sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

és-me a tensão no pescoço,
a cólera nos rins que logo
goza-se em fogo. és esboço
da paixão (frio no estômago)

ainda sem medida. és-me
a carne consumida, língua
pela pele, garra que geme
e suspira. minh'alma míngua

pelo teu caminho, tropeço-te
por canto de lábio, ou rente
ouvido, par'arrancar pedaço.

és-me a métrica do vazio,
o peito infinito, escorregadio,
que, ao entrar, eu me desfaço

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

(medusa)

não vês a carne dos cabelos
convoluta, ou tua profusão
de superfícies. és cego ato
do tempo em comunhão
com a retina; um impacto
do relógio contra o infinito
da ruína. és, nos pelos,
serpente. na pele, granito.


és, do tempo, a última
habitante, à tua mira
apenas o sólido pretérito
imperfeito; és a ira
sem reflexo, e o ínquerito
da certeza - trai-te, ver-te,
tua natureza, mas sublima
a glória qu'a verdade verte

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

(centauro)

o ruído pastoral
do teu hálito; a mácula
azeda dentro da chaga
desses cascos, coagula
a dureza que esmaga
a duração das rochas
contra as quais o litoral
se espuma, de águas cochas.


não és ar, o vento
que se reúne em fundo
peito - fincas-te imóvel
ao voar o fecundo
ferro, na fuça miserável
o sangue seco de aljofre -
és o órgão por intento
que, osso, a honra sofre.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

(minotauro)

o hábito das pedras,
o tempo a que te aferras
de cornos íngremes
e tez quieta; as guerras
a que, incólumes,
teus olhos resistem -
deles, tu engendras
o término, e a origem.


és o eterno labirinto,
a impossível arquitetura
que se contorce --
não o monstro, a tecitura.
mas, âmago que force
a fera à fúria,
és o bestiário sucinto,
e a morte incúria.

domingo, 6 de julho de 2014

já é noite e apenas o gato
sabe navegar a maré do escuro
somente o gato sabe, é fato,
além do mar, onde é seguro.

o gato, e só ele, dá um salto
no negro e não erra a esquina;
a sombra antecede o gato,
o verso antecede a ruína.

o gato no canto abandona o canto.

pra cima, o gato sobe mais
estrela à nuvem, nuvem à lua
por essas penumbras, imortais
ele não erra; ele flutua.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

porque eu não desejo
desejar mais nada
nem querer querer-te
nem pedir cada
gota do alentejo
numa garrafa.

ela tinha olhos salgados
e lábios de sal, e a imoral
língua dela salgava o dia

ela tinha os olhos salgados
e o gosto era insone
de olhar para o teto.

quero-te mais que a água
do atlântico, e quero-te pacífica
e quero uma nau que desbrave
e não naufrague nunca
no redemoinho das tuas noites.

quero-te possuída de matar sede
e quero que me seques e me feches
a garganta e que estejas do meu lado
e tenha piedade do meu sufoco
e do meu afogamento, minha agonia,
meus olhos vidrados; meus olhos doces.

desejo a tua morte
com a fúria da fome

desejo não desejar mais nada
nem querer mais nada,
nem te querer, ou desejar-te
mas nada acontece.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

queria ser meu gato, para
passear pelas suas pernas
ronronando, para ter voz
de gato e miar olhando
o alto da sua cabeça, e
ver sua alma saindo pelas
suas orelhas quando você
dorme e sonha com amores
antigos. queria ser meu
gato e você me pegar no
colo, me fazer carinho na
cabeça, me deixar fechar
seu livro dizendo que não
é era de s'educar, é hora
de me amar um pouquinho.
queria ser meu gato, para
você me olhar e querer me
amassar me morder ficar
feliz em me ver no fim do
dia, falar de mim para as
suas amigas e para estranhos;
para eu morder você na mão
nas pernas, para eu deitar
na sua cama e não deixar
que ela se arrume, para
insistir que você deite mais
um pouco, para miar para
as suas costas e você morrer
de pena de me abandonar,
e pensar em ficar comigo
um pouco além, só um carinho
a mais, mais um minuto ou
quem sabe, eu convença você
olhos de gato, a ficar pra sempre.
eu queria ser meu gato, queria
ser meu gato, queria ser meu
gato, eu não queria ser a sua
sombra.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

ao longo tive sonhos
estranhos sobre você.

um quarto alugado
de hotel barato
as cortinas enormes
pesadas unindo-se
ao carpete do chão
e vedando a janela.

tinham me pagado
como diretor dessa
cena em que você
estaria de joelhos
para dois homens

a luz do quarto era
esverdeada (lógico)
e você havia cortado
os cabelos e carregado
muito os olhos negros

não lembro, nunca,
de você tão linda
quanto nesse sonho.

