sexta-feira, 7 de março de 2025

este cheiro doce é
uma fruta que apodrece -

a primavera distribui pequenos
beijos sem abrir a boca -

à uma música não importa
a voz que a cante -

uma flor qualquer só renasce
para que dance.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

minha vida como um grande matemático

conto as moedas (metal
subitamente arcaico) guardadas
na caixinha de plástico
em seus incrementos de cem --

sinto saudades do tempo
em que decidíamos nosso destino
com uma moeda de vinte
e cinco centavos --
este era o valor de qualquer um dos dois
caminhos que se abriam
para o nosso futuro;

na frente do espelho
estão dois olhos, mas sei que estes
não são os olhos que enxergam
e são, portanto, quatro olhos;
quatro olhos e dois homens -
e dois mundos -
e no reflexo de um reflexo
quatro mundos, e em cada espelho
o reflexo dos outros espelhos
e em cada espelho, o infinito --

quando estou sem sono,
caminho dentro do espelho contando
os mundos felizes
e os mundos trágicos;

quando estou sem sono,
conto as letras do seu nome
para adormecer.

o truque do espelho é que se
com os olhos reais vejo a coroa
no reflexo mostro, à mim mesmo, a cara --
por isto eu e meu outro sempre
nos afastamos do reflexo
na direção contrária.

conto com a sorte
para que me encontres também
do outro lado,
além dessa janela em que outra vida
se deixa relancear --

é por isso que sorrio sempre
que nos refletimos
lado a lado,
não é porque existe, como eu sonho,
duas de ti; não é porque quando nos beijamos
são infinitos lábios pousando-se
(em infinitos universos) como pequenos pássaros
macios;
mas porque mesmo na direção
oposta,
tu estavas lá.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

o trovão de uma porta fechada
à força -
todo homem é uma tempestade
ou pode sê-lo -
às condições corretas de umidade
e pressão precipitamos como uma
chuva fúnebre;
é possível ouvir o silêncio entre os nossos
soluços
ondulando como a água dourada
na face de uma poça
(saltamos como uma criança:
com os dois pés inteiros)
no horizonte púrpura
as estrelas caem como balas de prata;
a beleza também nos perfura
ao trocar a carne faminta por essa pele sutil,
de papel;
fustigado pela imortalidade
por trás de cada segundo
(cada partícula de tempo é única
e é feita de chumbo)
seguimos adiante, vamos tremendo,
mas vamos
porque contra a dor só há
um segredo, um único segredo
gritar:
        - Não aguento mais,
e aguentar.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

tentiva de sanar a dúvida de uma criança

 porque vai levando;
porque quem sabe, no além?
porque um tropeço,
uma queda, um buraco
porque hoje, amanhã,
não há urgência;
porque a página virada
é uma página dupla;
porque vai levando;
porque vai trazendo
sobre as costas;
porque por querer;
porque sete parágrafos
de eloquentes explicações,
trinta e sete mensagens,
dezessete apelos em forma de cartas ilegíveis,
quarenta e sete petições de princípio,
argumentos inconclusivos e inconclusíveis;
porque evidentemente;
porque há um dia após este
como houve ontem outro;
porque vai levando;
porque à espera da nova
coisa;
porque por quê?;
porque a resposta
nunca importa
como a pergunta
que a produziu.

domingo, 8 de dezembro de 2024

todo ano constrói
um dezembro

último mês para que
caia o resto da chuva prevista
e faça os últimos graus de frio

último mês para
ler os livros prometidos
e cumprir as metas primeiras

o mês dividido
entre urgência do prazos finais
e a nostalgia de um passado recente

(nos dedos das mão
contam-se as vitórias inquestionáveis,
nas mãos e nos pés,
os dias perdidos ou desperdiçados)

dezembro é um
suspiro
dezembro é um começar
tarde demais.

todo ano constrói
um dezembro
mas todo dezembro constrói
uma primavera.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

pequena fábula de amor real

 cai este imenso temporal

(as roupas todas
quarando à chuva fina,
pois é claro)

uma fina névoa
que nos separa do resto
do mundo

(há os que estão secos
e nós,
que somos úmidos)

com um impermeável
saio à tormenta
enfrentando a saraivada do céu
em ataque

o vento arranca
as roupas das minhas mãos,
arranca-as do varal

(atira-as para o céu
como se fossem fogos azuisvermelhos
de algodão)

eu, impotentemente,
um cão molhado,
abano-te minhas mãos:
- agora a opção que nos resta, amor,
é vivermos nus.

sábado, 9 de novembro de 2024

 na tua pele escreve-se
o langor da tua pele
- a noite escura adormecida
com a cabeça no teu peito -

teus lábios partidos,
dois mares de sangue, que
marulham - a sinfonia solitária
do teu hálito azedo -

não há em toda criação
criatura mais imperturbável
que o ressoar do teu silêncio
- nem o tambor no meu coração
pode arranhá-lo entre os lençóis -

existem imagens igualmente
perfeitas na fumaça de um cigarro
mas duram um só instante, não mais,
enquanto tu não.

