terça-feira, 1 de abril de 2025

certas coisas
só aceitaria te dizer aos
sussurros
à beira do mar
durante uma tempestade
para que tu confunda as palavras
com o vento,
ou com as ondas
explodindo contra as
pedras,
palavras que eu não
gostaria que tu
ouviste
mas que eu gostaria de
pendurar nos teus cabelos
como gotas
d'água
ou derrubar na tua língua
como uma pedra
de sal
ou que caíssem e fechassem os teus
olhos como
um beijo.

sexta-feira, 7 de março de 2025

este cheiro doce é
uma fruta que apodrece -

a primavera distribui pequenos
beijos sem abrir a boca -

à uma música não importa
a voz que a cante -

uma flor qualquer só renasce
para que dance.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

minha vida como um grande matemático

conto as moedas (metal
subitamente arcaico) guardadas
na caixinha de plástico
em seus incrementos de cem --

sinto saudades do tempo
em que decidíamos nosso destino
com uma moeda de vinte
e cinco centavos --
este era o valor de qualquer um dos dois
caminhos que se abriam
para o nosso futuro;

na frente do espelho
estão dois olhos, mas sei que estes
não são os olhos que enxergam
e são, portanto, quatro olhos;
quatro olhos e dois homens -
e dois mundos -
e no reflexo de um reflexo
quatro mundos, e em cada espelho
o reflexo dos outros espelhos
e em cada espelho, o infinito --

quando estou sem sono,
caminho dentro do espelho contando
os mundos felizes
e os mundos trágicos;

quando estou sem sono,
conto as letras do seu nome
para adormecer.

o truque do espelho é que se
com os olhos reais vejo a coroa
no reflexo mostro, à mim mesmo, a cara --
por isto eu e meu outro sempre
nos afastamos do reflexo
na direção contrária.

conto com a sorte
para que me encontres também
do outro lado,
além dessa janela em que outra vida
se deixa relancear --

é por isso que sorrio sempre
que nos refletimos
lado a lado,
não é porque existe, como eu sonho,
duas de ti; não é porque quando nos beijamos
são infinitos lábios pousando-se
(em infinitos universos) como pequenos pássaros
macios;
mas porque mesmo na direção
oposta,
tu estavas lá.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

o trovão de uma porta fechada
à força -
todo homem é uma tempestade
ou pode sê-lo -
às condições corretas de umidade
e pressão precipitamos como uma
chuva fúnebre;
é possível ouvir o silêncio entre os nossos
soluços
ondulando como a água dourada
na face de uma poça
(saltamos como uma criança:
com os dois pés inteiros)
no horizonte púrpura
as estrelas caem como balas de prata;
a beleza também nos perfura
ao trocar a carne faminta por essa pele sutil,
de papel;
fustigado pela imortalidade
por trás de cada segundo
(cada partícula de tempo é única
e é feita de chumbo)
seguimos adiante, vamos tremendo,
mas vamos
porque contra a dor só há
um segredo, um único segredo
gritar:
        - Não aguento mais,
e aguentar.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

tentiva de sanar a dúvida de uma criança

 porque vai levando;
porque quem sabe, no além?
porque um tropeço,
uma queda, um buraco
porque hoje, amanhã,
não há urgência;
porque a página virada
é uma página dupla;
porque vai levando;
porque vai trazendo
sobre as costas;
porque por querer;
porque sete parágrafos
de eloquentes explicações,
trinta e sete mensagens,
dezessete apelos em forma de cartas ilegíveis,
quarenta e sete petições de princípio,
argumentos inconclusivos e inconclusíveis;
porque evidentemente;
porque há um dia após este
como houve ontem outro;
porque vai levando;
porque à espera da nova
coisa;
porque por quê?;
porque a resposta
nunca importa
como a pergunta
que a produziu.

domingo, 8 de dezembro de 2024

todo ano constrói
um dezembro

último mês para que
caia o resto da chuva prevista
e faça os últimos graus de frio

último mês para
ler os livros prometidos
e cumprir as metas primeiras

o mês dividido
entre urgência do prazos finais
e a nostalgia de um passado recente

(nos dedos das mão
contam-se as vitórias inquestionáveis,
nas mãos e nos pés,
os dias perdidos ou desperdiçados)

dezembro é um
suspiro
dezembro é um começar
tarde demais.

