criança, num caminho de areia
a uma praia secreta
(a praia que se esconde
detrás das árvores
é uma praia que faz segredo
que disfarça sua voz de mar)
que se abre horizontal
(para que em seus braços
caibam a água grossa do mar,
seus segredos sussurrados)
após a finura vertical
do caminho
a geometria do vento
na areia fina
(como uma ampulheta
que também é um livro)
escreve meu destino
com a letra concreta do tempo
e enquanto eu lavo o meu
peito, virgem de amor,
ele já é o leito do nome teu
para sonhares com a boca de porcelana
os dentes na pia
com a garça de vidro
com o teu poeta
que criança, mergulhando
no mar secreto
da praia secreta,
não leu na areia
os versos que escreveria
e agora tem que os descobrir
(letra à letra)
pelo teu corpo.
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
sexta-feira, 9 de setembro de 2022
a chuva fecha o céu
e não há mais desenhos para ver nas nuvens
a chuva desenha no asfalto
com a água e a chuva
desenha na face do mar
com a água na água
desenha os heróis gregos
e os afoga desenha o
marinheiro e o afoga
desenha duas sereias
e as afoga desenha a
ribanceira e a afoga
desenha um deserto
e o afoga desenha a
cor amarela e a afoga
desenha os dias de luta
e os afoga desenha a
morte da baleia e a afoga
desenha o afogado e
o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga desenha
o nascer do dia e o afoga
desenha o nascer do dia
e o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga o afoga
até o mar cuspir o sol e
boiar no horizonte e flutuar
no céu e desenhar nas nuvens
com a luz do dia os heróis
gregos e os marinheiros e
as sereias e a ribanceira e a
cor amarela e o nascimento
da baleia e os dias de
perna para o ar os dias
de cabeça na cama os dias
de breve eternidade
segunda-feira, 6 de junho de 2022
essa uma alma que é maré
baixa desce a areia se areia
sobe aos joelhos cobre pele
essa uma alma enterrada
a cabeça para fora a maré
baixa respira olha céu mar
alta olha borbulhas a morte
essa uma alma que é maré
desce respira vê horizonte
uma vida com um horizonte
sobe a escuridão o poço
pé de pé o fundo do poço
essa alma maré como mar
o mar não come
não mata
molha lambe flutua
espuma
não é o poço não afoga
é onde singra
o barco do corpo intacto
bêbado da alma
domingo, 5 de junho de 2022
no peito ele a chama do fogo
o que o consome diz seu nome,
"o fogo", que crepita a carne
como quem pede um favor
permita-lhe arder como quieto
quase em segredo, é preciso
queimar com elegância:
a cabeça pensa o rosto vazio
bolsos na mão mãos em punhos
de lado assim caído à parede
um quem que não quer nada
fios fumegando da fina farsa
feito um feito incêndio de fato.
sobe o corpo ao céu em cinzas
aberto ele sorri às suas brasas
igual estrelas mas de combustível
os poemas os versos não escritos
fogo pálido fogo de pouco calor
assim em constelação na noite
é um nada, mas está à pago.
quinta-feira, 26 de maio de 2022
(para dona néia)
o luto revela segredos
sobre as palavras.
as palavras não usam
camisas de linho,
não têm redemoinhos
no cabelo (como o do
meu pai) [como o meu]
as palavras não fazem
batata-frita para os netos
não passam pelo canteiro
de rosas para dar tchau
com as mãos enrugadas,
as mãos que bordam,
que fritam batatas,
que apontam o lugar na mesa
que é o lugar que ela decidiu
em que cada um se sentaria
para articular a harmonia
do almoço.
o que as palavras fazem
é mostrar onde está a dor
é achar na gente um novo
lugar onde podemos sentir
uma coisa nova.
elas cavam a dor, cada
vez mais funda
"ela descansou"
"se foi", "faleceu"
"morreu"
palavras usadas para tatear
pouco a pouco
a dor real, além da conta
delas, dessas letras
assim enfileiradas
que podem ser as mais lindas
as melhores palavras
(como "vó")
mas que não dão conta de que nessas horas
o amor
que está lá
que sempre esteve
parece estar indo numa única direção
e não sentir ele voltar
enche a gente de vontade
de ir junto com ele.
terça-feira, 10 de maio de 2022
quarta-feira, 4 de maio de 2022
vieste primeiro do visco uterino
de onde te gerastes cu à fora.
primazia a merda, qu'à boca flora
teu cancro interior de intestino.
ao avesso, já vens mais bela
secreta os olhos negros de comida;
a face rubra - vermelha - remida -
descansa no fervor dessa panela.
nosso este amor, a brasa fumegante,
escalda menos qu'essa paixão ante
às cinzas do que não era imortal.
n'água em vapor, desfaz-te ao nu:
lenta e liquefeita - boia o teu cu -
me embebo-te tua sopa primordial.
segunda-feira, 2 de maio de 2022
aos secos olhos revela-se a mudança
desse nada de horizonte inacabado,
nos monstros do céu já precipitado
um casto temporal d'água que avança.
o corpo umedecendo, primeir'os olhos,
à baixoventre co'a chama azul do fogo
fátuo: lambe-me os pelos, num afago,
que, da garganta, liberta-me os arrolhos.
