quarta-feira, 24 de maio de 2023

mato, no teu dorso,
um mosquito que se alimenta
do que é meu

uma gota de sangue explode
mancha tua pele branca

em silêncio
(é noite, precisamos nos calar
mesmo a morte dele é muda
sua alma parte sem zumbir)

molho meu dedo
apago o vermelho da tua pele
e sem encostar em ti outra vez
fecho meus olhos
para assistir ao sonho em que te cozinho
inteira
com nada além
de um fiozinho de azeite.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

assim como
a fruta na árvore
o vermelho na fruta
o verde na folha
o pulo no gato
a bala no cano
a chuva na nuvem
e a língua na boca,
estou por um triz

terça-feira, 8 de novembro de 2022

diário de sonhos oito de novembro, 22

hoje sonhei que minha vó se perdia no shopping
e meu avô me pedia para procurá-la
minha vó, com alzheimer, desaparecida no shopping
meu avô, quando faleceu, era um homem grande
e eu era um menino pequeno, mas hoje não
hoje eu tenho a altura e o peso que talvez ele tinha
e ele passava seus braços pelos meus ombros
e eu os meus pela sua cintura
"não me deixa cair" ele me dizia
e eu puxava-o para cima, e o segurava inteiro
com segurança, tinha força para segurá-lo
era fácil, era meu avô
e ele me via homem pela primeira vez
e era óbvio para ele que eu era um homem
procurávamos a minha vó, a mulher dele,
e também a minha, ela também foi minha mãe
preocupados porque a doença dela fazia ela se perder
e quando desistíamos (ele precisava descansar)
eu sentava ele num sofá, e ele parecia muito cansado
mas muito vivo
e eu pensei "é a minha chance de tomar uma cerveja com ele"
eu nunca tomei uma cerveja com o meu avô
porque eu ainda era um menino
eu tomei o colarinho das cervejas que ele me pedia para ir buscar
atravessando a rua para ir à venda
segurando a garrafa pelo gargalo, como ele ensinou
eu era ainda mais menino nessa época, cinco ou seis anos
e ele nos dava de beber, aos netos, um gosto do colarinho
(minha mãe se apavorou quando descobriu
mas a morte já havia prescrito o crime)
mas não tivemos tempo, nós dois
minha vó apareceu, foi encontrada
e trouxeram ela até nós
e meu avô ficou tão feliz que levantou
sem cansaço e sem doença
e pegou as mãos dela nas suas
e dançou
e da expressão distante e ausente da doença
o rosto da minha vó se iluminou e gargalhou
e meu avô também sorria muito, reunido à ela
eles que passaram tanto tempo longe um do outro
e foram tão felizes
que eu acordei, para que tivessem privacidade.



domingo, 9 de outubro de 2022

já é tarde
já estamos cansados

tenho vidro na boca
lâmina na língua

teu rosto é opaco

me comove
como te corto;
como tiro de ti
sangue azul.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

criança, num caminho de areia
a uma praia secreta
(a praia que se esconde
detrás das árvores
é uma praia que faz segredo
que disfarça sua voz de mar)
que se abre horizontal
(para que em seus braços
caibam a água grossa do mar,
seus segredos sussurrados)
após a finura vertical
do caminho
a geometria do vento
na areia fina
(como uma ampulheta
que também é um livro)
escreve meu destino
com a letra concreta do tempo
e enquanto eu lavo o meu
peito, virgem de amor,
ele já é o leito do nome teu
para sonhares com a boca de porcelana
os dentes na pia
com a garça de vidro
com o teu poeta
que criança, mergulhando
no mar secreto
da praia secreta,
não leu na areia
os versos que escreveria
e agora tem que os descobrir
(letra à letra)
pelo teu corpo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

na cômoda:
uma folha seca
de bergamota;
a cascapele seca
da bergamota;
as sementes sugadas
da bergamota;
dois copos de água.

na sua cama:
os lençóis secos
do seu suor;
a sua pele seca
do meu suor;
os lábios que sugaram
todo o suor
e a água dos copos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

a chuva fecha o céu
e não há mais desenhos para ver nas nuvens
a chuva desenha no asfalto
com a água e a chuva
desenha na face do mar
com a água na água
desenha os heróis gregos
e os afoga desenha o
marinheiro e o afoga
desenha duas sereias
e as afoga desenha a
ribanceira e a afoga
desenha um deserto
e o afoga desenha a
cor amarela e a afoga
desenha os dias de luta
e os afoga desenha a
morte da baleia e a afoga
desenha o afogado e
o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga desenha
o nascer do dia e o afoga
desenha o nascer do dia
e o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga o afoga
até o mar cuspir o sol e
boiar no horizonte e flutuar
no céu e desenhar nas nuvens
com a luz do dia os heróis
gregos e os marinheiros e
as sereias e a ribanceira e a
cor amarela e o nascimento
da baleia e os dias de
perna para o ar os dias
de cabeça na cama os dias
de breve eternidade

