terça-feira, 23 de outubro de 2012

essa hora inversa de sentido
e adversa de desejo
e da vontade de versar

(converso só com versos
só quando já é tarde
ou só tarde demais)

estende por esses mares distantes
e esse mar em que repousam os deuses,
(esse mar que não me quer nem afogado)
a chaga virginal do meu cansaço.

lembro que escrevo, ou escrevia
(nunca ao dia: somente noite e somente fria)
mas não para mandar notícias,
não para ver na água o seu rosto de água,
não para ver seu rosto na água do seu rosto.

o poeta em mim anda em falta.

(partiu sem espanto pelo canto
em que s'empilham as tristezas)

um dia já coube o mar no meu bolso
as costas e o silício das areias
e o suplício verde da lua
e qualquer palavra nua
que queria virar verso

hoje cabe calar a boca
e bocejar para o infinito.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

se eu soubesse cantar
e eu dançasse direito
e se eu levasse jeito
para pensar devagarinho,
eu chegava de fininho
para chover nos seus pés.

domingo, 9 de setembro de 2012

esqueci o teu corpo.
misturo, o teu, com
o da que descobria
as pernas de cobre;
uma das duas tinha
uma cova no sorriso
e a outra também --
nenhuma eras tu

esqueci o teu rosto
que vi mudar tanto.
teus olhos mudaram
de lugar, e o cabelo
ficou menor, comprido.
tua boca sumiu.

esqueci minha pele
das costas por baixo
das tuas unhas curtas,
e o nome mais bobo
que tu me davas era
igual à voz d'outras
me chamando sem saber.

esqueci o teu olho
numa fundura insone
escura como a noite,
verde, muito verde,
azul como os mares
infinitamente senfim
dos meus sonhos cegos
em que naufragaste.

esqueci a tua preguiça
agitando o meu domingo;
esqueci os teus pés
trazendo o inverno
e o verão do teu umbigo;
teu cabelos louros
encaracolando negros
no chão do meu banheiro.

esqueci o teu rosto
duas vezes e mais outra.
duas vezes tuas mãos
se perderam e voltaram.
teu sorriso quase que
me acha ontem no terminal
mas não era o teu
e eu não o reconheceria.

esqueci de tudo.
até do que eu lembro.

só não esqueci o teu nome,
que é o que mais me faz falta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

possuo-me de sono, passageiro
(pelos olhos cai-me ligeiro
o sono que colho dos teus)

intento ser o santo primeiro
um pedaço sem parte, inteiro
cosendo teus sonhos nos meus

e em tu' cama perder-me certeiro
naufragar teus lençóis, marinheiro
ser escombro pelos pés teus

pra acordar algum dia em janeiro
atirar-me a adentrar fevereiro
e juntar os teus anos aos meus

sábado, 3 de setembro de 2011

me mandaram uma carta
de sangue mas limpa
sem marcas de dentes
que eu não sei porque sangrou.
o abatedouro perto de casa
anda silencioso de gente
desde que a gente deixou
de falar com as vacas;
vamos precisar lembrar
às pessoas que comem
que essas entranhas
estão cheias dos nossos sonhos
(malpassados)
.
abro a carta e o sangue
não se derrama pinga
- pingo, pingoleja -
o sangue adentra a carta
porque só sabe ser por dentro
por fora ele parece gente
mas não a gente, parece letra
mas não parece palavra, ângulo
mas não canto, canção mas
não música, melodia mas não
trovoada, relâmpago, medo.

a carta traz notícias velhas
e fotografias do passado
do tempo que passa (e no passado
eu aindo olho a carta e suas
fotografias do passado
- que agora já não olho mais
e se eu nunca mais olhar,
nunca mais essa frase significará
presente e eu vou estar livre,
sendo, nunca mais tendo sido
- vou ter um verbo a menos,
mas o verbo da saudade -
e isso, meus olhos sobre a fotografia,
solidificarão no passado eterno)

juntos perdemos o sentido
da solidão
mas agora, tarde,
acabou faz tempo
e todos dormem.

