não há túmulo no exílio
somos como gatos perdidos
que não são tão perdidos
quanto foram embora
e vivem n'algum lugar
uma aventura, ou duas
aventuras, mas que um dia
talvez voltem.
no exílio estamos sozinhos
da porta pra cá, da porta
pra lá - somos informados -
o ar é feito de lava e vai
nos consumir os pulmões.
como 'inda não dominamos
uma apneia que dure
o tempo do abraço
que daremos, continuamos
pra dentro.
ao me exilar, fechei-me
além da chave. fechei-me
do desejo para não poder
nem desejar. olhei meus pés
muitas vezes, olhei minhas
mãos muitas vezes, olhei
meu umbigo no centro do
que engordo todo o dia
com tristeza. mas não posso
querer emagrecer, porque
já é um desejar, e o desejo
está perigoso.
daqui do exílio não se vê
muito. o horizonte está entre
os prédios e procurá-lo não
tem graça. acordo às 4 da
tarde e mal vejo o sol. vejo
em mim às vezes um saco de
bosta, noutras um saco de
vento, mas não vejo um
poeta, um leitor, um amante,
um romântico, um gozo,
nem vejo um confidente, um
guardião de segredos
e medos, ou um conspirador
de esperanças.
na madruga do exílio (a única
parte do dia que 'inda existe
com regularidade) é sempre
meia noite em ponto, o relógio
até corre pra frente, mas a
meia noite persiste e vai me
cavando olheiras, me invocando
punhetas, a ampulheta não
corre como areia mas como
ossos pulverizados, ela pisca
como um relógio não programado
que não acumula horas, as
desperdiça.
o exílio reivindica a distância
para si. a palavra certa parece
a menor distância possível,
a proximidade de um dedo
metido dentro da boca, um
nariz espremido contr'o rosto,
um beijo na testa, um mamilo
entre os dentes. uma mensagem
chega e tremo como se fosse
morrer, como se um corpo
viesse junto para eu não
estar sozinho.
no exílio sentimo-nos sujos, nos
lavamos como se fôssemos mais:
imundos. queremos tomar banho
de água benta, ou ser lambidos
por virgens, e passar as tardes
chupando sabonete, e as noites
sonhamos que a pessoa amada
mije no nosso rosto, e que escorra
pelos nossos pescoços e empoce
nossas clavículas.
a palavra exilada toma os
contornos da carne, ganha o
sentido da vida desesperada
que a envia, ela vem de outro
planeta - apesar de todas as
palavras virem d'outro planeta -
como um flecha do sistema
solar, como uma flecha do sol,
e sente-se o calor na cara, a
vitamina d se produzir enganada,
e da palavra a gente fala como
objeto material, como coisa,
porque não existem mais corpos,
não existem beijos, não existe
trepada, nem dormir entrelaçado.
a palavra é tudo, a ordem das
palavras vem fulminante, e'ntão
é quando cai a ficha de que
todo poeta sempre escreveu
sozinho, todo leitor sempre leu
sozinho.
o exílio promete acabar um dia
mas vemos marchar os generais
e ouvimos os tiros, perdemos o
contato com amigos que somem
na memória, e precisamos enfim
encarar que nos torturamos com
as promessas que fazemos no
crédito. a vida anterior nos
ocupava com estranhos, vinha
disfarçando a ausência de quem
amávamos diariamente. vemos
o mundo no éter, esperando
nosso retorno, mas fica claro
que não há ao que retornar.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
segunda-feira, 29 de julho de 2019
quando de uma hora passada
um relógio sem ponteiros
que assinala apenas com as engrenagens
caindo em movimento metalicamente
o passado dos minutos, ainda
com a teimosia de marcar o tempo
com o som, se não com os olhos
e eu, que evito o relógio, e por
isso não encaro os ponteiros
com a angústia de que eles me atravessem
sou atravessado por um outro tempo
que eu tento evitar
viro vítima de uma transubstanciação
do passado, a força interna que molda
o âmago de volta a uma forma que passou
com o tempo, que se perdeu a esmo
no futuro e da qual não sinto falta,
mas a quem tenho a responsabilidade de responder
pela esperança não concretizada
no homem que me tornei a seguir.
