quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

retrato de um casal se beijando em uma banheira, mulher dentro e homem fora, apaixonados e absolutamente (sério) nada trágico

a deriva de dois barcos
sabiand'o assobio dos sabiás
feitos sem portos ou faróis
mas juntos de ladoalado
águ'à ondular adocicado
horizontando à girassóis

caíam juntos celestiais
sem o querer-se sasonais
pela banheira tod'inteira
penduradas lendas emrendas
nas saias de enfim cansadas
de giros dançar sem sujeira

e bocas d'em gelo e água
acertam vilanias de paisagem
submarina'mãos de borbulhos
oceanam tod'os navegantes
chamas queimam cortantes
e calam a poesia imprecisa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sai, menino
que eu não quero mais ver
seu sorriso pequenino
me impedindo de chorar

larga essa rosa, menino
a roseira é mais que flor
e tá em todo destino
se aversar por esse olor

menino, para de correr
essas voltas ao meu redor
assim fica fácil esquecer
como dói essa minha dor

ah, menino, quando eu
não te encontrar mais
vou ser feliz no meu
jeito de adulto
não vou querer sorvete
nem vou querer palacete
de soldados de chumbo
não vou acordar cedo
nem morrer de medo
do bicho papão
não vou ter cor favorita
nem ter laço de fita
nos meus presentes
não vou chamar mãe pai avó
vou chamar uma pessoa só
que eu não quero esquecer
e vou chorar só com custo
esse choro robusto
que não sabe verter.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

esse calor
essa cerveja
esse amor
que ela deseja

ah, minha flor
essa felicidade
um dia ainda vai
encher saudade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

essa nossa fotografia
não me lembra daquele dia
nem dessa alegria
que a lente forçava, arredia
quando nos decidimos sorrir.

me lembra dos meus óculos
sujos; de fazer minúsculos
gastos, carinhos maiúsculos
multiplicando nos cálculos
todos os beijos roubados;

me lembra do frio, do calor
de cenas obcenas do amor
que eu não sei mais viver;

me lembra sensatez sem sal
um dia e outro sempre igual
a aventura trivial no litoral
daquele, na praia, temporal
que estragou meu livro favorito;

lembra o feijão que não comi,
vodka misturada que não bebi,
dor que não senti (nem gemi),
declaração que eu não recebi
porque disse que Não (por ti?);

me lembra quando aconteceu
e dormi como se fosse Orfeu
nos braços de Eurídice;

e lembra quando eu te disse
que o amor eu não entendia
mas, meu deus, como eu sentia!

domingo, 26 de dezembro de 2010

soneto da lembrança de uma tarde de mentira

ai esses mares de azuis verdes
reflexo procuro-te nas rosas
da mangueira em que perdes
a sã imaturidade das coisas

ai teu cantar junto ao Cartola
sorvendo os sempre estalos
que tumultuam som da vitrola
embolando música em novelos

ai a lã que rolava pela sala,
tu e eu bebendo coca-cola,
e sendo-nos tricotados juntos!

ai teu riso de água escura,
o doce da tua boca que jura,
fazendo mentira nossos assuntos!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

aqui o desenho do teu corpo
foi feito na luz
a lua fez ampla tua forma
ondulada e azul
e o sol queimou meus olhos
por onde não te vi

toma, da boca vil que te atormenta
a mesma tempesta'de voz sangrenta
o mesmo medo que era a escuridão!

no contorno da tua linha
e peito exposto
uma chuva quente em
meio agosto
mostrou a mesma graça
nas águas

quand'os olhos que amam estranham
a beleza castanha dessa sorte
dúvida dessossega, anjos cantam
o prenúncio certo dessa morte!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

não me certifico de dúvidas
mas eu vou-te no vamo-nos
das mãos (nossas quentes) dadas
que voz vossa faz bossa e enganos
morrerem de fome.

