domingo, 8 de dezembro de 2024

todo ano constrói
um dezembro

último mês para que
caia o resto da chuva prevista
e faça os últimos graus de frio

último mês para
ler os livros prometidos
e cumprir as metas primeiras

o mês dividido
entre urgência do prazos finais
e a nostalgia de um passado recente

(nos dedos das mão
contam-se as vitórias inquestionáveis,
nas mãos e nos pés,
os dias perdidos ou desperdiçados)

dezembro é um
suspiro
dezembro é um começar
tarde demais.

todo ano constrói
um dezembro
mas todo dezembro constrói
uma primavera.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

pequena fábula de amor real

 cai este imenso temporal

(as roupas todas
quarando à chuva fina,
pois é claro)

uma fina névoa
que nos separa do resto
do mundo

(há os que estão secos
e nós,
que somos úmidos)

com um impermeável
saio à tormenta
enfrentando a saraivada do céu
em ataque

o vento arranca
as roupas das minhas mãos,
arranca-as do varal

(atira-as para o céu
como se fossem fogos azuisvermelhos
de algodão)

eu, impotentemente,
um cão molhado,
abano-te minhas mãos:
- agora a opção que nos resta, amor,
é vivermos nus.

sábado, 9 de novembro de 2024

 na tua pele escreve-se
o langor da tua pele
- a noite escura adormecida
com a cabeça no teu peito -

teus lábios partidos,
dois mares de sangue, que
marulham - a sinfonia solitária
do teu hálito azedo -

não há em toda criação
criatura mais imperturbável
que o ressoar do teu silêncio
- nem o tambor no meu coração
pode arranhá-lo entre os lençóis -

existem imagens igualmente
perfeitas na fumaça de um cigarro
mas duram um só instante, não mais,
enquanto tu não.

tu duras
uma noite inteira.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

eu te aviso
para não acreditar
no poema

para não acreditar
no feriado
ou no poema

para não acreditar
no precipício da segunda-feira
nem nas cinzas de
um terceiro cigarro

para não acreditar
num mundo fora deste bolso
ou nas previsões de sol,
nem nas de chuva
porque o tempo parou

eu te aviso
para não acreditar
no poema
ou no poeta
e para ficar no escuro
deste bolso
e para acreditar apenas
na ponta da minha língua
a única parte minha
que não sabe mentir.

domingo, 29 de setembro de 2024

depois do almoço

em outros tempos
eram muitas as vontades
(capturar um pássaro de fogo
feito uma palavra lançada ao ar,
metê-la no bolso, e retorná-la
ao silêncio, como se a apagasse
dos seus ouvidos; submergir no mar
como se fosse o teu perfume,
singrar o teu cheiro denso como se
fosse o sal, e eu um navio zarpando
das espáduas do teu continente
selvagem; flutuar na fumaça cinza
desse cigarro nos teus lábios cor
de sono, subir aos céus até alcançar
a estrela mais viva, enfiá-la na boca
como se fosse um diamante das
tumbas de açúcar de um rei morto;
caminhar um ano inteiro sem repetir
uma única rua, desenhar com os pés
um labirinto sem paredes, abrir o
mundo inteiro como uma laranja,
revelar as teias brancas sob as entranhas
vermelhas; e seguir em frente, sempre
em frente, mesmo que para isso avance
de pés nus, que caminhe sobre as águas, e
precise amarrar minha rede nos ganchos
das nuvens, e a ambição me consuma
até que eu vire apenas o pó da estrada...)
mas as vontades passam como os anos
até sobrar apenas uma:
sentir a euforia desta folha verde
quando (em eterno repouso)
lhe beija o sol.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

bem, a forma
só se revela no fim
e após um começo -
não é possível dizer
nada entre nós dois
sem que isso acabe
quer dizer, o sentido
disso, o conteúdo
do amor, este gesto
diário, este beijo
na testa, aquele beijo
nos lábios secos,
frios também (é inverno,
é demasiadamente
inverno), ou no calor
que me roubas sob
a coberta, são hoje conteúdo
do amor, mas serão
sentido? não há como
saber, como não
sabemos quando
tropeçará o pássaro
no meio do vôo e
descerá de cabeça
sobre uma margarida,
quer dizer, o curioso
caminho das coisas,
de todas as coisas, o
mundo inteiro segue
adiante aos tropeços,
mas sem cair, o presente
é um bêbado sem
rumo, mas um bêbado
feliz, um bêbado que
canta, amar também
é um horrível dueto,
e o melhor amor é esperança
de uma rapsódia
sem fim.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

o passado guardamos
na geladeira
como comida velha,

um pote de plástico
com as palavras
que não aguentamos mais comer.

