sexta-feira, 1 de junho de 2018

mancha-me os óculos, a tua pele,
quando de um beijo, e saio de ti
meio embaçado na vista, um'anti
clareza, oposta ao que compele

de volta ao teu rosto, e o gosto
por acordar noutro dia, já tarde,
com o segredo, na tez, exposto
de que, dentro, h'álgo que arde.

a segunda-feira, como atividade
burocrática, erguida tal a cidade
do tédio, é nossa prisão rotineira.

ela, soberba, dá início à semana
e imagina o gênese, mas s'engana
porque tu, e só tu, és a primeira.

terça-feira, 22 de maio de 2018

és, assim tão tímida, vontade
no peito: dentro. tão sufocada,
não te veem os pés de poeira
a agitar-se, a sola suad'a cada

dança. pareces fria, mas ardes
sopro-vulcão pelas entranhas,
(querência primeira) uma ligeira
tempestade. e quem te estranha

não vê, olhos de sangue, como
te escondes, num corpo quedo,
tão jogado à rede, e horizontal

mas lá estás, quieta, um pomo,
vermelho-pecado, um segredo
que brota, um dia, um carnaval

sexta-feira, 23 de junho de 2017

tento escrever-te, mas faz frio
e dói-me os dedos; falta-me a
força qu'arrefece no inverno, teu
calor ausente pela minha pele
esfomeia o tato que alimento co'
as mantas e os lençóis deixados
cheios do teu cheiro; nas veias
deles, a geometria do teu corpo
é aparecida, como a santa, e
enche-me os rins de vapor. sei
de ti pelas sombras projetadas
na minha rotina; sei-te o gosto
pelo café frio, a saudade dos
lábios manchados co'as borras
na xícara - vejo-te subir marés
na lua cheia, erguer a encosta
que segura o mar no lugar, os
sussurros que te escapam dão
voz às conchas, e teus cabelos
voam de lado à carangueijos -
mas apareces-me sem erro, e
mesmo a mais banal aparição
pela minha cama - as cicatrizes
mais claras, o sono murmurado -
é milagrosa, porque és minha
para ter com a boca e com as
pontas dos dedos frios que
não te escrevem.

terça-feira, 11 de abril de 2017

atravessa o passado, um
tipo de dor. faz-se pelas
memórias, virulenta, um
se-espalhar que de tudo
toma conta. perfura-se
pelo passado, como se
fogo, o consumo de fato
após fato, o sedimento
da história s'esfarelando;
está no aniversário de
sete anos (como gênese)
e no dia que ganho um
hamster, tão frágil e tão
bonito que dá vontade de
comer. não me lembro
d'algum dia não senti-la,
indo à escola ou piscina
comendo carne ou fruta,
dentro da latinha do meu
refrigerante favorito, num
dia quente (e o refrigerante
gelado); quando ponho as
mãos nos bolso: está lá
quando respiro no inverno
e sai o hálito em nuvem: lá
quando digo "um bom dia"
dói-me, e senti essa dor
tod'as vezes, por todos os
anos, como um fenda no
fundo do peito, que é de
onde agora acabou de sair
esse vulcão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

não serei calmo neste dia
que amanheço. sinto nas
entranhas a tormenta que
virará os barcos, a espuma
que tratá o pó das almas
às areias, e rebentará as
vozes perdidas às rochas
como se estas sangrassem.
hoje recuso-me, sou-me só
punhos pelas águas, e não
há quem me governe no
firmamento - subirei maré
aos céus e, dele, também
tomarei conta, mas serei
rei nunca, monarca nada;
meu sal será ferrugem das
máquinas, minhas ondas
túmulo de antig'amantes;
até sereias farão quietas
e, se algum desafiar-me
a fúria, só o mais bravio
almirante, ou pirata mais
rei, flutuará.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

se tu me pedisse para caminhar
sobre as águas, o que eu faria?
sabes como não sequer navego
o sono, e afundo-me no fundo
para voltar e contar-te os sonhos
sobr'as sereias, sobre o mar, os
teus beijos, e tudo o mais que
me afoga; será que iria? os pés
descalços, à beira praia, c'os
chinelos na mão, a calça pelos
joelhos - respiraria fundo o ar,
pra ver se fico leve, e maresia,
a ver se boio, e arriscaria um
passo primeiro, molhando-me
a sola, o pavor de não ver as
minhas marcas n'areia, as tatuíras
expostas de novo s'escondendo,
e ter que caminhar na direção
dos deuses, onde iria me sentar
co's outros monstros, eu e um
minotauro, quem sabe, cada um
com seu copo de cerveja, e a
luz divina que é nossa trágedia,
e que só me achou por culpa
tua.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