todo ano constrói
um dezembro
mas todo dezembro constrói
uma primavera.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

pequena fábula de amor real

 cai este imenso temporal

(as roupas todas
quarando à chuva fina,
pois é claro)

uma fina névoa
que nos separa do resto
do mundo

(há os que estão secos
e nós,
que somos úmidos)

com um impermeável
saio à tormenta
enfrentando a saraivada do céu
em ataque

o vento arranca
as roupas das minhas mãos,
arranca-as do varal

(atira-as para o céu
como se fossem fogos azuisvermelhos
de algodão)

eu, impotentemente,
um cão molhado,
abano-te minhas mãos:
- agora a opção que nos resta, amor,
é vivermos nus.

sábado, 9 de novembro de 2024

 na tua pele escreve-se
o langor da tua pele
- a noite escura adormecida
com a cabeça no teu peito -

teus lábios partidos,
dois mares de sangue, que
marulham - a sinfonia solitária
do teu hálito azedo -

não há em toda criação
criatura mais imperturbável
que o ressoar do teu silêncio
- nem o tambor no meu coração
pode arranhá-lo entre os lençóis -

existem imagens igualmente
perfeitas na fumaça de um cigarro
mas duram um só instante, não mais,
enquanto tu não.

tu duras
uma noite inteira.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

eu te aviso
para não acreditar
no poema

para não acreditar
no feriado
ou no poema

para não acreditar
no precipício da segunda-feira
nem nas cinzas de
um terceiro cigarro

para não acreditar
num mundo fora deste bolso
ou nas previsões de sol,
nem nas de chuva
porque o tempo parou

eu te aviso
para não acreditar
no poema
ou no poeta
e para ficar no escuro
deste bolso
e para acreditar apenas
na ponta da minha língua
a única parte minha
que não sabe mentir.

domingo, 29 de setembro de 2024

depois do almoço

em outros tempos
eram muitas as vontades
(capturar um pássaro de fogo
feito uma palavra lançada ao ar,
metê-la no bolso, e retorná-la
ao silêncio, como se a apagasse
dos seus ouvidos; submergir no mar
como se fosse o teu perfume,
singrar o teu cheiro denso como se
fosse o sal, e eu um navio zarpando
das espáduas do teu continente
selvagem; flutuar na fumaça cinza
desse cigarro nos teus lábios cor
de sono, subir aos céus até alcançar
a estrela mais viva, enfiá-la na boca
como se fosse um diamante das
tumbas de açúcar de um rei morto;
caminhar um ano inteiro sem repetir
uma única rua, desenhar com os pés
um labirinto sem paredes, abrir o
mundo inteiro como uma laranja,
revelar as teias brancas sob as entranhas
vermelhas; e seguir em frente, sempre
em frente, mesmo que para isso avance
de pés nus, que caminhe sobre as águas, e
precise amarrar minha rede nos ganchos
das nuvens, e a ambição me consuma
até que eu vire apenas o pó da estrada...)
mas as vontades passam como os anos
até sobrar apenas uma:
sentir a euforia desta folha verde
quando (em eterno repouso)
lhe beija o sol.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

bem, a forma
só se revela no fim
e após um começo -
não é possível dizer
nada entre nós dois
sem que isso acabe
quer dizer, o sentido
disso, o conteúdo
do amor, este gesto
diário, este beijo
na testa, aquele beijo
nos lábios secos,
frios também (é inverno,
é demasiadamente
inverno), ou no calor
que me roubas sob
a coberta, são hoje conteúdo
do amor, mas serão
sentido? não há como
saber, como não
sabemos quando
tropeçará o pássaro
no meio do vôo e
descerá de cabeça
sobre uma margarida,
quer dizer, o curioso
caminho das coisas,
de todas as coisas, o
mundo inteiro segue
adiante aos tropeços,
mas sem cair, o presente
é um bêbado sem
rumo, mas um bêbado
feliz, um bêbado que
canta, amar também
é um horrível dueto,
e o melhor amor é esperança
de uma rapsódia
sem fim.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

o passado guardamos
na geladeira
como comida velha,

um pote de plástico
com as palavras
que não aguentamos mais comer.

o passado fazemos
questão que azede lentamente
como o leite.