não tenho arrependimentos, mas tenho
que encarar, potencial morto, que não,
não era o gênio que agora vejo que nunca fui
e, muito mais do que isso, não fui também
senão um fracasso, que por muito tempo
esteve apenas no meu caminho.
quando de uma hora passada lembro ainda
a forma apaixonada por tudo que tanto
se protegeu do mundo, e que o mundo alcançou
sem maldade, mas também sem se importar
e digo-a: não escrevo mais, não há secretamente
um livro em mim, nem dois livros, nem uma carreira
literária, não há sequer mais o hábito de sentar
no escuro e escrever ouvindo música, e inclusive
não há mais as frases em mensagem aos amigos
que também não mantive.
peço desculpas por não
ter jogado fora o relógio
e impedi-lo, ao menos, de
me torturar dessa maneira
que é o último refúgio que
tenho, o último cuidado que
me guardo, porque todo
o resto me esvaziou de uma
maneira que, eu imagino,
nem a morte esvaziará.
um relógio sem ponteiros
que assinala apenas com as engrenagens
caindo em movimento metalicamente
o passado dos minutos, ainda
com a teimosia de marcar o tempo
com o som, se não com os olhos
e eu, que evito o relógio, e por
isso não encaro os ponteiros
com a angústia de que eles me atravessem
sou atravessado por um outro tempo
que eu tento evitar
viro vítima de uma transubstanciação
do passado, a força interna que molda
o âmago de volta a uma forma que passou
com o tempo, que se perdeu a esmo
no futuro e da qual não sinto falta,
mas a quem tenho a responsabilidade de responder
pela esperança não concretizada
no homem que me tornei a seguir.
não tenho arrependimentos, mas tenho
que encarar, potencial morto, que não,
não era o gênio que agora vejo que nunca fui
e, muito mais do que isso, não fui também
senão um fracasso, que por muito tempo
esteve apenas no meu caminho.
quando de uma hora passada lembro ainda
a forma apaixonada por tudo que tanto
se protegeu do mundo, e que o mundo alcançou
sem maldade, mas também sem se importar
e digo-a: não escrevo mais, não há secretamente
um livro em mim, nem dois livros, nem uma carreira
literária, não há sequer mais o hábito de sentar
no escuro e escrever ouvindo música, e inclusive
não há mais as frases em mensagem aos amigos
que também não mantive.
peço desculpas por não
ter jogado fora o relógio
e impedi-lo, ao menos, de
me torturar dessa maneira
que é o último refúgio que
tenho, o último cuidado que
me guardo, porque todo
o resto me esvaziou de uma
maneira que, eu imagino,
nem a morte esvaziará.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
mancha-me os óculos, a tua pele,
quando de um beijo, e saio de ti
meio embaçado na vista, um'anti
clareza, oposta ao que compele
de volta ao teu rosto, e o gosto
por acordar noutro dia, já tarde,
com o segredo, na tez, exposto
de que, dentro, h'álgo que arde.
a segunda-feira, como atividade
burocrática, erguida tal a cidade
do tédio, é nossa prisão rotineira.
ela, soberba, dá início à semana
e imagina o gênese, mas s'engana
porque tu, e só tu, és a primeira.
quando de um beijo, e saio de ti
meio embaçado na vista, um'anti
clareza, oposta ao que compele
de volta ao teu rosto, e o gosto
por acordar noutro dia, já tarde,
com o segredo, na tez, exposto
de que, dentro, h'álgo que arde.
a segunda-feira, como atividade
burocrática, erguida tal a cidade
do tédio, é nossa prisão rotineira.
ela, soberba, dá início à semana
e imagina o gênese, mas s'engana
porque tu, e só tu, és a primeira.
