(à coca-cola)
que me permita
fernando pessoa
(o publicitário)
a correção
romântica:
primeiro estranha-se
depois entranha-se
depois estranha-se
depois extirpa-se
não tenho saudades
mas me retornam lembranças
como evidências de que já
estive em outros lugares, com
outras pessoas. sou contra
"relembrar é viver", é um erro.
relembrar é ter vivido
a lembrança é o oposto da vida
elenca-se a vida nessas ações
de que um dia tomei parte, e não
são mais.
essas são as coisas que fiz
as coisas que fiz não são as coisas
que eu sou. as coisas que eu sou
não se relembram, se entranham
na carne, nas fibras do corpo
que reage, muitas vezes, antes
da lembrança saber. o nojo:
me faz mal essa pessoa, mas
não lembro porquê.
o corpo sabe
e diz: você não
é um refluxo
uma maciez no ventre
uma pontada na têmpora
"você não"
mas agora, aqui, assim,
dada a conjuntura, e o final
do mundo, dado o apagar
da fagulha de vida no universo,
os fins das matas, o holocausto
dos animais, dada a situação
econômica e também as taxas
de desemprego, de juros, a
inflação, o preço do quilo do
arroz, a fatura do cartão que
não vai virar nunca, o cheque
especial, o aluguel, e viver de
aluguel para sempre, dada a
situação política, e a oposição
também - é claro - e dada
a planificação da alma e a
completa perda de fé em tudo
na salvação, na vida, nas palavras
dado tudo isso, tudo isso pesado,
mesmo sem perdão (e não ache
que eu te perdôo [eu não te
perdôo {meu corpo diz: "você
não"}]) eu lembro de você
e por quinze minutos, não mais
que isso, você talvez, quando
fomos felizes, o que importa?
talvez, por só quinze minutos,
cronometrados, sem um segundo
a mais, quem sabe, por que não?,
você sim.
teu corpo é muito leve
e se deixa levar pelo vácuo
das pessoas que te cruzam.
aqui vem uma, e lá te vais:
e o espaço que ocupavas
está vazio, não tem mais
nem a tua rasura.
este poema não é
sobre, não é acerca,
da raiva que em mim
existe, a raiva interna
que me consome os
dias, uns mais do que
outros. não é sobre
sentí-la, nem sobre
ela explodir, não é
um poema de violência
como são outros, é
sobre apaziguá-la.
ali está a raiva me
fervendo as entranhas
e eu coloco essa música
do itamar assumpção
que me distrai com
esse verso que me faz
chorar às vezes, outras
só me arrepia, e a raiva
cala a boca, resignada.
Há um erro na semântica da dor:
dor não é algo que se sente
dor é algo que se torna.
Talvez, os antigos poetas, ao
compor a língua em verso
vissem na dor uma duração
que vinha ao fim, e não estão
de todo enganados: há dor
que passa.
Antes passar, porém, a dor
é substância do corpo, é
órgão que pulsa, tal o amor
(portanto rimam). Mas órgão
tem a decência de manter-se
num só lugar, encadeado aos
outros, mas cada qual em sua
função: o que expande um
órgão além do seu limite, e
fá-lo o foco do corpo (sou um
grande coração) é a dor (sou
um grande infarto). Ali está
ele, a ser velado pela dor que
o agoniza: essa dor sou eu.