tu duras
uma noite inteira.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

eu te aviso
para não acreditar
no poema

para não acreditar
no feriado
ou no poema

para não acreditar
no precipício da segunda-feira
nem nas cinzas de
um terceiro cigarro

para não acreditar
num mundo fora deste bolso
ou nas previsões de sol,
nem nas de chuva
porque o tempo parou

eu te aviso
para não acreditar
no poema
ou no poeta
e para ficar no escuro
deste bolso
e para acreditar apenas
na ponta da minha língua
a única parte minha
que não sabe mentir.

domingo, 29 de setembro de 2024

depois do almoço

em outros tempos
eram muitas as vontades
(capturar um pássaro de fogo
feito uma palavra lançada ao ar,
metê-la no bolso, e retorná-la
ao silêncio, como se a apagasse
dos seus ouvidos; submergir no mar
como se fosse o teu perfume,
singrar o teu cheiro denso como se
fosse o sal, e eu um navio zarpando
das espáduas do teu continente
selvagem; flutuar na fumaça cinza
desse cigarro nos teus lábios cor
de sono, subir aos céus até alcançar
a estrela mais viva, enfiá-la na boca
como se fosse um diamante das
tumbas de açúcar de um rei morto;
caminhar um ano inteiro sem repetir
uma única rua, desenhar com os pés
um labirinto sem paredes, abrir o
mundo inteiro como uma laranja,
revelar as teias brancas sob as entranhas
vermelhas; e seguir em frente, sempre
em frente, mesmo que para isso avance
de pés nus, que caminhe sobre as águas, e
precise amarrar minha rede nos ganchos
das nuvens, e a ambição me consuma
até que eu vire apenas o pó da estrada...)
mas as vontades passam como os anos
até sobrar apenas uma:
sentir a euforia desta folha verde
quando (em eterno repouso)
lhe beija o sol.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

bem, a forma
só se revela no fim
e após um começo -
não é possível dizer
nada entre nós dois
sem que isso acabe
quer dizer, o sentido
disso, o conteúdo
do amor, este gesto
diário, este beijo
na testa, aquele beijo
nos lábios secos,
frios também (é inverno,
é demasiadamente
inverno), ou no calor
que me roubas sob
a coberta, são hoje conteúdo
do amor, mas serão
sentido? não há como
saber, como não
sabemos quando
tropeçará o pássaro
no meio do vôo e
descerá de cabeça
sobre uma margarida,
quer dizer, o curioso
caminho das coisas,
de todas as coisas, o
mundo inteiro segue
adiante aos tropeços,
mas sem cair, o presente
é um bêbado sem
rumo, mas um bêbado
feliz, um bêbado que
canta, amar também
é um horrível dueto,
e o melhor amor é esperança
de uma rapsódia
sem fim.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

o passado guardamos
na geladeira
como comida velha,

um pote de plástico
com as palavras
que não aguentamos mais comer.

o passado fazemos
questão que azede lentamente
como o leite.

sentimentalmente, fingimos
que se o requentarmos voltará
a ser o agora,

o momento quente e vivo
e saído do fogo
que não passará outra vez.

o passado guardamos
com a esperança
de que dessa vez não mofe.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

o dia de trabalho é
um leão adormecido com a barriga para cima
o amor é uma mão
que se rende à essa armadilha
porque, afinal, apesar do tamanho,
trata-se de um gato

o amor é, afinal, uma história
de sangue,
uma ameaça de desmembramento
dois corações costurados
em um único peito aberto
que se obrigam a bater

domingo, 19 de maio de 2024

falamos apenas uma espécie de poesia
sem nada a dizer
palavras que se encaixam como
brinquedos de criança
ocos por dentro
versos que voam de uma língua à outra
como aviões de papel
por um céu de fogo
(é a única explicação para a eventual
cinza em nossa boca)
vírgulas que, como ensinam as professoras primárias,
são uma pausa, são o silêncio
indeciso
o silêncio se vai ou não vai
mas sempre o nascimento
de uma nova estrofe
sobre
o tempo a chuva as tragédias nos jornais
as preocupações passageiras
as decisões drásticas de um destino
uma poesia sem nada
a dizer
pontuada pelo segredo
de tudo que evitamos dizer.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

domingo, 21 de janeiro de 2024

o tambor
faz a chuva
subir;

na minha pele
a chuva
ferve;

nos teus ombros
a chuva
dança;

a chuva não para o carnaval.

pelo contrário,
a chuva
samba.

sábado, 2 de dezembro de 2023

                                                               fernandinho

há o que há
e o que não há
e o que houve
que é os dois
em tempos diferentes.