fica aqui, ar rarefeito,
tod'alegria que aceito
que me sufoque

a parede geométrica
o branco, ess'ascética
luz que invoque

uma fumaça-cigarro,
tosse seca, o escarro
d'um seu toque

aqui; exerço o sono
durmo e perc'o sono
sem um choque

de realidade, calma
sútil, toda sem alma
e sem porquê

terça-feira, 24 de maio de 2016

ainda que eu pudesse rendê-la
no reflexo de uma gota de chuva
que não explodisse no chão, e
jogasse sobre o cimento a imagem
dela em estilhaços; ainda que
a fragilidade dela não fosse, como
dizer?, tão frágil, e pelo chão ela
reinasse como um lençol de água
para embebedar a segunda-feira;
ainda que eu fosse imperador para
legislar os dias de chuva como dias
de casa, e atasse-a a este sofá,
que tão bem conhece a impressão
do corpo dela, e esparramássemos
úmidos como o orvalho destes móveis,
e pingássemos - a covardia na carne
aparecendo - uma preguiça mercurial
tão invencível que só podia ser divina;
ainda que o veneno da madrugada
tornasse o seu corpo espuma, e o riso
vapor, e a forma delicada, aparecida,
não permitisse mais o toque, mas só
um apalpar da atmosfera que contorna
a sua presença; ainda que só pudesse
beijar o que sublima pelos azulejos
após um banho quente, ou na tampa
duma panela cozendo minhas entranhas;
ainda que só pudesse me espraiar e
abrir um livro, de pernas cruzadas,
vendo ela dar a graça no suor de uma
cerveja, e ouvir a voz dela nas ondas
pelas praias vazias do inverno, eu, feliz,
aceitaria ser testemunha, e o prisioneiro,
do seu vai-e-vem

terça-feira, 17 de maio de 2016

continuo caindo em desgraça
continuo a ter no boca a casca
da pitomba explodida, vazia
da semente e da carne branca
translúcida que m'enche a boca
d'azedume e fiapo, raspando-a
nos dentes, até não ter sabor
e perder a fruta macia, que mora
perfeita, úmida (como teus olhos)
nesse envólucro amarelo e sujo
que um dia deu numa árvore
nordestina, pra chegar e'minha
boca e a acidez dela me comer
enquanto a como, e enquanto a
como, e enquanto a como, e en
quanto a como e penso em como
as pessoas viajarem as trouxeram
até mim e enquanto a como (e
enquanto a como) eu penso se
será eu que acabarei co'as pitombas,
ou as pitombas é que acabarão comigo

quarta-feira, 4 de maio de 2016

todas as coisas que se movem
o tempo inteiro: a grama que
revela a vida do vento, a água
oculta que navega as folhas secas -
embarcações furadas do nascer
d'outono - naufragando na boca
do inverno, c'o frio chegando
furioso nos pêlos dos gatos que
s'embraquecem, as patinhas sem
luvas que eles esquentam contr'as
nossas costas nuas fora das cobertas.
o sol empalidece, também o calor
tem os lábios rachados, e beija-nos
co' essa luz dourada que nos sufoca
sem misericórdia; não há canção
que nos aqueça, voz de pássaro
noturno, ou coração de jardim e flor
em que escondamos o que o verão
tinha feito pacífico, felicidade sem
pressa; tudo está às beiras de secar
sob o céu cinza, s'esconder entre
as nuvens se arrastando no horizonte
e desaparecer -- menos você, que
é parte delírio, e não se congela.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

há um único último desejo:
cair nos teus braços

e adiar todo sono,
porque não há pressa
por sonhos quando a
realidade é mais funda
de se sentir na carne
dos teus lábios

e querer, querendo tanto,
o teu silêncio, e um canto
de noite que se sustente
frágil com'uma linha ínfima
que quase s'arrebenta
e se evapora -- mas não.