terça-feira, 22 de maio de 2018
és, assim tão tímida, vontade
no peito: dentro. tão sufocada,
não te veem os pés de poeira
a agitar-se, a sola suad'a cada
dança. pareces fria, mas ardes
sopro-vulcão pelas entranhas,
(querência primeira) uma ligeira
tempestade. e quem te estranha
não vê, olhos de sangue, como
te escondes, num corpo quedo,
tão jogado à rede, e horizontal
mas lá estás, quieta, um pomo,
vermelho-pecado, um segredo
que brota, um dia, um carnaval
no peito: dentro. tão sufocada,
não te veem os pés de poeira
a agitar-se, a sola suad'a cada
dança. pareces fria, mas ardes
sopro-vulcão pelas entranhas,
(querência primeira) uma ligeira
tempestade. e quem te estranha
não vê, olhos de sangue, como
te escondes, num corpo quedo,
tão jogado à rede, e horizontal
mas lá estás, quieta, um pomo,
vermelho-pecado, um segredo
que brota, um dia, um carnaval
sexta-feira, 23 de junho de 2017
tento escrever-te, mas faz frio
e dói-me os dedos; falta-me a
força qu'arrefece no inverno, teu
calor ausente pela minha pele
esfomeia o tato que alimento co'
as mantas e os lençóis deixados
cheios do teu cheiro; nas veias
deles, a geometria do teu corpo
é aparecida, como a santa, e
enche-me os rins de vapor. sei
de ti pelas sombras projetadas
na minha rotina; sei-te o gosto
pelo café frio, a saudade dos
lábios manchados co'as borras
na xícara - vejo-te subir marés
na lua cheia, erguer a encosta
que segura o mar no lugar, os
sussurros que te escapam dão
voz às conchas, e teus cabelos
voam de lado à carangueijos -
mas apareces-me sem erro, e
mesmo a mais banal aparição
pela minha cama - as cicatrizes
mais claras, o sono murmurado -
é milagrosa, porque és minha
para ter com a boca e com as
pontas dos dedos frios que
não te escrevem.
e dói-me os dedos; falta-me a
força qu'arrefece no inverno, teu
calor ausente pela minha pele
esfomeia o tato que alimento co'
as mantas e os lençóis deixados
cheios do teu cheiro; nas veias
deles, a geometria do teu corpo
é aparecida, como a santa, e
enche-me os rins de vapor. sei
de ti pelas sombras projetadas
na minha rotina; sei-te o gosto
pelo café frio, a saudade dos
lábios manchados co'as borras
na xícara - vejo-te subir marés
na lua cheia, erguer a encosta
que segura o mar no lugar, os
sussurros que te escapam dão
voz às conchas, e teus cabelos
voam de lado à carangueijos -
mas apareces-me sem erro, e
mesmo a mais banal aparição
pela minha cama - as cicatrizes
mais claras, o sono murmurado -
é milagrosa, porque és minha
para ter com a boca e com as
pontas dos dedos frios que
não te escrevem.
terça-feira, 11 de abril de 2017
atravessa o passado, um
tipo de dor. faz-se pelas
memórias, virulenta, um
se-espalhar que de tudo
toma conta. perfura-se
pelo passado, como se
fogo, o consumo de fato
após fato, o sedimento
da história s'esfarelando;
está no aniversário de
sete anos (como gênese)
e no dia que ganho um
hamster, tão frágil e tão
bonito que dá vontade de
comer. não me lembro
d'algum dia não senti-la,
indo à escola ou piscina
comendo carne ou fruta,
dentro da latinha do meu
refrigerante favorito, num
dia quente (e o refrigerante
gelado); quando ponho as
mãos nos bolso: está lá
quando respiro no inverno
e sai o hálito em nuvem: lá
quando digo "um bom dia"
dói-me, e senti essa dor
tod'as vezes, por todos os
anos, como um fenda no
fundo do peito, que é de
onde agora acabou de sair
esse vulcão.
tipo de dor. faz-se pelas
memórias, virulenta, um
se-espalhar que de tudo
toma conta. perfura-se
pelo passado, como se
fogo, o consumo de fato
após fato, o sedimento
da história s'esfarelando;
está no aniversário de
sete anos (como gênese)
e no dia que ganho um
hamster, tão frágil e tão
bonito que dá vontade de
comer. não me lembro
d'algum dia não senti-la,
indo à escola ou piscina
comendo carne ou fruta,
dentro da latinha do meu
refrigerante favorito, num
dia quente (e o refrigerante
gelado); quando ponho as
mãos nos bolso: está lá
quando respiro no inverno
e sai o hálito em nuvem: lá
quando digo "um bom dia"
dói-me, e senti essa dor
tod'as vezes, por todos os
anos, como um fenda no
fundo do peito, que é de
onde agora acabou de sair
esse vulcão.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
não serei calmo neste dia
que amanheço. sinto nas
entranhas a tormenta que
virará os barcos, a espuma
que tratá o pó das almas
às areias, e rebentará as
vozes perdidas às rochas
como se estas sangrassem.