tu estás num balcão de bar.

eu estou cercado de flores
estou em um cerco de luzes
eu estou no precipício dos meus trinta e cinco anos
meus trinta e cinco anos
estão no umbigo da eternidade
que está no precipício do esquecimento.

tu e teus cachos
conversam com outro homem
logo na minha frente!
eu! que ainda lembro como beijas...

como virão as noites de verão,
como darei de comer aos mosquitos,
como tu disseste uma vez
que não queria entender
como funcionava a poesia
para que ela mantivesse seu mistério
(eu quis te contar,
só para te mostrar que por trás do segredo
há outro segredo,
afinal a poesia
é uma arte de versos)

escrevo esse poema,
me é claro,
porque nunca escrevi um poema para ti
e toda mulher que me estendeu a mão
merece seu poema.

mas não sou boa pessoa.
escrevo sem nunca enviá-los.
deixo que eles sejam uma aliança
entre eu
e o esquecimento.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

é preciso
dizer sim e
é preciso ceder

é preciso
abrir a boca
e receber a água
da sua boca
e é preciso bebê-la

é preciso
conhecer e amar
esta água
e é preciso bebê-la
seis taças por dia

eu preciso
uma vez por semana
que operes o milagre
do vinho
e em minha boca
derrames a anti-água
de tua boca roxa

é preciso
colher a chuva
como uma máscara líquida
e amar o céu nublado
é preciso
abrir-se; contar as mentiras certas;
neologisar; fingir-se o criador
original do amor; baixar
a cabeça; sacrificar o orgulho
num altar de ossos; contar
com a língua os dentes na boca;
contar com a boca os olhos
na face; perfurar o céu
como uma lança; aprender a língua
dos anjos; não usá-la para nada;
suspender o juízo; colher os dias
como ervas daninhas;
explicar-se; compreender
o incompreensível; não dançar
nunca; ver formas inventadas
nas nuvens; acompanhar o tremor
das pálpebras sonhadoras;
perder o medo da auto-estrada;
usar os dedos como pentes; cair
em graças; não romper o olhar
do sol;
ou apenas beber a água
e o vinho,
por favor.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

para chegar ao outro lado
disto
construo um pequeno barco
de madeira de eucalipto
trançado com fios de cabelo
que recolho da cama.

faço-o nadar com as mãos
a água é leve, a maré é menos
não sobraram monstros
no mar.

no horizonte do outro lado
vejo que não há nada para mim.
então estou livre.
este barco é minha ilha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

a boca fria do inverno
comeu meus lábios
durante o sono
mordendo-o pelas bordas
como fazes
quando eu chego

terça-feira, 1 de agosto de 2023

1.
a noite é dócil
sento nesse ninho de algodão
tu te empoleiras em mim
e me alimentas
(feito passarinha)
com os gemidos que vertes
entre nossas bocas
grudadas

2.
pela janela,a lua uma lagoa branca
no teu umbigo, eu uma poça branca

3.
o amor pode ser difícil
mas com os dedos enfiados
contra os teus músculos
possuídos
tua água correndo pelas minhas mãos
junto à minha saliva
eu sussurro no teu começo de tudo
e me respondes
que não pare não pare
que sempre te fale mais

o amor pode ser difícil
mas fazê-lo não é.

domingo, 18 de junho de 2023

deus criou o gato
para anunciar o inverno.

mas nós,
pessoas sem fé

o inverno nos surpreendeu
é quase nosso fim.
não fosse,
no desespero da noite,
a criaturinha bivalve
do nosso abraço

criação humana,
mas inegavelmente
divina.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

mato, no teu dorso,
um mosquito que se alimenta
do que é meu

uma gota de sangue explode
mancha tua pele branca

em silêncio
(é noite, precisamos nos calar
mesmo a morte dele é muda
sua alma parte sem zumbir)

molho meu dedo
apago o vermelho da tua pele
e sem encostar em ti outra vez
fecho meus olhos
para assistir ao sonho em que te cozinho
inteira
com nada além
de um fiozinho de azeite.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

assim como
a fruta na árvore
o vermelho na fruta
o verde na folha
o pulo no gato
a bala no cano
a chuva na nuvem
e a língua na boca,
estou por um triz

