sábado, 27 de agosto de 2011

hoje dei pra te perceber imatura
no canto a cantar amargura
remoendo rancor de arrancado
sem lembrar de mim ao teu lado
(e sagrada de me seguir silenciosa
e salgada de me sorver chorosa)
que já nem ouves o que me dizes
na distância glacial dos teus países
nem a substituta da tua substância
a paz abandono da tua inconstância
que acoberta a mente entreaberta
enfim desperta nessa certeza incerta
de que também à morte caminha o fogo
no incandescer frágil do meu sossego
porque te quero de benquerer bem quista
vendo-a a arte fazer-te artista
co's fins dos dedos sempre mais frios
e ao teu suave, de-navegar-navios,
cheiro lançado-me de me moribundo...
... meu amor, já é setembro,
e eu sinto saudade de todo mundo.

sábado, 6 de agosto de 2011

escrevo uma carta para você lembrar de mim
para você lembrar de mim mesmo sem a ler
só de ver o meu nome e saber que sou eu
e lembrar de mim, mesmo sem querer ou ter vontade
escrevo uma carta para você para você lembrar
das coisas que lembra quando me vê ou
quando pensa no meu nome, e em nós dois juntos
e começo a ficar curioso sobre quais coisas são
porque as minhas são diferentes das suas, eu sei
porque quando eu penso em você lembro de como nós éramos diferentes
escrevo uma carta para você para, quem sabe,
você sinta saudade de mim e da nossa felicidade passageira
escrevo sem me preocupar que você a leia
sem escrever nada dentro do envelope, sem um poema,
sem uma rima, sem uma palavra
escrevo sem ter nada para te dizer, nem vontade
de falar contigo, de saber como você está
escrevo uma carta para você para eu me lembrar de todas as coisas
escrevo uma carta para você não me esquecer
como eu ando te esquencendo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

à noite, no silêncio da
tempestade quase caindo
além do tempo ou nuvens,
por dentro de uma outra terra
que já secou e fez árida
o que um dia fez jardim e
árvore e florestas e animais
e rios que seguiam e imortais
noites sem tempestades, que
retornavam ao redor da boca
do copo, cavalgando o álcool
da cerveja ou vodka e rum,
os resíduos de tudo que havia
se deitado sobre o peito
para escutar, orelha posta sobre,
o trabalho incessante da máquina
do mundo, cuspindo vapor e
sangue, para então acabar e
acabar novamente e outra vez;
e a visita é como esse menino
tão pequeno na cama, aprendendo
a rezar para o escuro e para
o vazio sussurrando o nome
sagrado do que não se encontra
como se o nome pudesse
curar a distância ou salgar
a água dos olhos dos santos
caídos do nosso passado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

deu que a manhã, assim adormecida
rendeu teu rosto enredado ao rio
e morri de frio, e morreria de vida,
esperando o rio embora.

a despedida disse-me, tu aparecida
e teu sorriso sóbrio, lendo sombrio
o teu sutil e secreto vício da vida--

a verdade é que te fingias esquecida
e um tropeço de tristeza a encobriu
de vazio, pedindo a próxima partida,
embarcando o rio embora.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ofélia

das árvores àlgum rio, em ponto
que moveu e foi com a correnteza
teus cabelos, e a tua nobreza
procuraram rédeas d'água, tanto

que, agarrando, as mãos esqueceram
se jogar, e o escuro rosto do pai morto
apagou, também a loucura, procurou porto
no amor efêmero do príncipe, e sofreram

teus olhos, por lágrimas semelhantes
à essas águas, aberta boca, sem amantes
que te devoraram, com'o mundo, com desdém.

e tua morte foi uma luta de entrega
que teu destino órfão, enfim, sossega
mas só ele: nem mais o meu, nem o de ninguém.
e no vento alguma coisa me disse
meu irmão - mon frère -
há no mundo um outro irmão
da mesma tua fraternidade
que sabe o teu nome, já,
por entre os dentes e os lábios,
e nos teus também o dele
e nada mais há de ser dito entre os dois
mais que os nomes
e o sangue apagado
e vós juntos numa só voz
irão escrever cartas sobre essa coisa
que um dia foi sofrimento
sem qualquer amargo
porque a dor, que um dia então esfria,
nas vossas mãos tentará ser poesia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

retrato de um casal se beijando em uma banheira, mulher dentro e homem fora, apaixonados e absolutamente (sério) nada trágico

a deriva de dois barcos
sabiand'o assobio dos sabiás
feitos sem portos ou faróis
mas juntos de ladoalado
águ'à ondular adocicado
horizontando à girassóis

caíam juntos celestiais
sem o querer-se sasonais
pela banheira tod'inteira
penduradas lendas emrendas
nas saias de enfim cansadas
de giros dançar sem sujeira

e bocas d'em gelo e água
acertam vilanias de paisagem
submarina'mãos de borbulhos
oceanam tod'os navegantes
chamas queimam cortantes
e calam a poesia imprecisa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sai, menino
que eu não quero mais ver
seu sorriso pequenino
me impedindo de chorar

larga essa rosa, menino
a roseira é mais que flor
e tá em todo destino
se aversar por esse olor

menino, para de correr
essas voltas ao meu redor
assim fica fácil esquecer
como dói essa minha dor

ah, menino, quando eu
não te encontrar mais
vou ser feliz no meu
jeito de adulto
não vou querer sorvete
nem vou querer palacete
de soldados de chumbo
não vou acordar cedo
nem morrer de medo
do bicho papão
não vou ter cor favorita
nem ter laço de fita
nos meus presentes
não vou chamar mãe pai avó
vou chamar uma pessoa só
que eu não quero esquecer
e vou chorar só com custo
esse choro robusto
que não sabe verter.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

esse calor
essa cerveja
esse amor
que ela deseja

ah, minha flor
essa felicidade
um dia ainda vai
encher saudade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

essa nossa fotografia
não me lembra daquele dia
nem dessa alegria
que a lente forçava, arredia
quando nos decidimos sorrir.