à terra encurva o fio d'onde se prende
a volúpia de algodão que me ascende.
deitando em minha língua a tenra uva
desafia-me com os dentes à ação bruta:
ao violar-te a carne fresca da tua fruta,
me ajunto-te minhas águas à da chuva.
domingo, 1 de maio de 2022
me lembro de ti
e me traio.
abro mão de tudo o que
tenho de bonito
de vaidade, as duas ou três
coisas que, no espelho,
não me dão asco.
soo como adolescente
do pior tipo, do tipo
romântico, do tipo
que encerrei em beijos
frios no ônibus para o
shopping, em mensagens
que se anunciavam na
interferência dos auto-
falantes, em poemas de
amor que não eram nem
bons poemas, nem de
amor -- como este aqui
também não é.
mas: eu me lembro, e
o poeta tem que sair de
cena, e sai pedindo
licença, em disparada
deixa-me, diz que eu não
assine, é melhor eu não assinar!
não sou eu, é o que ele diz,
e não é, não quando eu
me lembro
de te olhar, do teu rosto
tu minha, dizendo que era
minha, tu dando a entender
(nunca falando -- também não
tinhas o poeta em ti nessas
horas) que eu era, então,
o amor da tua vida
e eu me lembro disso, e
hoje tudo que eu penso é
se era esse todo o amor
que tu tinha pra dar, se era
esse o paroxismo da tua paixão
se isso era o máximo,
o que definia tua vida de amor --
talvez tenham te faltado os beijos
frios no ônibus;
talvez tenham me sobrado
os poemas que não
eram de amor.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
sábado, 30 de outubro de 2021
me ocorreu com pavor
'inda jovem, que a lembrança
enquanto chave
do presente, é desequilibrada.
a memória forma uma rede
de passado em que dormimos
os dois, embalados pelos nossos
gestos, que existem hoje como
carícias fantasmas que afagam
nossos cabelos - brisa de verão
dos tantos verões que dormimos
juntos, de janelas abertas -
mas os momentos que nos sustentam
não são os mesmos.
eu me lembro, mas talvez lembre
melhor de outras coisas.
tu te lembras, mas talvez nem imagines
do que lembro eu,
etc.
mesmo assim, estamos os dois
suspensos do chão
mandando mensagens pelo tempo
que chegam enviesadas
que são lidas aos fragmentos
que não tem mais contexto,
rasuradas, com os sentimentos
manchados no papel e que
mesmo assim, mantém os nossos
pés no ar.
domingo, 11 de abril de 2021
sem nenhum direito
reivindico ser também
marinheiro só
(perdoem-me o desrespeito).
a solidão construí
saturnino, com o
meu jeito de
terceira margem.
marinheiro não fui
(sempre preferi o
interior d'água)
mas foi o balanço do mar
que m'ensinou a dançar
e acho, penso, sinto
que vale, apesar de
dançar como quem
me afogo.
sábado, 10 de abril de 2021
quarta-feira, 7 de abril de 2021
não tenho saudades
mas me retornam lembranças
como evidências de que já
estive em outros lugares, com
outras pessoas. sou contra
"relembrar é viver", é um erro.
relembrar é ter vivido
a lembrança é o oposto da vida
elenca-se a vida nessas ações
de que um dia tomei parte, e não
são mais.
essas são as coisas que fiz
as coisas que fiz não são as coisas
que eu sou. as coisas que eu sou
não se relembram, se entranham
na carne, nas fibras do corpo
que reage, muitas vezes, antes
da lembrança saber. o nojo:
me faz mal essa pessoa, mas
não lembro porquê.
o corpo sabe
e diz: você não
é um refluxo
uma maciez no ventre
uma pontada na têmpora
"você não"
mas agora, aqui, assim,
dada a conjuntura, e o final
do mundo, dado o apagar
da fagulha de vida no universo,
os fins das matas, o holocausto
dos animais, dada a situação
econômica e também as taxas
de desemprego, de juros, a
inflação, o preço do quilo do
arroz, a fatura do cartão que
não vai virar nunca, o cheque
especial, o aluguel, e viver de
aluguel para sempre, dada a
situação política, e a oposição
também - é claro - e dada
a planificação da alma e a
completa perda de fé em tudo
na salvação, na vida, nas palavras
dado tudo isso, tudo isso pesado,
mesmo sem perdão (e não ache
que eu te perdôo [eu não te
perdôo {meu corpo diz: "você
não"}]) eu lembro de você
e por quinze minutos, não mais
que isso, você talvez, quando
fomos felizes, o que importa?
talvez, por só quinze minutos,
cronometrados, sem um segundo
a mais, quem sabe, por que não?,
você sim.
