(quase rompiam com a luz)

e como no teu jeito
de mexer no meu cabelo
vi nascer nossos lábios colados
brotando flor, arfando
degolando noite adentro
a madrugada em nossos sussurros

nos arrastamos pelo gosto
até pingar treva pelo céu
e escorrer em nosso sono
mal dormido, nossa manhã
vomitada, nosso futuro
esquecido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Para onde vai?
não sei.
Quando vai?
não sei,
se puder, hoje,
se tiver coragem,
agora.
Como vai?
não sei.
E agora?
não sei.

E como foi?
não sei--
sabe, tenho medo
as vezes
de lembrar errado
e deixar o passado
azedo.

Mas como vai?
não sei,
seguindo pela praia
até cansar da areia
até a sereia
se afogar.
daí pelos mares
sem risco de amores
e pelo deserto
debaixo das águas,
sempre a pé.

E com quem vai?
sempre,
infelizmente sempre,
com quem não esperar
a minha volta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

minh'alma cansa

não falamos a mesma língua
pois nossas terras distantes
há muito se afastaram

a vertigem de olhar para trás
entre o fundo do que me lembro
e a superfície do que sou
não reconhece a volta do tempo;

o eco do que contávamos
retorna como uma onda à praia
após conhecer o mundo;
a borbulha é uma lembrança
a me cobrir os pés de areia
e a primavera traz flores semelhantes
mas não as mesmas;
teu nome, nessa voz, é lilás
verde nas águas, branco na espuma;
mas minha boca compreende apenas
o sal dos teus olhos
que mudavam a cor junto com a luz
e, no poente, eram negros.
interrogado sob a mira de uma arma

tenho respostas para todas as perguntas
sem resposta
que ninguém faz.

sei descrever o gosto do amor
igual em cada boca;
sei explicar a costura da alma
à alma outra;
sei os motivos e as razões
dos loucos
e dar voz a suas loucuras.

as perguntas não procuram respostas
toda resposta em busca de sentido
está perdida.
as coisas só existem quando são.
e não cabem mais as respostas
no que nós somos.

o passarinho se rende
à gaiola
e mesmo assim canta
e mesmo assim vive
porque (essa é uma resposta)
ele sempre vai poder fazer
todas as coisas de passarinho
que quem não é passarinho não pode.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

em veneza

eu entendo que o tempo
me dá tempo

e então eu danço
(ou tento).

e um dia, ela aparecida
era linda e leve e luzia
e eu tive
tempo
era feliz de um jeito triste
como chuva.
foi o que eu vi.

e fomos falar um ao outro
mas o sino da catedral viu
que eram seis horas
e foi avisar o mundo
calando sua boca
que abriu quase
depois fechou
e esperou o eco correr
pela ruas nuas
pelos cantos das pedras
pelos velhinhos passeando.

e seus olhos e a reverberância
do silêncio
me olhavam impacientes
e então sem pressa.
foi quando me disse a coisa mais linda:

quando se cansar de mim
não poder mais acompanhar meus passos
a minha dança machucar os nervos
ou as folhas caírem
deixando as árvores nuas
e nossas mãos não conseguirem mais
colocar elas de volta no lugar
nem fazer elas darem flores vermelhas
então
eu continuarei agarrada ao que me deu
nos últimos segundos
a esse olhar perdido
e a esse peito vivo
e a essa rosa na terra
com as pétalas caídas
e juntos
e impotentes
e apavorados
e muitas coisas mais
nós esperaremos o tempo
de ficarmos quietos.

e quando o eco foi tão longe
que quase voltava
e sua voz teve espaço
não disse nada dessas coisas
que o sorriso falou
mas eu sei que o tempo
me dá tempo
e que você não é misteriosa
mas é um mistério.