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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

retrato de um casal se beijando em uma banheira, mulher dentro e homem fora, apaixonados e absolutamente (sério) nada trágico

a deriva de dois barcos
sabiand'o assobio dos sabiás
feitos sem portos ou faróis
mas juntos de ladoalado
águ'à ondular adocicado
horizontando à girassóis

caíam juntos celestiais
sem o querer-se sasonais
pela banheira tod'inteira
penduradas lendas emrendas
nas saias de enfim cansadas
de giros dançar sem sujeira

e bocas d'em gelo e água
acertam vilanias de paisagem
submarina'mãos de borbulhos
oceanam tod'os navegantes
chamas queimam cortantes
e calam a poesia imprecisa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

essa nossa fotografia
não me lembra daquele dia
nem dessa alegria
que a lente forçava, arredia
quando nos decidimos sorrir.

me lembra dos meus óculos
sujos; de fazer minúsculos
gastos, carinhos maiúsculos
multiplicando nos cálculos
todos os beijos roubados;

me lembra do frio, do calor
de cenas obcenas do amor
que eu não sei mais viver;

me lembra sensatez sem sal
um dia e outro sempre igual
a aventura trivial no litoral
daquele, na praia, temporal
que estragou meu livro favorito;

lembra o feijão que não comi,
vodka misturada que não bebi,
dor que não senti (nem gemi),
declaração que eu não recebi
porque disse que Não (por ti?);

me lembra quando aconteceu
e dormi como se fosse Orfeu
nos braços de Eurídice;

e lembra quando eu te disse
que o amor eu não entendia
mas, meu deus, como eu sentia!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

aqui o desenho do teu corpo
foi feito na luz
a lua fez ampla tua forma
ondulada e azul
e o sol queimou meus olhos
por onde não te vi

toma, da boca vil que te atormenta
a mesma tempesta'de voz sangrenta
o mesmo medo que era a escuridão!

no contorno da tua linha
e peito exposto
uma chuva quente em
meio agosto
mostrou a mesma graça
nas águas

quand'os olhos que amam estranham
a beleza castanha dessa sorte
dúvida dessossega, anjos cantam
o prenúncio certo dessa morte!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

soneto da pressa

o vento retalhou mar calmo
em onda lambida de som oceano
e a cólera que fez esse ano
coube encentrada num palmo

virou cansaço, o era escárnio
profundo como o sono da puta
embebedada dessa vida enxuta
chorando o choro do canário

e a dor que era pensamento
no centro de um labirinto
ganhou asas

voou pelas paredes, além gaiola
improvável pelo céu, pela pistola
e pelas casas

sábado, 11 de dezembro de 2010

você não devia ter abandonado
seu sorriso recém-acordado
nas minhas dobras de lençol

no frio, me põe saudade
quando encontro a felicidade
dos nossos dias sem sol

e no calor do seu sorriso
o meu riso mostra preciso
a sua presença vazia

e na cama ensaio desmaio
pra ver como eu me saio
fingindo essa tal alegria

domingo, 21 de novembro de 2010

(ah, como não tinha percebido que pasárgada fala um tanto de morte? e manuel, de fé e de amor desiludido... tão claro, que o se matar parecia um despiste; era o próprio encerramento? morrer pela outra não tida [falo mais do uso lindo do tenho e quero, presente, possessivo, afirmativo?]? isso era um título, não uma análise.)

o cavalo, a força pelo torso
e o som seco do disparo
como o sangue num pedaço
de silêncio;

da viagem uma promessa
de retorno ao paraíso
a prostituta nem começa
a namorar, o prejeuízo
dos banhos n'água do rio
que corre um alvoroço,
não canto nem um assovio
se a vida foi o esforço;

e se do rei que veio a bala?
do meu amigo, eu traído?
quis me matar (por amá-la?)
de solidão!

podia tudo, naquela hora
sozinho, inventar ela,
comer maçã, comer amora,
navegar outra caravela;
guardav'a voz em urna grega
para não dizer do amor
nenhuma superfície vaga
ou mentira indolor;

agora, apenas à vida digo nada
no arrefecer dos meus bocejos,
só sabe a noite, nova amada,
dos meus beijos!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

maria não sabe ficar quieta

maria, em sua só forma
de menina, despindo
a mulher como máscara,
sentido lágrima surgindo,
e no brilho-silêncio dela,
olhou para o céu tinindo
e perguntou par'as estrelas
como ela podia, sorrindo,
também virar o rosto para o mundo?