segunda-feira, 6 de junho de 2022

essa uma alma que é maré
baixa desce a areia se areia
sobe aos joelhos cobre pele

essa uma alma enterrada
a cabeça para fora a maré
baixa respira olha céu mar
alta olha borbulhas a morte

essa uma alma que é maré
desce respira vê horizonte
uma vida com um horizonte
sobe a escuridão o poço
pé de pé o fundo do poço

essa alma maré como mar
o mar não come
não mata
molha lambe flutua
espuma
não é o poço não afoga
é onde singra
o barco do corpo intacto
bêbado da alma

domingo, 5 de junho de 2022

no peito ele a chama do fogo
o que o consome diz seu nome,
"o fogo", que crepita a carne
como quem pede um favor
permita-lhe arder como quieto
quase em segredo, é preciso
queimar com elegância:

a cabeça pensa o rosto vazio
bolsos na mão mãos em punhos
de lado assim caído à parede
um quem que não quer nada
fios fumegando da fina farsa
feito um feito incêndio de fato.

sobe o corpo ao céu em cinzas
aberto ele sorri às suas brasas
igual estrelas mas de combustível
os poemas os versos não escritos
fogo pálido fogo de pouco calor
assim em constelação na noite
é um nada, mas está à pago.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

(para dona néia)


o luto revela segredos
sobre as palavras.
as palavras não usam
camisas de linho,
não têm redemoinhos
no cabelo (como o do
meu pai) [como o meu]
as palavras não fazem
batata-frita para os netos
não passam pelo canteiro
de rosas para dar tchau
com as mãos enrugadas,
as mãos que bordam,
que fritam batatas,
que apontam o lugar na mesa
que é o lugar que ela decidiu
em que cada um se sentaria
para articular a harmonia
do almoço.

o que as palavras fazem
é mostrar onde está a dor
é achar na gente um novo
lugar onde podemos sentir
uma coisa nova.
elas cavam a dor, cada
vez mais funda
"ela descansou"
"se foi", "faleceu"
"morreu"
palavras usadas para tatear
pouco a pouco
a dor real, além da conta
delas, dessas letras
assim enfileiradas
que podem ser as mais lindas
as melhores palavras
(como "vó")
mas que não dão conta de que nessas horas
o amor
que está lá
que sempre esteve
parece estar indo numa única direção
e não sentir ele voltar
enche a gente de vontade
de ir junto com ele.

terça-feira, 10 de maio de 2022

eu-maré
dorso do mar
flutuo
berço do mar
mergulho
beiço do mar
durmo
beira do mar
aço
dentro do mar
águo

quarta-feira, 4 de maio de 2022

vieste primeiro do visco uterino
de onde te gerastes cu à fora.
primazia a merda, qu'à boca flora
teu cancro interior de intestino.

ao avesso, já vens mais bela
secreta os olhos negros de comida;
a face rubra - vermelha - remida -
descansa no fervor dessa panela.

nosso este amor, a brasa fumegante,
escalda menos qu'essa paixão ante
às cinzas do que não era imortal.

n'água em vapor, desfaz-te ao nu:
lenta e liquefeita - boia o teu cu -
me embebo-te tua sopa primordial.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

aos secos olhos revela-se a mudança
desse nada de horizonte inacabado,
nos monstros do céu já precipitado
um casto temporal d'água que avança.

o corpo umedecendo, primeir'os olhos,
à baixoventre co'a chama azul do fogo
fátuo: lambe-me os pelos, num afago,
que, da garganta, liberta-me os arrolhos.

à terra encurva o fio d'onde se prende
a volúpia de algodão que me ascende.
deitando em minha língua a tenra uva

desafia-me com os dentes à ação bruta:
ao violar-te a carne fresca da tua fruta,
me ajunto-te minhas águas à da chuva.

domingo, 1 de maio de 2022

me lembro de ti
e me traio.
abro mão de tudo o que
tenho de bonito
de vaidade, as duas ou três
coisas que, no espelho,
não me dão asco.
soo como adolescente
do pior tipo, do tipo
romântico, do tipo
que encerrei em beijos
frios no ônibus para o
shopping, em mensagens
que se anunciavam na
interferência dos auto-
falantes, em poemas de
amor que não eram nem
bons poemas, nem de
amor -- como este aqui
também não é.