segunda-feira, 5 de abril de 2021
paper love
teu corpo é muito leve
e se deixa levar pelo vácuo
das pessoas que te cruzam.
aqui vem uma, e lá te vais:
e o espaço que ocupavas
está vazio, não tem mais
nem a tua rasura.
sábado, 12 de dezembro de 2020
este poema não é
sobre, não é acerca,
da raiva que em mim
existe, a raiva interna
que me consome os
dias, uns mais do que
outros. não é sobre
sentí-la, nem sobre
ela explodir, não é
um poema de violência
como são outros, é
sobre apaziguá-la.
ali está a raiva me
fervendo as entranhas
e eu coloco essa música
do itamar assumpção
que me distrai com
esse verso que me faz
chorar às vezes, outras
só me arrepia, e a raiva
cala a boca, resignada.
terça-feira, 27 de outubro de 2020
sábado, 24 de outubro de 2020
Há um erro na semântica da dor:
dor não é algo que se sente
dor é algo que se torna.
Talvez, os antigos poetas, ao
compor a língua em verso
vissem na dor uma duração
que vinha ao fim, e não estão
de todo enganados: há dor
que passa.
Antes passar, porém, a dor
é substância do corpo, é
órgão que pulsa, tal o amor
(portanto rimam). Mas órgão
tem a decência de manter-se
num só lugar, encadeado aos
outros, mas cada qual em sua
função: o que expande um
órgão além do seu limite, e
fá-lo o foco do corpo (sou um
grande coração) é a dor (sou
um grande infarto). Ali está
ele, a ser velado pela dor que
o agoniza: essa dor sou eu.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
somos como gatos perdidos
que não são tão perdidos
quanto foram embora
e vivem n'algum lugar
uma aventura, ou duas
aventuras, mas que um dia
talvez voltem.
no exílio estamos sozinhos
da porta pra cá, da porta
pra lá - somos informados -
o ar é feito de lava e vai
nos consumir os pulmões.
como 'inda não dominamos
uma apneia que dure
o tempo do abraço
que daremos, continuamos
pra dentro.
ao me exilar, fechei-me
além da chave. fechei-me
do desejo para não poder
nem desejar. olhei meus pés
muitas vezes, olhei minhas
mãos muitas vezes, olhei
meu umbigo no centro do
que engordo todo o dia
com tristeza. mas não posso
querer emagrecer, porque
já é um desejar, e o desejo
está perigoso.
daqui do exílio não se vê
muito. o horizonte está entre
os prédios e procurá-lo não
tem graça. acordo às 4 da
tarde e mal vejo o sol. vejo
em mim às vezes um saco de
bosta, noutras um saco de
vento, mas não vejo um
poeta, um leitor, um amante,
um romântico, um gozo,
nem vejo um confidente, um
guardião de segredos
e medos, ou um conspirador
de esperanças.
na madruga do exílio (a única
parte do dia que 'inda existe
com regularidade) é sempre
meia noite em ponto, o relógio
até corre pra frente, mas a
meia noite persiste e vai me
cavando olheiras, me invocando
punhetas, a ampulheta não
corre como areia mas como
ossos pulverizados, ela pisca
como um relógio não programado
que não acumula horas, as
desperdiça.
o exílio reivindica a distância
para si. a palavra certa parece
a menor distância possível,
a proximidade de um dedo
metido dentro da boca, um
nariz espremido contr'o rosto,
um beijo na testa, um mamilo
entre os dentes. uma mensagem
chega e tremo como se fosse
morrer, como se um corpo
viesse junto para eu não
estar sozinho.
no exílio sentimo-nos sujos, nos
lavamos como se fôssemos mais:
imundos. queremos tomar banho
de água benta, ou ser lambidos
por virgens, e passar as tardes
chupando sabonete, e as noites
sonhamos que a pessoa amada
mije no nosso rosto, e que escorra
pelos nossos pescoços e empoce
nossas clavículas.
a palavra exilada toma os
contornos da carne, ganha o
sentido da vida desesperada
que a envia, ela vem de outro
planeta - apesar de todas as
palavras virem d'outro planeta -
como um flecha do sistema
solar, como uma flecha do sol,
e sente-se o calor na cara, a
vitamina d se produzir enganada,
e da palavra a gente fala como
objeto material, como coisa,
porque não existem mais corpos,
não existem beijos, não existe
trepada, nem dormir entrelaçado.
a palavra é tudo, a ordem das
palavras vem fulminante, e'ntão
é quando cai a ficha de que
todo poeta sempre escreveu
sozinho, todo leitor sempre leu
sozinho.
o exílio promete acabar um dia
mas vemos marchar os generais
e ouvimos os tiros, perdemos o
contato com amigos que somem
na memória, e precisamos enfim
encarar que nos torturamos com
as promessas que fazemos no
crédito. a vida anterior nos
ocupava com estranhos, vinha
disfarçando a ausência de quem
amávamos diariamente. vemos
o mundo no éter, esperando
nosso retorno, mas fica claro
que não há ao que retornar.