hoje recuso-me, sou-me só
punhos pelas águas, e não
há quem me governe no
firmamento - subirei maré
aos céus e, dele, também
tomarei conta, mas serei
rei nunca, monarca nada;
meu sal será ferrugem das
máquinas, minhas ondas
túmulo de antig'amantes;
até sereias farão quietas
e, se algum desafiar-me
a fúria, só o mais bravio
almirante, ou pirata mais
rei, flutuará.
que amanheço. sinto nas
entranhas a tormenta que
virará os barcos, a espuma
que tratá o pó das almas
às areias, e rebentará as
vozes perdidas às rochas
como se estas sangrassem.
hoje recuso-me, sou-me só
punhos pelas águas, e não
há quem me governe no
firmamento - subirei maré
aos céus e, dele, também
tomarei conta, mas serei
rei nunca, monarca nada;
meu sal será ferrugem das
máquinas, minhas ondas
túmulo de antig'amantes;
até sereias farão quietas
e, se algum desafiar-me
a fúria, só o mais bravio
almirante, ou pirata mais
rei, flutuará.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
se tu me pedisse para caminhar
sobre as águas, o que eu faria?
sabes como não sequer navego
o sono, e afundo-me no fundo
para voltar e contar-te os sonhos
sobr'as sereias, sobre o mar, os
teus beijos, e tudo o mais que
me afoga; será que iria? os pés
descalços, à beira praia, c'os
chinelos na mão, a calça pelos
joelhos - respiraria fundo o ar,
pra ver se fico leve, e maresia,
a ver se boio, e arriscaria um
passo primeiro, molhando-me
a sola, o pavor de não ver as
minhas marcas n'areia, as tatuíras
expostas de novo s'escondendo,
e ter que caminhar na direção
dos deuses, onde iria me sentar
co's outros monstros, eu e um
minotauro, quem sabe, cada um
com seu copo de cerveja, e a
luz divina que é nossa trágedia,
e que só me achou por culpa
tua.
sobre as águas, o que eu faria?
sabes como não sequer navego
o sono, e afundo-me no fundo
para voltar e contar-te os sonhos
sobr'as sereias, sobre o mar, os
teus beijos, e tudo o mais que
me afoga; será que iria? os pés
descalços, à beira praia, c'os
chinelos na mão, a calça pelos
joelhos - respiraria fundo o ar,
pra ver se fico leve, e maresia,
a ver se boio, e arriscaria um
passo primeiro, molhando-me
a sola, o pavor de não ver as
minhas marcas n'areia, as tatuíras
expostas de novo s'escondendo,
e ter que caminhar na direção
dos deuses, onde iria me sentar
co's outros monstros, eu e um
minotauro, quem sabe, cada um
com seu copo de cerveja, e a
luz divina que é nossa trágedia,
e que só me achou por culpa
tua.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
terça-feira, 24 de maio de 2016
ainda que eu pudesse rendê-la
no reflexo de uma gota de chuva
que não explodisse no chão, e
jogasse sobre o cimento a imagem
dela em estilhaços; ainda que
a fragilidade dela não fosse, como
dizer?, tão frágil, e pelo chão ela
reinasse como um lençol de água
para embebedar a segunda-feira;
ainda que eu fosse imperador para
legislar os dias de chuva como dias
de casa, e atasse-a a este sofá,
que tão bem conhece a impressão
do corpo dela, e esparramássemos
úmidos como o orvalho destes móveis,
e pingássemos - a covardia na carne
aparecendo - uma preguiça mercurial
tão invencível que só podia ser divina;
ainda que o veneno da madrugada
tornasse o seu corpo espuma, e o riso
vapor, e a forma delicada, aparecida,
não permitisse mais o toque, mas só
um apalpar da atmosfera que contorna
a sua presença; ainda que só pudesse
beijar o que sublima pelos azulejos
após um banho quente, ou na tampa
duma panela cozendo minhas entranhas;
ainda que só pudesse me espraiar e
abrir um livro, de pernas cruzadas,
vendo ela dar a graça no suor de uma
cerveja, e ouvir a voz dela nas ondas
pelas praias vazias do inverno, eu, feliz,