o passado fazemos
questão que azede lentamente
como o leite.

sentimentalmente, fingimos
que se o requentarmos voltará
a ser o agora,

o momento quente e vivo
e saído do fogo
que não passará outra vez.

o passado guardamos
com a esperança
de que dessa vez não mofe.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

o dia de trabalho é
um leão adormecido com a barriga para cima
o amor é uma mão
que se rende à essa armadilha
porque, afinal, apesar do tamanho,
trata-se de um gato

o amor é, afinal, uma história
de sangue,
uma ameaça de desmembramento
dois corações costurados
em um único peito aberto
que se obrigam a bater

domingo, 19 de maio de 2024

falamos apenas uma espécie de poesia
sem nada a dizer
palavras que se encaixam como
brinquedos de criança
ocos por dentro
versos que voam de uma língua à outra
como aviões de papel
por um céu de fogo
(é a única explicação para a eventual
cinza em nossa boca)
vírgulas que, como ensinam as professoras primárias,
são uma pausa, são o silêncio
indeciso
o silêncio se vai ou não vai
mas sempre o nascimento
de uma nova estrofe
sobre
o tempo a chuva as tragédias nos jornais
as preocupações passageiras
as decisões drásticas de um destino
uma poesia sem nada
a dizer
pontuada pelo segredo
de tudo que evitamos dizer.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

domingo, 21 de janeiro de 2024

o tambor
faz a chuva
subir;

na minha pele
a chuva
ferve;

nos teus ombros
a chuva
dança;

a chuva não para o carnaval.

pelo contrário,
a chuva
samba.

sábado, 2 de dezembro de 2023

                                                               fernandinho

há o que há
e o que não há
e o que houve
que é os dois
em tempos diferentes.

tu estás num balcão de bar.

eu estou cercado de flores
estou em um cerco de luzes
eu estou no precipício dos meus trinta e cinco anos
meus trinta e cinco anos
estão no umbigo da eternidade
que está no precipício do esquecimento.

tu e teus cachos
conversam com outro homem
logo na minha frente!
eu! que ainda lembro como beijas...

como virão as noites de verão,
como darei de comer aos mosquitos,
como tu disseste uma vez
que não queria entender
como funcionava a poesia
para que ela mantivesse seu mistério
(eu quis te contar,
só para te mostrar que por trás do segredo
há outro segredo,
afinal a poesia
é uma arte de versos)

escrevo esse poema,
me é claro,
porque nunca escrevi um poema para ti
e toda mulher que me estendeu a mão
merece seu poema.

mas não sou boa pessoa.
escrevo sem nunca enviá-los.
deixo que eles sejam uma aliança
entre eu
e o esquecimento.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

é preciso
dizer sim e
é preciso ceder

é preciso
abrir a boca
e receber a água
da sua boca
e é preciso bebê-la

é preciso
conhecer e amar
esta água
e é preciso bebê-la
seis taças por dia

eu preciso
uma vez por semana
que operes o milagre
do vinho
e em minha boca
derrames a anti-água
de tua boca roxa

é preciso
colher a chuva
como uma máscara líquida
e amar o céu nublado
é preciso
abrir-se; contar as mentiras certas;
neologisar; fingir-se o criador
original do amor; baixar
a cabeça; sacrificar o orgulho
num altar de ossos; contar
com a língua os dentes na boca;
contar com a boca os olhos
na face; perfurar o céu
como uma lança; aprender a língua
dos anjos; não usá-la para nada;
suspender o juízo; colher os dias
como ervas daninhas;
explicar-se; compreender
o incompreensível; não dançar
nunca; ver formas inventadas
nas nuvens; acompanhar o tremor
das pálpebras sonhadoras;
perder o medo da auto-estrada;
usar os dedos como pentes; cair
em graças; não romper o olhar
do sol;
ou apenas beber a água
e o vinho,
por favor.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

para chegar ao outro lado
disto
construo um pequeno barco
de madeira de eucalipto
trançado com fios de cabelo
que recolho da cama.