sábado, 13 de novembro de 2010

café da manhã

as infâmias que te descem montanhas
seguem o fluente da cristalina nascente
dos segredos, nos teus lábios quedos,
e caem sutilmente, na calma crescente
dos lírios, teus olhos envoltos em cílios,
no estranho da tecelagem de um sonho,
feitos de dedo de'vaneios, rugas, medo
e um espinho, nascido só um pouquinho
mas afiado, como teu jeito insaciado
nos lençóis, transformando os girassóis
do sonho em fogo: pesadelo, o estrago
fisgando a voz, embotada de arrebóis,
que desperta, e bem no íntimo acerta
a incerteza, os teus olhos sobre a mesa
sobre os cafés, teu amor sob meus pés
e finaliza, como nosso mel que cristaliza.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

minh'alma cansa

não falamos a mesma língua
pois nossas terras distantes
há muito se afastaram

a vertigem de olhar para trás
entre o fundo do que me lembro
e a superfície do que sou
não reconhece a volta do tempo;

o eco do que contávamos
retorna como uma onda à praia
após conhecer o mundo;
a borbulha é uma lembrança
a me cobrir os pés de areia
e a primavera traz flores semelhantes
mas não as mesmas;
teu nome, nessa voz, é lilás
verde nas águas, branco na espuma;
mas minha boca compreende apenas
o sal dos teus olhos
que mudavam a cor junto com a luz
e, no poente, eram negros.
a sombra dos padrões, pintam as paredes,
do teu corpo atravessado pela luz
às margens, corações das folhas verdes,
estendidas aos pés da minha cama;

sepultas o silêncio em véu de noite
o cheiro dos cafés, saídos do fogo,
dança contigo pelo banheiro, assiste,
a tarde, aos teus movimentos tortos

e o antigo dos sons do meu sufoco
encerra a minha paixão de drama.
teu orgasmo, entre a coberta, cênico,
dilecera cínico no meu peito, e a minha cama.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

a boca da noite

tinha, e não podia?, um gosto raro:
na noite mais fria, vendo naufrágio
a beiramar, o som das ondas, puro
quebrando vento e, trocando, frágil
a estrada sencaminho pelo escuro;
o espírito, sentia, consumia volátil
e, nos braços do céu, ele perdido.
no tecido das estrelas, sem espaço
para essa sua forma sem sentido,
suspirou, dando à frente um passo,
e de rendido acabou sendo engolido.

sábado, 23 de outubro de 2010

minha amada, tenha beijos de sereno
para só me saber beijado quando desperto.
que seu coração voe, partido e aberto,
senrumo e sem asas, como num aceno.

minha amada, só mostre suas ranhuras
como se fosse uma asa de borboleta
contraluz, toda fragilidade e dileta.
durante a vida, pareçam lindas e duras.

minha amada, só chore num esconderijo
em que eu, o escuro, te protejo,
e que só uma lágrima seja salgada.

tenha um dia do mês para saudade,
de possibilidades perdidas na mocidade,
e sós assim seremos sempre, minha amada.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

(fui dançar com manuel)
não amo em ti o cabelo
negro e encaracóis, nem
o sorriso que fica feio
na foto. não te amo em
juras de amor, nem teu
corpo me dizendo amém.
não amo em ti tua cor
branca natural, e nunca
amei o teu infinito. não
amo o olôr da tua nuca
nem tuas mãos gordinhas
ou o que te pensa única.
amo em ti coisa apenas:
meu reflexo no grande
do teu olho, que sei vou
me encontrar mais tarde
todo exposto e sempre
noutro canto da cidade.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

aqui só existem caminhos de vidro
(é mais bela a história do vencido)
interessa, sempre mais, o homem caído

(no chão estendido
tateando o calor passageiro
de outros passos
beijando a delicadeza torpe
de ausente corpo
engasgado com o sabor e samba
dos cabelos, súdito
de quaisquer ventos)

não há de se querer a glória augusta
nem temer um frio eterno ou solidão
por detrás de todos sim de boca casta
já se esconde a certeza de um não

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

eu, que te procuro, não te acho
nesse, nem em mais lugar algum;
nas minhas coisas de menino, te encaixo
com a mesma cor desbotando um
pingo de memória.

minhas rugas e tuas usuras
tem os mesmos tons de morte
lembro noite: me colas e me juras
e me mordo que, pela sorte,
também te queria.

hoje chove e o gato dorme
não te pensava já há dois anos
perdi de mim o teu costume
e não sofro mais pelos nossos planos
de amor e miséria.