aceitaria ser testemunha, e o prisioneiro,
do seu vai-e-vem
no reflexo de uma gota de chuva
que não explodisse no chão, e
jogasse sobre o cimento a imagem
dela em estilhaços; ainda que
a fragilidade dela não fosse, como
dizer?, tão frágil, e pelo chão ela
reinasse como um lençol de água
para embebedar a segunda-feira;
ainda que eu fosse imperador para
legislar os dias de chuva como dias
de casa, e atasse-a a este sofá,
que tão bem conhece a impressão
do corpo dela, e esparramássemos
úmidos como o orvalho destes móveis,
e pingássemos - a covardia na carne
aparecendo - uma preguiça mercurial
tão invencível que só podia ser divina;
ainda que o veneno da madrugada
tornasse o seu corpo espuma, e o riso
vapor, e a forma delicada, aparecida,
não permitisse mais o toque, mas só
um apalpar da atmosfera que contorna
a sua presença; ainda que só pudesse
beijar o que sublima pelos azulejos
após um banho quente, ou na tampa
duma panela cozendo minhas entranhas;
ainda que só pudesse me espraiar e
abrir um livro, de pernas cruzadas,
vendo ela dar a graça no suor de uma
cerveja, e ouvir a voz dela nas ondas
pelas praias vazias do inverno, eu, feliz,
aceitaria ser testemunha, e o prisioneiro,
do seu vai-e-vem
terça-feira, 17 de maio de 2016
continuo caindo em desgraça
continuo a ter no boca a casca
da pitomba explodida, vazia
da semente e da carne branca
translúcida que m'enche a boca
d'azedume e fiapo, raspando-a
nos dentes, até não ter sabor
e perder a fruta macia, que mora
perfeita, úmida (como teus olhos)
nesse envólucro amarelo e sujo
que um dia deu numa árvore
nordestina, pra chegar e'minha
boca e a acidez dela me comer
enquanto a como, e enquanto a
como, e enquanto a como, e en
quanto a como e penso em como
as pessoas viajarem as trouxeram
até mim e enquanto a como (e
enquanto a como) eu penso se
será eu que acabarei co'as pitombas,
ou as pitombas é que acabarão comigo
continuo a ter no boca a casca
da pitomba explodida, vazia
da semente e da carne branca
translúcida que m'enche a boca
d'azedume e fiapo, raspando-a
nos dentes, até não ter sabor
e perder a fruta macia, que mora
perfeita, úmida (como teus olhos)
nesse envólucro amarelo e sujo
que um dia deu numa árvore
nordestina, pra chegar e'minha
boca e a acidez dela me comer
enquanto a como, e enquanto a
como, e enquanto a como, e en
quanto a como e penso em como
as pessoas viajarem as trouxeram
até mim e enquanto a como (e
enquanto a como) eu penso se
será eu que acabarei co'as pitombas,
ou as pitombas é que acabarão comigo
quarta-feira, 4 de maio de 2016
todas as coisas que se movem
o tempo inteiro: a grama que
revela a vida do vento, a água
oculta que navega as folhas secas -
embarcações furadas do nascer
d'outono - naufragando na boca
do inverno, c'o frio chegando
furioso nos pêlos dos gatos que
s'embraquecem, as patinhas sem
luvas que eles esquentam contr'as
nossas costas nuas fora das cobertas.
o sol empalidece, também o calor
tem os lábios rachados, e beija-nos
co' essa luz dourada que nos sufoca
sem misericórdia; não há canção
que nos aqueça, voz de pássaro
noturno, ou coração de jardim e flor
em que escondamos o que o verão
tinha feito pacífico, felicidade sem
pressa; tudo está às beiras de secar
sob o céu cinza, s'esconder entre
as nuvens se arrastando no horizonte
e desaparecer -- menos você, que
é parte delírio, e não se congela.
o tempo inteiro: a grama que
revela a vida do vento, a água
oculta que navega as folhas secas -
embarcações furadas do nascer
d'outono - naufragando na boca
do inverno, c'o frio chegando
furioso nos pêlos dos gatos que
s'embraquecem, as patinhas sem
luvas que eles esquentam contr'as
nossas costas nuas fora das cobertas.