faço-o nadar com as mãos
a água é leve, a maré é menos
não sobraram monstros
no mar.

no horizonte do outro lado
vejo que não há nada para mim.
então estou livre.
este barco é minha ilha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

a boca fria do inverno
comeu meus lábios
durante o sono
mordendo-o pelas bordas
como fazes
quando eu chego

terça-feira, 1 de agosto de 2023

1.
a noite é dócil
sento nesse ninho de algodão
tu te empoleiras em mim
e me alimentas
(feito passarinha)
com os gemidos que vertes
entre nossas bocas
grudadas

2.
pela janela,a lua uma lagoa branca
no teu umbigo, eu uma poça branca

3.
o amor pode ser difícil
mas com os dedos enfiados
contra os teus músculos
possuídos
tua água correndo pelas minhas mãos
junto à minha saliva
eu sussurro no teu começo de tudo
e me respondes
que não pare não pare
que sempre te fale mais

o amor pode ser difícil
mas fazê-lo não é.

domingo, 18 de junho de 2023

deus criou o gato
para anunciar o inverno.

mas nós,
pessoas sem fé

o inverno nos surpreendeu
é quase nosso fim.
não fosse,
no desespero da noite,
a criaturinha bivalve
do nosso abraço

criação humana,
mas inegavelmente
divina.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

mato, no teu dorso,
um mosquito que se alimenta
do que é meu

uma gota de sangue explode
mancha tua pele branca

em silêncio
(é noite, precisamos nos calar
mesmo a morte dele é muda
sua alma parte sem zumbir)

molho meu dedo
apago o vermelho da tua pele
e sem encostar em ti outra vez
fecho meus olhos
para assistir ao sonho em que te cozinho
inteira
com nada além
de um fiozinho de azeite.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

assim como
a fruta na árvore
o vermelho na fruta
o verde na folha
o pulo no gato
a bala no cano
a chuva na nuvem
e a língua na boca,
estou por um triz

terça-feira, 8 de novembro de 2022

diário de sonhos oito de novembro, 22

hoje sonhei que minha vó se perdia no shopping
e meu avô me pedia para procurá-la
minha vó, com alzheimer, desaparecida no shopping
meu avô, quando faleceu, era um homem grande
e eu era um menino pequeno, mas hoje não
hoje eu tenho a altura e o peso que talvez ele tinha
e ele passava seus braços pelos meus ombros
e eu os meus pela sua cintura
"não me deixa cair" ele me dizia
e eu puxava-o para cima, e o segurava inteiro
com segurança, tinha força para segurá-lo
era fácil, era meu avô
e ele me via homem pela primeira vez
e era óbvio para ele que eu era um homem
procurávamos a minha vó, a mulher dele,
e também a minha, ela também foi minha mãe
preocupados porque a doença dela fazia ela se perder
e quando desistíamos (ele precisava descansar)
eu sentava ele num sofá, e ele parecia muito cansado
mas muito vivo
e eu pensei "é a minha chance de tomar uma cerveja com ele"
eu nunca tomei uma cerveja com o meu avô
porque eu ainda era um menino
eu tomei o colarinho das cervejas que ele me pedia para ir buscar
atravessando a rua para ir à venda
segurando a garrafa pelo gargalo, como ele ensinou
eu era ainda mais menino nessa época, cinco ou seis anos
e ele nos dava de beber, aos netos, um gosto do colarinho
(minha mãe se apavorou quando descobriu
mas a morte já havia prescrito o crime)
mas não tivemos tempo, nós dois
minha vó apareceu, foi encontrada
e trouxeram ela até nós
e meu avô ficou tão feliz que levantou
sem cansaço e sem doença
e pegou as mãos dela nas suas
e dançou
e da expressão distante e ausente da doença
o rosto da minha vó se iluminou e gargalhou
e meu avô também sorria muito, reunido à ela
eles que passaram tanto tempo longe um do outro
e foram tão felizes
que eu acordei, para que tivessem privacidade.