em outro, era ruiva
e a via numa foto.
essa foto existe,
existe seu rosto.

mas mudou-se algo
irreconhecível nele
e eu sorri enorme
por não entender mais
te achar linda.

nem um deles me acordou triste

sabendo talvez
tenha outra de você
que não seja você
para eu encontrar
sei lá
por aí.

domingo, 19 de maio de 2013

passageiros os cabelos pela janela
a estrada
a estrada

cuba mais distante
ao redor brasil
argentina pertinho
uruguai, paraguai

wu-tang clan no rádio

vergonha de partir
sem dizer adeus
aos seus olhos

(protect ya neck!)

nada para dizer adeus
dizer no adeus
dizer ao adeus

não queria partir
por isso preciso tanto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

antes fosse, se assim sêsse
pingolejando na chuva da tarde
tardando na manhã que estende
juntando os pés sobre a cadeira
e bocejando um rio de madeira

nunca diziam errado, os velhos sábios,
sobre a desgraça humana: talharam
a dor dos lábios rachados no frio do
inverno, e rechaçaram tod'os beijos
roubados

e foi assim, assim sem ir
assim meio ficando:

largou-me um oi vagabundo
e um adeus de meia boca
rumou acima num fecundo
adeus, àdeus de santa oca

deixou-me o poema.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

a cama mudou-se com a casa,
alguma coisa ficou no caminho.

dormí-la é apenas passageiro
ligeiro acordo ela me expulsa.
minha cama não me quer mais.

olho-a inviesado da cadeira,
da rede, da porta, da noite,
como corpo estranho no quarto.
não é-la mais parto de sonho
e oponho-me em deitá-la.
não aguento sua indiferença,
seu ódio misturado ao meu suor.

há tempo não trepo mais nela
nem para olhar a lua pela janela:
cravaram-me dentes no asfalto
da rua do colégio, deitaram-me
línguas pela areia da praia, e
sorri para o brasil com a boca
cheia de sangue nos braços
eternos brancos sagrados
dessa pátria vencida.

talvez isso explique a cara feia
das minhas cobertas, meus lençóis.

a cama me jogou para o mundo
e eu ando sendo imundo por aí.

é o que me resta.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

essa hora inversa de sentido
e adversa de desejo
e da vontade de versar

(converso só com versos
só quando já é tarde
ou só tarde demais)

estende por esses mares distantes
e esse mar em que repousam os deuses,
(esse mar que não me quer nem afogado)
a chaga virginal do meu cansaço.

lembro que escrevo, ou escrevia
(nunca ao dia: somente noite e somente fria)
mas não para mandar notícias,
não para ver na água o seu rosto de água,
não para ver seu rosto na água do seu rosto.

o poeta em mim anda em falta.

(partiu sem espanto pelo canto
em que s'empilham as tristezas)

um dia já coube o mar no meu bolso
as costas e o silício das areias
e o suplício verde da lua
e qualquer palavra nua
que queria virar verso

hoje cabe calar a boca
e bocejar para o infinito.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

se eu soubesse cantar
e eu dançasse direito
e se eu levasse jeito
para pensar devagarinho,
eu chegava de fininho
para chover nos seus pés.

domingo, 9 de setembro de 2012

esqueci o teu corpo.
misturo, o teu, com
o da que descobria
as pernas de cobre;
uma das duas tinha
uma cova no sorriso
e a outra também --
nenhuma eras tu

esqueci o teu rosto
que vi mudar tanto.
teus olhos mudaram
de lugar, e o cabelo
ficou menor, comprido.
tua boca sumiu.

esqueci minha pele
das costas por baixo
das tuas unhas curtas,
e o nome mais bobo
que tu me davas era
igual à voz d'outras
me chamando sem saber.

esqueci o teu olho
numa fundura insone
escura como a noite,
verde, muito verde,
azul como os mares
infinitamente senfim
dos meus sonhos cegos
em que naufragaste.

esqueci a tua preguiça
agitando o meu domingo;
esqueci os teus pés
trazendo o inverno
e o verão do teu umbigo;
teu cabelos louros
encaracolando negros
no chão do meu banheiro.

esqueci o teu rosto
duas vezes e mais outra.
duas vezes tuas mãos
se perderam e voltaram.
teu sorriso quase que
me acha ontem no terminal
mas não era o teu
e eu não o reconheceria.

esqueci de tudo.
até do que eu lembro.