sábado, 27 de agosto de 2011

hoje dei pra te perceber imatura
no canto a cantar amargura
remoendo rancor de arrancado
sem lembrar de mim ao teu lado
(e sagrada de me seguir silenciosa
e salgada de me sorver chorosa)
que já nem ouves o que me dizes
na distância glacial dos teus países
nem a substituta da tua substância
a paz abandono da tua inconstância
que acoberta a mente entreaberta
enfim desperta nessa certeza incerta
de que também à morte caminha o fogo
no incandescer frágil do meu sossego
porque te quero de benquerer bem quista
vendo-a a arte fazer-te artista
co's fins dos dedos sempre mais frios
e ao teu suave, de-navegar-navios,
cheiro lançado-me de me moribundo...
... meu amor, já é setembro,
e eu sinto saudade de todo mundo.

sábado, 6 de agosto de 2011

escrevo uma carta para você lembrar de mim
para você lembrar de mim mesmo sem a ler
só de ver o meu nome e saber que sou eu
e lembrar de mim, mesmo sem querer ou ter vontade
escrevo uma carta para você para você lembrar
das coisas que lembra quando me vê ou
quando pensa no meu nome, e em nós dois juntos
e começo a ficar curioso sobre quais coisas são
porque as minhas são diferentes das suas, eu sei
porque quando eu penso em você lembro de como nós éramos diferentes
escrevo uma carta para você para, quem sabe,
você sinta saudade de mim e da nossa felicidade passageira
escrevo sem me preocupar que você a leia
sem escrever nada dentro do envelope, sem um poema,
sem uma rima, sem uma palavra
escrevo sem ter nada para te dizer, nem vontade
de falar contigo, de saber como você está
escrevo uma carta para você para eu me lembrar de todas as coisas
escrevo uma carta para você não me esquecer
como eu ando te esquencendo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

à noite, no silêncio da
tempestade quase caindo
além do tempo ou nuvens,
por dentro de uma outra terra
que já secou e fez árida
o que um dia fez jardim e
árvore e florestas e animais
e rios que seguiam e imortais
noites sem tempestades, que
retornavam ao redor da boca
do copo, cavalgando o álcool
da cerveja ou vodka e rum,
os resíduos de tudo que havia
se deitado sobre o peito
para escutar, orelha posta sobre,
o trabalho incessante da máquina
do mundo, cuspindo vapor e
sangue, para então acabar e
acabar novamente e outra vez;
e a visita é como esse menino
tão pequeno na cama, aprendendo
a rezar para o escuro e para
o vazio sussurrando o nome
sagrado do que não se encontra
como se o nome pudesse
curar a distância ou salgar
a água dos olhos dos santos
caídos do nosso passado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

deu que a manhã, assim adormecida
rendeu teu rosto enredado ao rio
e morri de frio, e morreria de vida,
esperando o rio embora.

a despedida disse-me, tu aparecida
e teu sorriso sóbrio, lendo sombrio
o teu sutil e secreto vício da vida--

a verdade é que te fingias esquecida
e um tropeço de tristeza a encobriu
de vazio, pedindo a próxima partida,
embarcando o rio embora.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ofélia

das árvores àlgum rio, em ponto
que moveu e foi com a correnteza
teus cabelos, e a tua nobreza
procuraram rédeas d'água, tanto

que, agarrando, as mãos esqueceram
se jogar, e o escuro rosto do pai morto
apagou, também a loucura, procurou porto
no amor efêmero do príncipe, e sofreram

teus olhos, por lágrimas semelhantes
à essas águas, aberta boca, sem amantes
que te devoraram, com'o mundo, com desdém.

e tua morte foi uma luta de entrega
que teu destino órfão, enfim, sossega
mas só ele: nem mais o meu, nem o de ninguém.
e no vento alguma coisa me disse
meu irmão - mon frère -
há no mundo um outro irmão
da mesma tua fraternidade
que sabe o teu nome, já,
por entre os dentes e os lábios,
e nos teus também o dele
e nada mais há de ser dito entre os dois
mais que os nomes
e o sangue apagado
e vós juntos numa só voz
irão escrever cartas sobre essa coisa
que um dia foi sofrimento
sem qualquer amargo
porque a dor, que um dia então esfria,
nas vossas mãos tentará ser poesia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

retrato de um casal se beijando em uma banheira, mulher dentro e homem fora, apaixonados e absolutamente (sério) nada trágico

a deriva de dois barcos
sabiand'o assobio dos sabiás
feitos sem portos ou faróis
mas juntos de ladoalado
águ'à ondular adocicado
horizontando à girassóis

caíam juntos celestiais
sem o querer-se sasonais
pela banheira tod'inteira
penduradas lendas emrendas
nas saias de enfim cansadas
de giros dançar sem sujeira