terça-feira, 8 de novembro de 2022

diário de sonhos oito de novembro, 22

hoje sonhei que minha vó se perdia no shopping
e meu avô me pedia para procurá-la
minha vó, com alzheimer, desaparecida no shopping
meu avô, quando faleceu, era um homem grande
e eu era um menino pequeno, mas hoje não
hoje eu tenho a altura e o peso que talvez ele tinha
e ele passava seus braços pelos meus ombros
e eu os meus pela sua cintura
"não me deixa cair" ele me dizia
e eu puxava-o para cima, e o segurava inteiro
com segurança, tinha força para segurá-lo
era fácil, era meu avô
e ele me via homem pela primeira vez
e era óbvio para ele que eu era um homem
procurávamos a minha vó, a mulher dele,
e também a minha, ela também foi minha mãe
preocupados porque a doença dela fazia ela se perder
e quando desistíamos (ele precisava descansar)
eu sentava ele num sofá, e ele parecia muito cansado
mas muito vivo
e eu pensei "é a minha chance de tomar uma cerveja com ele"
eu nunca tomei uma cerveja com o meu avô
porque eu ainda era um menino
eu tomei o colarinho das cervejas que ele me pedia para ir buscar
atravessando a rua para ir à venda
segurando a garrafa pelo gargalo, como ele ensinou
eu era ainda mais menino nessa época, cinco ou seis anos
e ele nos dava de beber, aos netos, um gosto do colarinho
(minha mãe se apavorou quando descobriu
mas a morte já havia prescrito o crime)
mas não tivemos tempo, nós dois
minha vó apareceu, foi encontrada
e trouxeram ela até nós
e meu avô ficou tão feliz que levantou
sem cansaço e sem doença
e pegou as mãos dela nas suas
e dançou
e da expressão distante e ausente da doença
o rosto da minha vó se iluminou e gargalhou
e meu avô também sorria muito, reunido à ela
eles que passaram tanto tempo longe um do outro
e foram tão felizes
que eu acordei, para que tivessem privacidade.



domingo, 9 de outubro de 2022

já é tarde
já estamos cansados

tenho vidro na boca
lâmina na língua

teu rosto é opaco

me comove
como te corto;
como tiro de ti
sangue azul.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

criança, num caminho de areia
a uma praia secreta
(a praia que se esconde
detrás das árvores
é uma praia que faz segredo
que disfarça sua voz de mar)
que se abre horizontal
(para que em seus braços
caibam a água grossa do mar,
seus segredos sussurrados)
após a finura vertical
do caminho
a geometria do vento
na areia fina
(como uma ampulheta
que também é um livro)
escreve meu destino
com a letra concreta do tempo
e enquanto eu lavo o meu
peito, virgem de amor,
ele já é o leito do nome teu
para sonhares com a boca de porcelana
os dentes na pia
com a garça de vidro
com o teu poeta
que criança, mergulhando
no mar secreto
da praia secreta,
não leu na areia
os versos que escreveria
e agora tem que os descobrir
(letra à letra)
pelo teu corpo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

na cômoda:
uma folha seca
de bergamota;
a cascapele seca
da bergamota;
as sementes sugadas
da bergamota;
dois copos de água.

na sua cama:
os lençóis secos
do seu suor;
a sua pele seca
do meu suor;
os lábios que sugaram
todo o suor
e a água dos copos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

a chuva fecha o céu
e não há mais desenhos para ver nas nuvens
a chuva desenha no asfalto
com a água e a chuva
desenha na face do mar
com a água na água
desenha os heróis gregos
e os afoga desenha o
marinheiro e o afoga
desenha duas sereias
e as afoga desenha a
ribanceira e a afoga
desenha um deserto
e o afoga desenha a
cor amarela e a afoga
desenha os dias de luta
e os afoga desenha a
morte da baleia e a afoga
desenha o afogado e
o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga desenha
o nascer do dia e o afoga
desenha o nascer do dia
e o afoga desenha o nascer
do dia e o afoga o afoga
até o mar cuspir o sol e
boiar no horizonte e flutuar
no céu e desenhar nas nuvens
com a luz do dia os heróis
gregos e os marinheiros e
as sereias e a ribanceira e a
cor amarela e o nascimento
da baleia e os dias de
perna para o ar os dias
de cabeça na cama os dias
de breve eternidade

segunda-feira, 6 de junho de 2022

essa uma alma que é maré
baixa desce a areia se areia
sobe aos joelhos cobre pele

essa uma alma enterrada
a cabeça para fora a maré
baixa respira olha céu mar
alta olha borbulhas a morte

essa uma alma que é maré
desce respira vê horizonte
uma vida com um horizonte
sobe a escuridão o poço
pé de pé o fundo do poço

essa alma maré como mar
o mar não come
não mata
molha lambe flutua
espuma
não é o poço não afoga
é onde singra
o barco do corpo intacto
bêbado da alma

domingo, 5 de junho de 2022

no peito ele a chama do fogo
o que o consome diz seu nome,
"o fogo", que crepita a carne
como quem pede um favor
permita-lhe arder como quieto
quase em segredo, é preciso
queimar com elegância:

a cabeça pensa o rosto vazio
bolsos na mão mãos em punhos
de lado assim caído à parede
um quem que não quer nada
fios fumegando da fina farsa
feito um feito incêndio de fato.