mas: eu me lembro, e
o poeta tem que sair de
cena, e sai pedindo
licença, em disparada
deixa-me, diz que eu não
assine, é melhor eu não assinar!
não sou eu, é o que ele diz,
e não é, não quando eu
me lembro
de te olhar, do teu rosto
tu minha, dizendo que era
minha, tu dando a entender
(nunca falando -- também não
tinhas o poeta em ti nessas
horas) que eu era, então,
o amor da tua vida
e eu me lembro disso, e
hoje tudo que eu penso é
se era esse todo o amor
que tu tinha pra dar, se era
esse o paroxismo da tua paixão
se isso era o máximo,
o que definia tua vida de amor --
talvez tenham te faltado os beijos
frios no ônibus;
talvez tenham me sobrado
os poemas que não
eram de amor.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

é finados
devíamos rezar
pelos nossos mortos
como choramos
por eles, nos leitos
em que se encerraram.
em lugar disso,
deitamos no caixão
dessa cama, nos
braços sem carne,
cabeça sobre o peito
de um coração coagulado
que é nosso jeito, também,
de celebrar os mortos.

sábado, 30 de outubro de 2021

me ocorreu com pavor
'inda jovem, que a lembrança
enquanto chave
do presente, é desequilibrada.
a memória forma uma rede
de passado em que dormimos
os dois, embalados pelos nossos
gestos, que existem hoje como
carícias fantasmas que afagam
nossos cabelos - brisa de verão
dos tantos verões que dormimos
juntos, de janelas abertas -
mas os momentos que nos sustentam
não são os mesmos.
eu me lembro, mas talvez lembre
melhor de outras coisas.
tu te lembras, mas talvez nem imagines
do que lembro eu,
etc.
mesmo assim, estamos os dois
suspensos do chão
mandando mensagens pelo tempo
que chegam enviesadas
que são lidas aos fragmentos
que não tem mais contexto,
rasuradas, com os sentimentos
manchados no papel e que
mesmo assim, mantém os nossos
pés no ar.

domingo, 11 de abril de 2021

(à clementina)

sem nenhum direito
reivindico ser também
marinheiro só
(perdoem-me o desrespeito).

a solidão construí
saturnino, com o
meu jeito de
terceira margem.

marinheiro não fui
(sempre preferi o
interior d'água)
mas foi o balanço do mar
que m'ensinou a dançar
e acho, penso, sinto
que vale, apesar de
dançar como quem
me afogo.

sábado, 10 de abril de 2021

(à coca-cola)

que me permita
fernando pessoa
(o publicitário)
a correção
romântica:

primeiro estranha-se
depois entranha-se
depois estranha-se
depois extirpa-se

quarta-feira, 7 de abril de 2021

 não tenho saudades
mas me retornam lembranças
como evidências de que já
estive em outros lugares, com
outras pessoas. sou contra
"relembrar é viver", é um erro.
relembrar é ter vivido
a lembrança é o oposto da vida
elenca-se a vida nessas ações
de que um dia tomei parte, e não
são mais.
essas são as coisas que fiz
as coisas que fiz não são as coisas
que eu sou. as coisas que eu sou
não se relembram, se entranham
na carne, nas fibras do corpo
que reage, muitas vezes, antes
da lembrança saber. o nojo:
me faz mal essa pessoa, mas
não lembro porquê.
o corpo sabe

e diz: você não
é um refluxo
uma maciez no ventre
uma pontada na têmpora

"você não"

mas agora, aqui, assim,
dada a conjuntura, e o final
do mundo, dado o apagar
da fagulha de vida no universo,
os fins das matas, o holocausto
dos animais, dada a situação
econômica e também as taxas
de desemprego, de juros, a
inflação, o preço do quilo do
arroz, a fatura do cartão que
não vai virar nunca, o cheque
especial, o aluguel, e viver de
aluguel para sempre, dada a
situação política, e a oposição
também - é claro - e dada
a planificação da alma e a
completa perda de fé em tudo
na salvação, na vida, nas palavras
dado tudo isso, tudo isso pesado,
mesmo sem perdão (e não ache
que eu te perdôo [eu não te
perdôo {meu corpo diz: "você
não"}]) eu lembro de você
e por quinze minutos, não mais
que isso, você talvez, quando
fomos felizes, o que importa?
talvez, por só quinze minutos,
cronometrados, sem um segundo
a mais, quem sabe, por que não?,
você sim.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

paper love

teu corpo é muito leve
e se deixa levar pelo vácuo
das pessoas que te cruzam.
aqui vem uma, e lá te vais:
e o espaço que ocupavas
está vazio, não tem mais
nem a tua rasura.