sentimentalmente, fingimos
que se o requentarmos voltará
a ser o agora,

o momento quente e vivo
e saído do fogo
que não passará outra vez.

o passado guardamos
com a esperança
de que dessa vez não mofe.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

o dia de trabalho é
um leão adormecido com a barriga para cima
o amor é uma mão
que se rende à essa armadilha
porque, afinal, apesar do tamanho,
trata-se de um gato

o amor é, afinal, uma história
de sangue,
uma ameaça de desmembramento
dois corações costurados
em um único peito aberto
que se obrigam a bater

domingo, 19 de maio de 2024

falamos apenas uma espécie de poesia
sem nada a dizer
palavras que se encaixam como
brinquedos de criança
ocos por dentro
versos que voam de uma língua à outra
como aviões de papel
por um céu de fogo
(é a única explicação para a eventual
cinza em nossa boca)
vírgulas que, como ensinam as professoras primárias,
são uma pausa, são o silêncio
indeciso
o silêncio se vai ou não vai
mas sempre o nascimento
de uma nova estrofe
sobre
o tempo a chuva as tragédias nos jornais
as preocupações passageiras
as decisões drásticas de um destino
uma poesia sem nada
a dizer
pontuada pelo segredo
de tudo que evitamos dizer.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

domingo, 21 de janeiro de 2024

o tambor
faz a chuva
subir;

na minha pele
a chuva
ferve;

nos teus ombros
a chuva
dança;

a chuva não para o carnaval.

pelo contrário,
a chuva
samba.

sábado, 2 de dezembro de 2023

                                                               fernandinho

há o que há
e o que não há
e o que houve
que é os dois
em tempos diferentes.

tu estás num balcão de bar.

eu estou cercado de flores
estou em um cerco de luzes
eu estou no precipício dos meus trinta e cinco anos
meus trinta e cinco anos
estão no umbigo da eternidade
que está no precipício do esquecimento.

tu e teus cachos
conversam com outro homem
logo na minha frente!
eu! que ainda lembro como beijas...

como virão as noites de verão,
como darei de comer aos mosquitos,
como tu disseste uma vez
que não queria entender
como funcionava a poesia
para que ela mantivesse seu mistério
(eu quis te contar,
só para te mostrar que por trás do segredo
há outro segredo,
afinal a poesia
é uma arte de versos)

escrevo esse poema,
me é claro,
porque nunca escrevi um poema para ti
e toda mulher que me estendeu a mão
merece seu poema.

mas não sou boa pessoa.
escrevo sem nunca enviá-los.
deixo que eles sejam uma aliança
entre eu
e o esquecimento.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

é preciso
dizer sim e
é preciso ceder

é preciso
abrir a boca
e receber a água
da sua boca
e é preciso bebê-la

é preciso
conhecer e amar
esta água
e é preciso bebê-la
seis taças por dia

eu preciso
uma vez por semana
que operes o milagre
do vinho
e em minha boca
derrames a anti-água
de tua boca roxa

é preciso
colher a chuva
como uma máscara líquida
e amar o céu nublado
é preciso
abrir-se; contar as mentiras certas;
neologisar; fingir-se o criador
original do amor; baixar
a cabeça; sacrificar o orgulho
num altar de ossos; contar
com a língua os dentes na boca;
contar com a boca os olhos
na face; perfurar o céu
como uma lança; aprender a língua
dos anjos; não usá-la para nada;
suspender o juízo; colher os dias
como ervas daninhas;
explicar-se; compreender
o incompreensível; não dançar
nunca; ver formas inventadas
nas nuvens; acompanhar o tremor
das pálpebras sonhadoras;
perder o medo da auto-estrada;
usar os dedos como pentes; cair
em graças; não romper o olhar
do sol;
ou apenas beber a água
e o vinho,
por favor.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

para chegar ao outro lado
disto
construo um pequeno barco
de madeira de eucalipto
trançado com fios de cabelo
que recolho da cama.

faço-o nadar com as mãos
a água é leve, a maré é menos
não sobraram monstros
no mar.

no horizonte do outro lado
vejo que não há nada para mim.
então estou livre.
este barco é minha ilha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

a boca fria do inverno
comeu meus lábios
durante o sono
mordendo-o pelas bordas
como fazes
quando eu chego