e bocas d'em gelo e água
acertam vilanias de paisagem
submarina'mãos de borbulhos
oceanam tod'os navegantes
chamas queimam cortantes
e calam a poesia imprecisa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sai, menino
que eu não quero mais ver
seu sorriso pequenino
me impedindo de chorar

larga essa rosa, menino
a roseira é mais que flor
e tá em todo destino
se aversar por esse olor

menino, para de correr
essas voltas ao meu redor
assim fica fácil esquecer
como dói essa minha dor

ah, menino, quando eu
não te encontrar mais
vou ser feliz no meu
jeito de adulto
não vou querer sorvete
nem vou querer palacete
de soldados de chumbo
não vou acordar cedo
nem morrer de medo
do bicho papão
não vou ter cor favorita
nem ter laço de fita
nos meus presentes
não vou chamar mãe pai avó
vou chamar uma pessoa só
que eu não quero esquecer
e vou chorar só com custo
esse choro robusto
que não sabe verter.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

esse calor
essa cerveja
esse amor
que ela deseja

ah, minha flor
essa felicidade
um dia ainda vai
encher saudade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

essa nossa fotografia
não me lembra daquele dia
nem dessa alegria
que a lente forçava, arredia
quando nos decidimos sorrir.

me lembra dos meus óculos
sujos; de fazer minúsculos
gastos, carinhos maiúsculos
multiplicando nos cálculos
todos os beijos roubados;

me lembra do frio, do calor
de cenas obcenas do amor
que eu não sei mais viver;

me lembra sensatez sem sal
um dia e outro sempre igual
a aventura trivial no litoral
daquele, na praia, temporal
que estragou meu livro favorito;

lembra o feijão que não comi,
vodka misturada que não bebi,
dor que não senti (nem gemi),
declaração que eu não recebi
porque disse que Não (por ti?);

me lembra quando aconteceu
e dormi como se fosse Orfeu
nos braços de Eurídice;

e lembra quando eu te disse
que o amor eu não entendia
mas, meu deus, como eu sentia!

domingo, 26 de dezembro de 2010

soneto da lembrança de uma tarde de mentira

ai esses mares de azuis verdes
reflexo procuro-te nas rosas
da mangueira em que perdes
a sã imaturidade das coisas

ai teu cantar junto ao Cartola
sorvendo os sempre estalos
que tumultuam som da vitrola
embolando música em novelos

ai a lã que rolava pela sala,
tu e eu bebendo coca-cola,
e sendo-nos tricotados juntos!

ai teu riso de água escura,
o doce da tua boca que jura,
fazendo mentira nossos assuntos!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

aqui o desenho do teu corpo
foi feito na luz
a lua fez ampla tua forma
ondulada e azul
e o sol queimou meus olhos
por onde não te vi

toma, da boca vil que te atormenta
a mesma tempesta'de voz sangrenta
o mesmo medo que era a escuridão!

no contorno da tua linha
e peito exposto
uma chuva quente em
meio agosto
mostrou a mesma graça
nas águas

quand'os olhos que amam estranham
a beleza castanha dessa sorte
dúvida dessossega, anjos cantam
o prenúncio certo dessa morte!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

não me certifico de dúvidas
mas eu vou-te no vamo-nos
das mãos (nossas quentes) dadas
que voz vossa faz bossa e enganos
morrerem de fome.

(o amor é como a fome melhorando a comida)

hoje:
tudo que não morre
queima
vou é morrer de ridículo
e queimar de amor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

(haikus fingindo poesia)

uma música
desconcertada
pela estrada
tira ritmo
da tua voz
após

(-na infância
uma concha
cantava o mar,
hoje sei que
é sangue
porque o mar
sou eu)

as folhas secas
sentem sono
no outono
mas no verão
sente sono
o coração

(-tuas unhas
tem carne
por debaixo,
em que meu mar
desemboca
por fluir)

e quando fogo
bateu porta
na casa torta
do nosso amor
o inverno
parecia eterno

(-o sal das
minhas águas
secam tua terra,
cativa peito
e julgamento
de solidão)

a primavera fez
grama amarela
pela janela
e num relance
nosso romance
fez céu azul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

tua beleza saturnina
imiscuída na retina
minha, bêbada
uma taça vazia
numa terça de dia

no aeroporto
levo meu morto
peito sóbrio
(coração não é bagagem
que se leva para viagem)

demos abraço
e um beijo laço
por gente olhando
lembra dele?
foi o último.