sobe o corpo ao céu em cinzas
aberto ele sorri às suas brasas
igual estrelas mas de combustível
os poemas os versos não escritos
fogo pálido fogo de pouco calor
assim em constelação na noite
é um nada, mas está à pago.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

(para dona néia)


o luto revela segredos
sobre as palavras.
as palavras não usam
camisas de linho,
não têm redemoinhos
no cabelo (como o do
meu pai) [como o meu]
as palavras não fazem
batata-frita para os netos
não passam pelo canteiro
de rosas para dar tchau
com as mãos enrugadas,
as mãos que bordam,
que fritam batatas,
que apontam o lugar na mesa
que é o lugar que ela decidiu
em que cada um se sentaria
para articular a harmonia
do almoço.

o que as palavras fazem
é mostrar onde está a dor
é achar na gente um novo
lugar onde podemos sentir
uma coisa nova.
elas cavam a dor, cada
vez mais funda
"ela descansou"
"se foi", "faleceu"
"morreu"
palavras usadas para tatear
pouco a pouco
a dor real, além da conta
delas, dessas letras
assim enfileiradas
que podem ser as mais lindas
as melhores palavras
(como "vó")
mas que não dão conta de que nessas horas
o amor
que está lá
que sempre esteve
parece estar indo numa única direção
e não sentir ele voltar
enche a gente de vontade
de ir junto com ele.

terça-feira, 10 de maio de 2022

eu-maré
dorso do mar
flutuo
berço do mar
mergulho
beiço do mar
durmo
beira do mar
aço
dentro do mar
águo

quarta-feira, 4 de maio de 2022

vieste primeiro do visco uterino
de onde te gerastes cu à fora.
primazia a merda, qu'à boca flora
teu cancro interior de intestino.

ao avesso, já vens mais bela
secreta os olhos negros de comida;
a face rubra - vermelha - remida -
descansa no fervor dessa panela.

nosso este amor, a brasa fumegante,
escalda menos qu'essa paixão ante
às cinzas do que não era imortal.

n'água em vapor, desfaz-te ao nu:
lenta e liquefeita - boia o teu cu -
me embebo-te tua sopa primordial.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

aos secos olhos revela-se a mudança
desse nada de horizonte inacabado,
nos monstros do céu já precipitado
um casto temporal d'água que avança.

o corpo umedecendo, primeir'os olhos,
à baixoventre co'a chama azul do fogo
fátuo: lambe-me os pelos, num afago,
que, da garganta, liberta-me os arrolhos.

à terra encurva o fio d'onde se prende
a volúpia de algodão que me ascende.
deitando em minha língua a tenra uva

desafia-me com os dentes à ação bruta:
ao violar-te a carne fresca da tua fruta,
me ajunto-te minhas águas à da chuva.

domingo, 1 de maio de 2022

me lembro de ti
e me traio.
abro mão de tudo o que
tenho de bonito
de vaidade, as duas ou três
coisas que, no espelho,
não me dão asco.
soo como adolescente
do pior tipo, do tipo
romântico, do tipo
que encerrei em beijos
frios no ônibus para o
shopping, em mensagens
que se anunciavam na
interferência dos auto-
falantes, em poemas de
amor que não eram nem
bons poemas, nem de
amor -- como este aqui
também não é.

mas: eu me lembro, e
o poeta tem que sair de
cena, e sai pedindo
licença, em disparada
deixa-me, diz que eu não
assine, é melhor eu não assinar!
não sou eu, é o que ele diz,
e não é, não quando eu
me lembro
de te olhar, do teu rosto
tu minha, dizendo que era
minha, tu dando a entender
(nunca falando -- também não
tinhas o poeta em ti nessas
horas) que eu era, então,
o amor da tua vida
e eu me lembro disso, e
hoje tudo que eu penso é
se era esse todo o amor
que tu tinha pra dar, se era
esse o paroxismo da tua paixão
se isso era o máximo,
o que definia tua vida de amor --
talvez tenham te faltado os beijos
frios no ônibus;
talvez tenham me sobrado
os poemas que não
eram de amor.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

é finados
devíamos rezar
pelos nossos mortos
como choramos
por eles, nos leitos
em que se encerraram.
em lugar disso,
deitamos no caixão
dessa cama, nos
braços sem carne,
cabeça sobre o peito
de um coração coagulado
que é nosso jeito, também,
de celebrar os mortos.