(o amor é como a fome melhorando a comida)

hoje:
tudo que não morre
queima
vou é morrer de ridículo
e queimar de amor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

(haikus fingindo poesia)

uma música
desconcertada
pela estrada
tira ritmo
da tua voz
após

(-na infância
uma concha
cantava o mar,
hoje sei que
é sangue
porque o mar
sou eu)

as folhas secas
sentem sono
no outono
mas no verão
sente sono
o coração

(-tuas unhas
tem carne
por debaixo,
em que meu mar
desemboca
por fluir)

e quando fogo
bateu porta
na casa torta
do nosso amor
o inverno
parecia eterno

(-o sal das
minhas águas
secam tua terra,
cativa peito
e julgamento
de solidão)

a primavera fez
grama amarela
pela janela
e num relance
nosso romance
fez céu azul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

tua beleza saturnina
imiscuída na retina
minha, bêbada
uma taça vazia
numa terça de dia

no aeroporto
levo meu morto
peito sóbrio
(coração não é bagagem
que se leva para viagem)

demos abraço
e um beijo laço
por gente olhando
lembra dele?
foi o último.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

soneto da pressa

o vento retalhou mar calmo
em onda lambida de som oceano
e a cólera que fez esse ano
coube encentrada num palmo

virou cansaço, o era escárnio
profundo como o sono da puta
embebedada dessa vida enxuta
chorando o choro do canário

e a dor que era pensamento
no centro de um labirinto
ganhou asas

voou pelas paredes, além gaiola
improvável pelo céu, pela pistola
e pelas casas

sábado, 11 de dezembro de 2010

você não devia ter abandonado
seu sorriso recém-acordado
nas minhas dobras de lençol

no frio, me põe saudade
quando encontro a felicidade
dos nossos dias sem sol

e no calor do seu sorriso
o meu riso mostra preciso
a sua presença vazia

e na cama ensaio desmaio
pra ver como eu me saio
fingindo essa tal alegria

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

esse refúgio é tenda
que tecida de versos.
com um deus no meio
talhado de versos.

e quando rompe linha
como vertigem num
semparapeito, aproxima
a queda toda. um
nó salva, mas, todo verso
entramado, arrisca
o próximo ao chãobatido
quando se arisca.

fogem, sutilmente
(não sei porquê)
para que os busque
pela mão, e dê
-lhes um novo lugar
no firmamento
conspirado de seus
rumores tortos.

quero matá-los.

mas não posso,
pós-tão-difícil-
esse (me) parto.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quieto & negro

entendo no silêncio
tanta coisa a mais
do que me poderiam dizer
aquele dia, aquela gota
de vinho na tua boca

(quase rompiam com a luz)

e como no teu jeito
de mexer no meu cabelo
vi nascer nossos lábios colados
brotando flor, arfando
degolando noite adentro
a madrugada em nossos sussurros

nos arrastamos pelo gosto
até pingar treva pelo céu
e escorrer em nosso sono
mal dormido, nossa manhã
vomitada, nosso futuro
esquecido.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

onde o proposto?
o fio da tarde
que me leva exposto
sempre me arde
e
teus pés nus
de caminhos
dançam escuros
sobre espinhos
e
me olham dentro
movendo montanha
sujos do outro
sangue e tamanha
da
vida, teus olhos
de vidro refletem
tantos agulhos
que quase se partem
mas
partimos os dois
quando a pálpebra
apaga os corações
em fundo de sombra

domingo, 21 de novembro de 2010

(ah, como não tinha percebido que pasárgada fala um tanto de morte? e manuel, de fé e de amor desiludido... tão claro, que o se matar parecia um despiste; era o próprio encerramento? morrer pela outra não tida [falo mais do uso lindo do tenho e quero, presente, possessivo, afirmativo?]? isso era um título, não uma análise.)

o cavalo, a força pelo torso
e o som seco do disparo
como o sangue num pedaço
de silêncio;

da viagem uma promessa
de retorno ao paraíso
a prostituta nem começa
a namorar, o prejeuízo
dos banhos n'água do rio
que corre um alvoroço,
não canto nem um assovio
se a vida foi o esforço;

e se do rei que veio a bala?
do meu amigo, eu traído?
quis me matar (por amá-la?)
de solidão!