só não esqueci o teu nome,
que é o que mais me faz falta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

possuo-me de sono, passageiro
(pelos olhos cai-me ligeiro
o sono que colho dos teus)

intento ser o santo primeiro
um pedaço sem parte, inteiro
cosendo teus sonhos nos meus

e em tu' cama perder-me certeiro
naufragar teus lençóis, marinheiro
ser escombro pelos pés teus

pra acordar algum dia em janeiro
atirar-me a adentrar fevereiro
e juntar os teus anos aos meus

sábado, 3 de setembro de 2011

me mandaram uma carta
de sangue mas limpa
sem marcas de dentes
que eu não sei porque sangrou.
o abatedouro perto de casa
anda silencioso de gente
desde que a gente deixou
de falar com as vacas;
vamos precisar lembrar
às pessoas que comem
que essas entranhas
estão cheias dos nossos sonhos
(malpassados)
.
abro a carta e o sangue
não se derrama pinga
- pingo, pingoleja -
o sangue adentra a carta
porque só sabe ser por dentro
por fora ele parece gente
mas não a gente, parece letra
mas não parece palavra, ângulo
mas não canto, canção mas
não música, melodia mas não
trovoada, relâmpago, medo.

a carta traz notícias velhas
e fotografias do passado
do tempo que passa (e no passado
eu aindo olho a carta e suas
fotografias do passado
- que agora já não olho mais
e se eu nunca mais olhar,
nunca mais essa frase significará
presente e eu vou estar livre,
sendo, nunca mais tendo sido
- vou ter um verbo a menos,
mas o verbo da saudade -
e isso, meus olhos sobre a fotografia,
solidificarão no passado eterno)

juntos perdemos o sentido
da solidão
mas agora, tarde,
acabou faz tempo
e todos dormem.

sábado, 27 de agosto de 2011

hoje dei pra te perceber imatura
no canto a cantar amargura
remoendo rancor de arrancado
sem lembrar de mim ao teu lado
(e sagrada de me seguir silenciosa
e salgada de me sorver chorosa)
que já nem ouves o que me dizes
na distância glacial dos teus países
nem a substituta da tua substância
a paz abandono da tua inconstância
que acoberta a mente entreaberta
enfim desperta nessa certeza incerta
de que também à morte caminha o fogo
no incandescer frágil do meu sossego
porque te quero de benquerer bem quista
vendo-a a arte fazer-te artista
co's fins dos dedos sempre mais frios
e ao teu suave, de-navegar-navios,
cheiro lançado-me de me moribundo...
... meu amor, já é setembro,
e eu sinto saudade de todo mundo.

sábado, 6 de agosto de 2011

escrevo uma carta para você lembrar de mim
para você lembrar de mim mesmo sem a ler
só de ver o meu nome e saber que sou eu
e lembrar de mim, mesmo sem querer ou ter vontade
escrevo uma carta para você para você lembrar
das coisas que lembra quando me vê ou
quando pensa no meu nome, e em nós dois juntos
e começo a ficar curioso sobre quais coisas são
porque as minhas são diferentes das suas, eu sei
porque quando eu penso em você lembro de como nós éramos diferentes
escrevo uma carta para você para, quem sabe,
você sinta saudade de mim e da nossa felicidade passageira
escrevo sem me preocupar que você a leia
sem escrever nada dentro do envelope, sem um poema,
sem uma rima, sem uma palavra
escrevo sem ter nada para te dizer, nem vontade
de falar contigo, de saber como você está
escrevo uma carta para você para eu me lembrar de todas as coisas
escrevo uma carta para você não me esquecer
como eu ando te esquencendo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

à noite, no silêncio da
tempestade quase caindo
além do tempo ou nuvens,
por dentro de uma outra terra
que já secou e fez árida
o que um dia fez jardim e
árvore e florestas e animais
e rios que seguiam e imortais
noites sem tempestades, que
retornavam ao redor da boca
do copo, cavalgando o álcool
da cerveja ou vodka e rum,
os resíduos de tudo que havia
se deitado sobre o peito
para escutar, orelha posta sobre,
o trabalho incessante da máquina
do mundo, cuspindo vapor e
sangue, para então acabar e
acabar novamente e outra vez;
e a visita é como esse menino
tão pequeno na cama, aprendendo
a rezar para o escuro e para
o vazio sussurrando o nome
sagrado do que não se encontra
como se o nome pudesse
curar a distância ou salgar
a água dos olhos dos santos
caídos do nosso passado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

deu que a manhã, assim adormecida
rendeu teu rosto enredado ao rio
e morri de frio, e morreria de vida,
esperando o rio embora.

a despedida disse-me, tu aparecida
e teu sorriso sóbrio, lendo sombrio
o teu sutil e secreto vício da vida--

a verdade é que te fingias esquecida
e um tropeço de tristeza a encobriu
de vazio, pedindo a próxima partida,
embarcando o rio embora.