sábado, 30 de outubro de 2021

me ocorreu com pavor
'inda jovem, que a lembrança
enquanto chave
do presente, é desequilibrada.
a memória forma uma rede
de passado em que dormimos
os dois, embalados pelos nossos
gestos, que existem hoje como
carícias fantasmas que afagam
nossos cabelos - brisa de verão
dos tantos verões que dormimos
juntos, de janelas abertas -
mas os momentos que nos sustentam
não são os mesmos.
eu me lembro, mas talvez lembre
melhor de outras coisas.
tu te lembras, mas talvez nem imagines
do que lembro eu,
etc.
mesmo assim, estamos os dois
suspensos do chão
mandando mensagens pelo tempo
que chegam enviesadas
que são lidas aos fragmentos
que não tem mais contexto,
rasuradas, com os sentimentos
manchados no papel e que
mesmo assim, mantém os nossos
pés no ar.

domingo, 11 de abril de 2021

(à clementina)

sem nenhum direito
reivindico ser também
marinheiro só
(perdoem-me o desrespeito).

a solidão construí
saturnino, com o
meu jeito de
terceira margem.

marinheiro não fui
(sempre preferi o
interior d'água)
mas foi o balanço do mar
que m'ensinou a dançar
e acho, penso, sinto
que vale, apesar de
dançar como quem
me afogo.

sábado, 10 de abril de 2021

(à coca-cola)

que me permita
fernando pessoa
(o publicitário)
a correção
romântica:

primeiro estranha-se
depois entranha-se
depois estranha-se
depois extirpa-se

quarta-feira, 7 de abril de 2021

 não tenho saudades
mas me retornam lembranças
como evidências de que já
estive em outros lugares, com
outras pessoas. sou contra
"relembrar é viver", é um erro.
relembrar é ter vivido
a lembrança é o oposto da vida
elenca-se a vida nessas ações
de que um dia tomei parte, e não
são mais.
essas são as coisas que fiz
as coisas que fiz não são as coisas
que eu sou. as coisas que eu sou
não se relembram, se entranham
na carne, nas fibras do corpo
que reage, muitas vezes, antes
da lembrança saber. o nojo:
me faz mal essa pessoa, mas
não lembro porquê.
o corpo sabe

e diz: você não
é um refluxo
uma maciez no ventre
uma pontada na têmpora

"você não"

mas agora, aqui, assim,
dada a conjuntura, e o final
do mundo, dado o apagar
da fagulha de vida no universo,
os fins das matas, o holocausto
dos animais, dada a situação
econômica e também as taxas
de desemprego, de juros, a
inflação, o preço do quilo do
arroz, a fatura do cartão que
não vai virar nunca, o cheque
especial, o aluguel, e viver de
aluguel para sempre, dada a
situação política, e a oposição
também - é claro - e dada
a planificação da alma e a
completa perda de fé em tudo
na salvação, na vida, nas palavras
dado tudo isso, tudo isso pesado,
mesmo sem perdão (e não ache
que eu te perdôo [eu não te
perdôo {meu corpo diz: "você
não"}]) eu lembro de você
e por quinze minutos, não mais
que isso, você talvez, quando
fomos felizes, o que importa?
talvez, por só quinze minutos,
cronometrados, sem um segundo
a mais, quem sabe, por que não?,
você sim.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

paper love

teu corpo é muito leve
e se deixa levar pelo vácuo
das pessoas que te cruzam.
aqui vem uma, e lá te vais:
e o espaço que ocupavas
está vazio, não tem mais
nem a tua rasura.

sábado, 12 de dezembro de 2020

este poema não é
sobre, não é acerca,
da raiva que em mim
existe, a raiva interna
que me consome os
dias, uns mais do que
outros. não é sobre
sentí-la, nem sobre
ela explodir, não é
um poema de violência
como são outros, é
sobre apaziguá-la.
ali está a raiva me
fervendo as entranhas
e eu coloco essa música
do itamar assumpção
que me distrai com
esse verso que me faz
chorar às vezes, outras
só me arrepia, e a raiva
cala a boca, resignada.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

meu avô me ensinou
a botar o dedo na borda
do copo pra cerveja não
transbordar.
o professor de física ensinou
que o nome disso é tensão
superficial da água.
mas a cerveja para mesmo
é em respeito
ao meu avô.

sábado, 24 de outubro de 2020

Há um erro na semântica da dor:
dor não é algo que se sente
dor é algo que se torna.

Talvez, os antigos poetas, ao
compor a língua em verso
vissem na dor uma duração
que vinha ao fim, e não estão
de todo enganados: há dor
que passa.