podia tudo, naquela hora
sozinho, inventar ela,
comer maçã, comer amora,
navegar outra caravela;
guardav'a voz em urna grega
para não dizer do amor
nenhuma superfície vaga
ou mentira indolor;

agora, apenas à vida digo nada
no arrefecer dos meus bocejos,
só sabe a noite, nova amada,
dos meus beijos!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

maria não sabe ficar quieta

maria, em sua só forma
de menina, despindo
a mulher como máscara,
sentido lágrima surgindo,
e no brilho-silêncio dela,
olhou para o céu tinindo
e perguntou par'as estrelas
como ela podia, sorrindo,
também virar o rosto para o mundo?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

preciso de um título, mas tenho apenas um porquê

eu sabia forjar seu corpo em
todas as coisas sólidas e líquidas
com minhas mãos e minhas vontades,

porque a nudez dos beijos dos
seus olhos me ensinou
a caminhar sobre as águas.

sábado, 13 de novembro de 2010

café da manhã

as infâmias que te descem montanhas
seguem o fluente da cristalina nascente
dos segredos, nos teus lábios quedos,
e caem sutilmente, na calma crescente
dos lírios, teus olhos envoltos em cílios,
no estranho da tecelagem de um sonho,
feitos de dedo de'vaneios, rugas, medo
e um espinho, nascido só um pouquinho
mas afiado, como teu jeito insaciado
nos lençóis, transformando os girassóis
do sonho em fogo: pesadelo, o estrago
fisgando a voz, embotada de arrebóis,
que desperta, e bem no íntimo acerta
a incerteza, os teus olhos sobre a mesa
sobre os cafés, teu amor sob meus pés
e finaliza, como nosso mel que cristaliza.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ele, num triste ímpeto,
levantou-se das alturas
no seco das passadas
sempre lentas, inseguras

sem dar ou ter adeus
nos lábios secos trêmulos,
sem ver a forma tímida
nas cobertas; os pêndulos

dos relógios cantando
o tempo deles passado:
ela gemendo bêbada,
ele dormindo cansado

e tudo mais era música
na voz dela, frígida,
trocando versos líquidos
na superfície límpida

dos mares azuis vítreos
que, a luz, dilacera
para surgir refletida
no rosto que amanhecera

fechado, uma pintura
dos neons cáusticos,
cor do ontem apático
pelos corpos orgásticos;

como ela gozara aberta
a boca, olhos fechados
o corpo entregue, diáfano,
entre cobertas, os rápidos

movimentos deles, ávidos
de vírgulas e dois pontos
estendendo o embarasso
por uns amores infinitos

e os dois revoaram súbitos
num tropeço estranho
o corpo dela transformado
num frio suave de estanho

cobriram bocas em beijos
e quietos fizeram silêncio
ela queria o fantástico
ele sonhava outro vício.

ela dormia, única,
o sono dele, trágico,
escorria como lágrima
sobre rosto tísico.

e ela tinha muito bebido
das águas dele, venenosas,
e ele encerrava, atípico
as batidas do coração, revoltosas

ele, num triste ímpeto,
levantou-se das alturas
no seco das passadas
sempre lentas, inseguras.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

as asas brancas dos teus beijos
que me trouxeram-nos contra
a tempestade do vento, seixos
entre as águas, uma afronta

o silêncio dedicad'a minha boca,
sem licença, nem permanência
deu ao verso a liberdade pouca
das cobertas e da descência

a revoada deles em'uitos pousos
cegou meu corpo nas penas escuras,
lambeu minha carne; em alvoroço
espalhou ao chão minhas abotuaduras

e o vento e a chuva espalharam-nos
e beijaram, aladados, as cortinas
cobertas brinquedos cartas livros
com as mesmas vontades assassinas.

descansaram, ao fim, 'inda úmidos
e cansaram de mim tão entregue
sopraram-se pela janela, fúlgidos
e nas ruas vejo o gosto que segue.