o sol empalidece, também o calor
tem os lábios rachados, e beija-nos
co' essa luz dourada que nos sufoca
sem misericórdia; não há canção
que nos aqueça, voz de pássaro
noturno, ou coração de jardim e flor
em que escondamos o que o verão
tinha feito pacífico, felicidade sem
pressa; tudo está às beiras de secar
sob o céu cinza, s'esconder entre
as nuvens se arrastando no horizonte
e desaparecer -- menos você, que
é parte delírio, e não se congela.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
há um único último desejo:
cair nos teus braços
e adiar todo sono,
porque não há pressa
por sonhos quando a
realidade é mais funda
de se sentir na carne
dos teus lábios
e querer, querendo tanto,
o teu silêncio, e um canto
de noite que se sustente
frágil com'uma linha ínfima
que quase s'arrebenta
e se evapora -- mas não.
e nós duramos, cada vez
mais concretos contra toda
construção, e toda rotina
e todo progresso e toda
repentina catástrofe que
o mundo nos cometa
e entranhamos quietos
nossas superfícies, suamos
e nos cobrimos do frio,
e encerramos o mundo
que não foi convidado
para cair nos teus braços
cair nos teus braços
e adiar todo sono,
porque não há pressa
por sonhos quando a
realidade é mais funda
de se sentir na carne
dos teus lábios
e querer, querendo tanto,
o teu silêncio, e um canto
de noite que se sustente
frágil com'uma linha ínfima
que quase s'arrebenta
e se evapora -- mas não.
e nós duramos, cada vez
mais concretos contra toda
construção, e toda rotina
e todo progresso e toda
repentina catástrofe que
o mundo nos cometa
e entranhamos quietos
nossas superfícies, suamos
e nos cobrimos do frio,
e encerramos o mundo
que não foi convidado
para cair nos teus braços
quarta-feira, 9 de março de 2016
essa é a tua natureza, assim restrita
no teu corpo, pequeno e branco,
que tu escondes de mim com tudo
que há de roupa, e com a distância
que me é a pena. é perpétua a tua
ausência, mas combina contigo e
com tua essência lacunar, que não se
preenche de nada, porque mudas
como a maré, em ondas constantes
de prazer que, aos poucos, consomem
teus desejos. apaixonas-te muito e
tudo que amas te muda da maneira
mais imperceptível, sussurras pela carne
que não és mais a mesma, numa língua
irreconhecível aos meus dedos, à boca
que te morde e aos ouvidos que escutam,
porque és própria, própria ao ponto
de ser oceânica e não poder ser contida
por nenhuma linguagem particular além
dos teus versos privados, que movem
os pés a palmilhar as encostas d'uma
existência de vidro e fogo, obscura
por trás de olhos doces e reflexivos,
mas não és doce, apesar de saber sê-lo
pelos lábios, és água e fogo, e amas demais.
no teu corpo, pequeno e branco,
que tu escondes de mim com tudo
que há de roupa, e com a distância
que me é a pena. é perpétua a tua
ausência, mas combina contigo e
com tua essência lacunar, que não se
preenche de nada, porque mudas
como a maré, em ondas constantes
de prazer que, aos poucos, consomem
teus desejos. apaixonas-te muito e
tudo que amas te muda da maneira
mais imperceptível, sussurras pela carne
que não és mais a mesma, numa língua
irreconhecível aos meus dedos, à boca
que te morde e aos ouvidos que escutam,
porque és própria, própria ao ponto
de ser oceânica e não poder ser contida
por nenhuma linguagem particular além
dos teus versos privados, que movem
os pés a palmilhar as encostas d'uma
existência de vidro e fogo, obscura
por trás de olhos doces e reflexivos,
mas não és doce, apesar de saber sê-lo
pelos lábios, és água e fogo, e amas demais.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
este arrepio n'espinha
ao teu desassossego,
teu pé que desaninha
o dia, e o desapego
da noite; és selvagem
com'a tarde de domingo,
forças-me à coragem
d'enfrentar o tédio imigo --
és-me gelo pelos ossos;
mirada a que me acosso
ao teu desassossego,
teu pé que desaninha
o dia, e o desapego
da noite; és selvagem
com'a tarde de domingo,
forças-me à coragem
d'enfrentar o tédio imigo --
és-me gelo pelos ossos;
mirada a que me acosso
feito não fostes fumaça.
solidificas nos abraços
como se esses'tilhaços
fossem o que me enlaça.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
daqui os teus olhos vieram,
escavados da terra, pérolas
d'areia, das que cresceram,
também, entre ouro amarelo
do colar da tua vó. o papel
da pele é o mesmo, mas
tu desenhas-te, e ela, fiel
ao tempo, é frágil às chamas
dos dia. és o retrato vivo
do passado, pintura que pulsa
a possessão do que era altivo.