Antes passar, porém, a dor
é substância do corpo, é
órgão que pulsa, tal o amor
(portanto rimam). Mas órgão
tem a decência de manter-se
num só lugar, encadeado aos
outros, mas cada qual em sua
função: o que expande um
órgão além do seu limite, e
fá-lo o foco do corpo (sou um
grande coração) é a dor (sou
um grande infarto). Ali está
ele, a ser velado pela dor que
o agoniza: essa dor sou eu.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

não há túmulo no exílio
somos como gatos perdidos
que não são tão perdidos
quanto foram embora
e vivem n'algum lugar
uma aventura, ou duas
aventuras, mas que um dia
talvez voltem.

no exílio estamos sozinhos
da porta pra cá, da porta
pra lá - somos informados -
o ar é feito de lava e vai
nos consumir os pulmões.
como 'inda não dominamos
uma apneia que dure
o tempo do abraço
que daremos, continuamos
pra dentro.

ao me exilar, fechei-me
além da chave. fechei-me
do desejo para não poder
nem desejar. olhei meus pés
muitas vezes, olhei minhas
mãos muitas vezes, olhei
meu umbigo no centro do
que engordo todo o dia
com tristeza. mas não posso
querer emagrecer, porque
já é um desejar, e o desejo
está perigoso.

daqui do exílio não se vê
muito. o horizonte está entre
os prédios e procurá-lo não
tem graça. acordo às 4 da
tarde e mal vejo o sol. vejo
em mim às vezes um saco de
bosta, noutras um saco de
vento, mas não vejo um
poeta, um leitor, um amante,
um romântico, um gozo,
nem vejo um confidente, um
guardião de segredos
e medos, ou um conspirador
de esperanças.

na madruga do exílio (a única
parte do dia que 'inda existe
com regularidade) é sempre
meia noite em ponto, o relógio
até corre pra frente, mas a
meia noite persiste e vai me
cavando olheiras, me invocando
punhetas, a ampulheta não
corre como areia mas como
ossos pulverizados, ela pisca
como um relógio não programado
que não acumula horas, as
desperdiça.

o exílio reivindica a distância
para si. a palavra certa parece
a menor distância possível,
a proximidade de um dedo
metido dentro da boca, um
nariz espremido contr'o rosto,
um beijo na testa, um mamilo
entre os dentes. uma mensagem
chega e tremo como se fosse
morrer, como se um corpo
viesse junto para eu não
estar sozinho.

no exílio sentimo-nos sujos, nos
lavamos como se fôssemos mais:
imundos. queremos tomar banho
de água benta, ou ser lambidos
por virgens, e passar as tardes
chupando sabonete, e as noites
sonhamos que a pessoa amada
mije no nosso rosto, e que escorra
pelos nossos pescoços e empoce
nossas clavículas.

a palavra exilada toma os
contornos da carne, ganha o
sentido da vida desesperada
que a envia, ela vem de outro
planeta - apesar de todas as
palavras virem d'outro planeta -
como um flecha do sistema
solar, como uma flecha do sol,
e sente-se o calor na cara, a
vitamina d se produzir enganada,
e da palavra a gente fala como
objeto material, como coisa,
porque não existem mais corpos,
não existem beijos, não existe
trepada, nem dormir entrelaçado.
a palavra é tudo, a ordem das
palavras vem fulminante, e'ntão
é quando cai a ficha de que
todo poeta sempre escreveu
sozinho, todo leitor sempre leu
sozinho.

o exílio promete acabar um dia
mas vemos marchar os generais
e ouvimos os tiros, perdemos o
contato com amigos que somem
na memória, e precisamos enfim
encarar que nos torturamos com
as promessas que fazemos no
crédito. a vida anterior nos
ocupava com estranhos, vinha
disfarçando a ausência de quem
amávamos diariamente. vemos
o mundo no éter, esperando
nosso retorno, mas fica claro
que não há ao que retornar.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

quando de uma hora passada
um relógio sem ponteiros
que assinala apenas com as engrenagens
caindo em movimento metalicamente
o passado dos minutos, ainda
com a teimosia de marcar o tempo
com o som, se não com os olhos
e eu, que evito o relógio, e por
isso não encaro os ponteiros
com a angústia de que eles me atravessem
sou atravessado por um outro tempo
que eu tento evitar

viro vítima de uma transubstanciação
do passado, a força interna que molda
o âmago de volta a uma forma que passou
com o tempo, que se perdeu a esmo
no futuro e da qual não sinto falta,
mas a quem tenho a responsabilidade de responder
pela esperança não concretizada
no homem que me tornei a seguir.

não tenho arrependimentos, mas tenho
que encarar, potencial morto, que não,
não era o gênio que agora vejo que nunca fui
e, muito mais do que isso, não fui também
senão um fracasso, que por muito tempo
esteve apenas no meu caminho.
quando de uma hora passada lembro ainda
a forma apaixonada por tudo que tanto
se protegeu do mundo, e que o mundo alcançou
sem maldade, mas também sem se importar
e digo-a: não escrevo mais, não há secretamente
um livro em mim, nem dois livros, nem uma carreira
literária, não há sequer mais o hábito de sentar
no escuro e escrever ouvindo música, e inclusive
não há mais as frases em mensagem aos amigos
que também não mantive.