e nós duramos, cada vez
mais concretos contra toda
construção, e toda rotina
e todo progresso e toda
repentina catástrofe que
o mundo nos cometa

e entranhamos quietos
nossas superfícies, suamos
e nos cobrimos do frio,
e encerramos o mundo

que não foi convidado

para cair nos teus braços

quarta-feira, 9 de março de 2016

essa é a tua natureza, assim restrita
no teu corpo, pequeno e branco,
que tu escondes de mim com tudo
que há de roupa, e com a distância
que me é a pena. é perpétua a tua
ausência, mas combina contigo e
com tua essência lacunar, que não se
preenche de nada, porque mudas
como a maré, em ondas constantes
de prazer que, aos poucos, consomem
teus desejos. apaixonas-te muito e
tudo que amas te muda da maneira
mais imperceptível, sussurras pela carne
que não és mais a mesma, numa língua
irreconhecível aos meus dedos, à boca
que te morde e aos ouvidos que escutam,
porque és própria, própria ao ponto
de ser oceânica e não poder ser contida
por nenhuma linguagem particular além
dos teus versos privados, que movem
os pés a palmilhar as encostas d'uma
existência de vidro e fogo, obscura
por trás de olhos doces e reflexivos,
mas não és doce, apesar de saber sê-lo
pelos lábios, és água e fogo, e amas demais.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

este arrepio n'espinha
ao teu desassossego,
teu pé que desaninha
o dia, e o desapego

da noite; és selvagem
com'a tarde de domingo,
forças-me à coragem
d'enfrentar o tédio imigo --

és-me gelo pelos ossos;
mirada a que me acosso
feito não fostes fumaça.

solidificas nos abraços
como se esses'tilhaços
fossem o que me enlaça.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

daqui os teus olhos vieram,
escavados da terra, pérolas
d'areia, das que cresceram,
também, entre ouro amarelo

do colar da tua vó. o papel
da pele é o mesmo, mas
tu desenhas-te, e ela, fiel
ao tempo, é frágil às chamas

dos dia. és o retrato vivo
do passado, pintura que pulsa
a possessão do que era altivo.

és as cinzas em carne avulsa,
o retorno do ontem esquivo
qu'o presente do peito expulsa

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

és-me o destino ao fracasso.
és meu desatino, meus erros,
lista de tudo que m'é escaço,
meu contudo, meus encerros.

és me a vírgula, primeiro,
pausa mácula do meu ritmo.
não és final, o ponto inteiro,
o completo, imortal no íntimo.

teu parêntesis é o efêmero
acoplar que é nada, mero
gênesis que não fecunda.

o mar que, quando fores,
será tormentoso e alhures
e'm qu'a minha nau afunda.
és-me a raiz do desejo
sem flor. és o mármore
que enrijece, ao cortejo,
de dor. és-me a árvore

sem sombra, e a fruta
que me falta à boca.
és o segredo de muita
coisa, mas és tão pouca.

o silêncio entr'as folhas
tu corrompes; arrolhas
a noite, com'um vinho -

tudo em ti afasta longe,
e 'ranca a dor que finge
seres, tu, um só caminho.

sábado, 30 de janeiro de 2016

metes-te pela garganta
dessa casa; teu cheiro
pelo sofá e as quantas
marcas do corpo inteiro

por janeiro, estendida
sobre a minha cabeça
flutuas ao teto, aparecida,
sem que nos aconteça

uma graça passageira,
um pecado, uma ligeira
agonia. entras demais,

me atravessas, és frio
em'eio verão, a sutil
fome que insacia mais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

piso-te com a sensibilidade
dos embriagados, o chão
mais fundo que a realidade
dos olhos, os pés 'inda não

preparados para o impacto;
dispara-me peito, o engano
da tua lonjura. é teu intacto
que me causa todo o dano.

se acerto-te, nada me falta
finco-me fundo, o pé exalta
tua presença, não m'esmago;

mas és chão tão, tão raro...
só há inébrio, nunca é claro:
todo passo é um passo vago
és-me a tensão no pescoço,
a cólera nos rins que logo
goza-se em fogo. és esboço
da paixão (frio no estômago)

ainda sem medida. és-me
a carne consumida, língua
pela pele, garra que geme
e suspira. minh'alma míngua

pelo teu caminho, tropeço-te
por canto de lábio, ou rente
ouvido, par'arrancar pedaço.

és-me a métrica do vazio,
o peito infinito, escorregadio,
que, ao entrar, eu me desfaço

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

(medusa)

não vês a carne dos cabelos
convoluta, ou tua profusão
de superfícies. és cego ato
do tempo em comunhão
com a retina; um impacto
do relógio contra o infinito
da ruína. és, nos pelos,
serpente. na pele, granito.


és, do tempo, a última
habitante, à tua mira
apenas o sólido pretérito
imperfeito; és a ira
sem reflexo, e o ínquerito
da certeza - trai-te, ver-te,
tua natureza, mas sublima
a glória qu'a verdade verte