és as cinzas em carne avulsa,
o retorno do ontem esquivo
qu'o presente do peito expulsa
escavados da terra, pérolas
d'areia, das que cresceram,
também, entre ouro amarelo
do colar da tua vó. o papel
da pele é o mesmo, mas
tu desenhas-te, e ela, fiel
ao tempo, é frágil às chamas
dos dia. és o retrato vivo
do passado, pintura que pulsa
a possessão do que era altivo.
és as cinzas em carne avulsa,
o retorno do ontem esquivo
qu'o presente do peito expulsa
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
és-me o destino ao fracasso.
és meu desatino, meus erros,
lista de tudo que m'é escaço,
meu contudo, meus encerros.
és me a vírgula, primeiro,
pausa mácula do meu ritmo.
não és final, o ponto inteiro,
o completo, imortal no íntimo.
teu parêntesis é o efêmero
acoplar que é nada, mero
gênesis que não fecunda.
o mar que, quando fores,
será tormentoso e alhures
e'm qu'a minha nau afunda.
és meu desatino, meus erros,
lista de tudo que m'é escaço,
meu contudo, meus encerros.
és me a vírgula, primeiro,
pausa mácula do meu ritmo.
não és final, o ponto inteiro,
o completo, imortal no íntimo.
teu parêntesis é o efêmero
acoplar que é nada, mero
gênesis que não fecunda.
o mar que, quando fores,
será tormentoso e alhures
e'm qu'a minha nau afunda.
és-me a raiz do desejo
sem flor. és o mármore
que enrijece, ao cortejo,
de dor. és-me a árvore
sem sombra, e a fruta
que me falta à boca.
és o segredo de muita
coisa, mas és tão pouca.
o silêncio entr'as folhas
tu corrompes; arrolhas
a noite, com'um vinho -
tudo em ti afasta longe,
e 'ranca a dor que finge
seres, tu, um só caminho.
sem flor. és o mármore
que enrijece, ao cortejo,
de dor. és-me a árvore
sem sombra, e a fruta
que me falta à boca.
és o segredo de muita
coisa, mas és tão pouca.
o silêncio entr'as folhas
tu corrompes; arrolhas
a noite, com'um vinho -
tudo em ti afasta longe,
e 'ranca a dor que finge
seres, tu, um só caminho.
sábado, 30 de janeiro de 2016
metes-te pela garganta
dessa casa; teu cheiro
pelo sofá e as quantas
marcas do corpo inteiro
por janeiro, estendida
sobre a minha cabeça
flutuas ao teto, aparecida,
sem que nos aconteça
uma graça passageira,
um pecado, uma ligeira
agonia. entras demais,
me atravessas, és frio
em'eio verão, a sutil
fome que insacia mais.
dessa casa; teu cheiro
pelo sofá e as quantas
marcas do corpo inteiro
por janeiro, estendida
sobre a minha cabeça
flutuas ao teto, aparecida,
sem que nos aconteça
uma graça passageira,
um pecado, uma ligeira
agonia. entras demais,
me atravessas, és frio
em'eio verão, a sutil
fome que insacia mais.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
piso-te com a sensibilidade
dos embriagados, o chão
mais fundo que a realidade
dos olhos, os pés 'inda não
preparados para o impacto;
dispara-me peito, o engano
da tua lonjura. é teu intacto
que me causa todo o dano.
se acerto-te, nada me falta
finco-me fundo, o pé exalta
tua presença, não m'esmago;
mas és chão tão, tão raro...
só há inébrio, nunca é claro:
todo passo é um passo vago
dos embriagados, o chão
mais fundo que a realidade
dos olhos, os pés 'inda não
preparados para o impacto;
dispara-me peito, o engano
da tua lonjura. é teu intacto
que me causa todo o dano.
se acerto-te, nada me falta
finco-me fundo, o pé exalta
tua presença, não m'esmago;
mas és chão tão, tão raro...
só há inébrio, nunca é claro:
todo passo é um passo vago
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