me lembra dos meus óculos
sujos; de fazer minúsculos
gastos, carinhos maiúsculos
multiplicando nos cálculos
todos os beijos roubados;

me lembra do frio, do calor
de cenas obcenas do amor
que eu não sei mais viver;

me lembra sensatez sem sal
um dia e outro sempre igual
a aventura trivial no litoral
daquele, na praia, temporal
que estragou meu livro favorito;

lembra o feijão que não comi,
vodka misturada que não bebi,
dor que não senti (nem gemi),
declaração que eu não recebi
porque disse que Não (por ti?);

me lembra quando aconteceu
e dormi como se fosse Orfeu
nos braços de Eurídice;

e lembra quando eu te disse
que o amor eu não entendia
mas, meu deus, como eu sentia!

domingo, 26 de dezembro de 2010

soneto da lembrança de uma tarde de mentira

ai esses mares de azuis verdes
reflexo procuro-te nas rosas
da mangueira em que perdes
a sã imaturidade das coisas

ai teu cantar junto ao Cartola
sorvendo os sempre estalos
que tumultuam som da vitrola
embolando música em novelos

ai a lã que rolava pela sala,
tu e eu bebendo coca-cola,
e sendo-nos tricotados juntos!

ai teu riso de água escura,
o doce da tua boca que jura,
fazendo mentira nossos assuntos!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

aqui o desenho do teu corpo
foi feito na luz
a lua fez ampla tua forma
ondulada e azul
e o sol queimou meus olhos
por onde não te vi

toma, da boca vil que te atormenta
a mesma tempesta'de voz sangrenta
o mesmo medo que era a escuridão!

no contorno da tua linha
e peito exposto
uma chuva quente em
meio agosto
mostrou a mesma graça
nas águas

quand'os olhos que amam estranham
a beleza castanha dessa sorte
dúvida dessossega, anjos cantam
o prenúncio certo dessa morte!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

não me certifico de dúvidas
mas eu vou-te no vamo-nos
das mãos (nossas quentes) dadas
que voz vossa faz bossa e enganos
morrerem de fome.

(o amor é como a fome melhorando a comida)

hoje:
tudo que não morre
queima
vou é morrer de ridículo
e queimar de amor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

(haikus fingindo poesia)

uma música
desconcertada
pela estrada
tira ritmo
da tua voz
após

(-na infância
uma concha
cantava o mar,
hoje sei que
é sangue
porque o mar
sou eu)

as folhas secas
sentem sono
no outono
mas no verão
sente sono
o coração

(-tuas unhas
tem carne
por debaixo,
em que meu mar
desemboca
por fluir)

e quando fogo
bateu porta
na casa torta
do nosso amor
o inverno
parecia eterno

(-o sal das
minhas águas
secam tua terra,
cativa peito
e julgamento
de solidão)

a primavera fez
grama amarela
pela janela
e num relance
nosso romance
fez céu azul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

tua beleza saturnina
imiscuída na retina
minha, bêbada
uma taça vazia
numa terça de dia

no aeroporto
levo meu morto
peito sóbrio
(coração não é bagagem
que se leva para viagem)

demos abraço
e um beijo laço
por gente olhando
lembra dele?
foi o último.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

soneto da pressa

o vento retalhou mar calmo
em onda lambida de som oceano
e a cólera que fez esse ano
coube encentrada num palmo

virou cansaço, o era escárnio
profundo como o sono da puta
embebedada dessa vida enxuta
chorando o choro do canário

e a dor que era pensamento
no centro de um labirinto
ganhou asas

voou pelas paredes, além gaiola
improvável pelo céu, pela pistola
e pelas casas

sábado, 11 de dezembro de 2010

você não devia ter abandonado
seu sorriso recém-acordado
nas minhas dobras de lençol

no frio, me põe saudade
quando encontro a felicidade
dos nossos dias sem sol

e no calor do seu sorriso
o meu riso mostra preciso
a sua presença vazia

e na cama ensaio desmaio
pra ver como eu me saio
fingindo essa tal alegria

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

esse refúgio é tenda
que tecida de versos.
com um deus no meio
talhado de versos.

e quando rompe linha
como vertigem num
semparapeito, aproxima
a queda toda. um
nó salva, mas, todo verso
entramado, arrisca
o próximo ao chãobatido
quando se arisca.

fogem, sutilmente
(não sei porquê)
para que os busque
pela mão, e dê
-lhes um novo lugar
no firmamento
conspirado de seus
rumores tortos.

quero matá-los.

mas não posso,
pós-tão-difícil-
esse (me) parto.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quieto & negro

entendo no silêncio
tanta coisa a mais
do que me poderiam dizer
aquele dia, aquela gota
de vinho na tua boca

(quase rompiam com a luz)

e como no teu jeito
de mexer no meu cabelo
vi nascer nossos lábios colados
brotando flor, arfando
degolando noite adentro
a madrugada em nossos sussurros

nos arrastamos pelo gosto
até pingar treva pelo céu
e escorrer em nosso sono
mal dormido, nossa manhã
vomitada, nosso futuro
esquecido.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

onde o proposto?
o fio da tarde
que me leva exposto
sempre me arde
e
teus pés nus
de caminhos
dançam escuros
sobre espinhos
e
me olham dentro
movendo montanha
sujos do outro
sangue e tamanha
da
vida, teus olhos
de vidro refletem
tantos agulhos
que quase se partem
mas
partimos os dois
quando a pálpebra
apaga os corações
em fundo de sombra