peço desculpas por não
ter jogado fora o relógio
e impedi-lo, ao menos, de
me torturar dessa maneira
que é o último refúgio que
tenho, o último cuidado que
me guardo, porque todo
o resto me esvaziou de uma
maneira que, eu imagino,
nem a morte esvaziará.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

mancha-me os óculos, a tua pele,
quando de um beijo, e saio de ti
meio embaçado na vista, um'anti
clareza, oposta ao que compele

de volta ao teu rosto, e o gosto
por acordar noutro dia, já tarde,
com o segredo, na tez, exposto
de que, dentro, h'álgo que arde.

a segunda-feira, como atividade
burocrática, erguida tal a cidade
do tédio, é nossa prisão rotineira.

ela, soberba, dá início à semana
e imagina o gênese, mas s'engana
porque tu, e só tu, és a primeira.

terça-feira, 22 de maio de 2018

és, assim tão tímida, vontade
no peito: dentro. tão sufocada,
não te veem os pés de poeira
a agitar-se, a sola suad'a cada

dança. pareces fria, mas ardes
sopro-vulcão pelas entranhas,
(querência primeira) uma ligeira
tempestade. e quem te estranha

não vê, olhos de sangue, como
te escondes, num corpo quedo,
tão jogado à rede, e horizontal

mas lá estás, quieta, um pomo,
vermelho-pecado, um segredo
que brota, um dia, um carnaval

sexta-feira, 23 de junho de 2017

tento escrever-te, mas faz frio
e dói-me os dedos; falta-me a
força qu'arrefece no inverno, teu
calor ausente pela minha pele
esfomeia o tato que alimento co'
as mantas e os lençóis deixados
cheios do teu cheiro; nas veias
deles, a geometria do teu corpo
é aparecida, como a santa, e
enche-me os rins de vapor. sei
de ti pelas sombras projetadas
na minha rotina; sei-te o gosto
pelo café frio, a saudade dos
lábios manchados co'as borras
na xícara - vejo-te subir marés
na lua cheia, erguer a encosta
que segura o mar no lugar, os
sussurros que te escapam dão
voz às conchas, e teus cabelos
voam de lado à carangueijos -
mas apareces-me sem erro, e
mesmo a mais banal aparição
pela minha cama - as cicatrizes
mais claras, o sono murmurado -
é milagrosa, porque és minha
para ter com a boca e com as
pontas dos dedos frios que
não te escrevem.

terça-feira, 11 de abril de 2017

atravessa o passado, um
tipo de dor. faz-se pelas
memórias, virulenta, um
se-espalhar que de tudo
toma conta. perfura-se
pelo passado, como se
fogo, o consumo de fato
após fato, o sedimento
da história s'esfarelando;
está no aniversário de
sete anos (como gênese)
e no dia que ganho um
hamster, tão frágil e tão
bonito que dá vontade de
comer. não me lembro
d'algum dia não senti-la,
indo à escola ou piscina
comendo carne ou fruta,
dentro da latinha do meu
refrigerante favorito, num
dia quente (e o refrigerante
gelado); quando ponho as
mãos nos bolso: está lá
quando respiro no inverno
e sai o hálito em nuvem: lá
quando digo "um bom dia"
dói-me, e senti essa dor
tod'as vezes, por todos os
anos, como um fenda no
fundo do peito, que é de
onde agora acabou de sair
esse vulcão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

não serei calmo neste dia
que amanheço. sinto nas
entranhas a tormenta que
virará os barcos, a espuma
que tratá o pó das almas
às areias, e rebentará as
vozes perdidas às rochas
como se estas sangrassem.
hoje recuso-me, sou-me só
punhos pelas águas, e não
há quem me governe no
firmamento - subirei maré
aos céus e, dele, também
tomarei conta, mas serei
rei nunca, monarca nada;
meu sal será ferrugem das
máquinas, minhas ondas
túmulo de antig'amantes;
até sereias farão quietas
e, se algum desafiar-me
a fúria, só o mais bravio
almirante, ou pirata mais
rei, flutuará.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

se tu me pedisse para caminhar
sobre as águas, o que eu faria?
sabes como não sequer navego
o sono, e afundo-me no fundo
para voltar e contar-te os sonhos
sobr'as sereias, sobre o mar, os
teus beijos, e tudo o mais que
me afoga; será que iria? os pés
descalços, à beira praia, c'os
chinelos na mão, a calça pelos
joelhos - respiraria fundo o ar,
pra ver se fico leve, e maresia,
a ver se boio, e arriscaria um
passo primeiro, molhando-me
a sola, o pavor de não ver as
minhas marcas n'areia, as tatuíras
expostas de novo s'escondendo,
e ter que caminhar na direção
dos deuses, onde iria me sentar
co's outros monstros, eu e um
minotauro, quem sabe, cada um
com seu copo de cerveja, e a
luz divina que é nossa trágedia,
e que só me achou por culpa
tua.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

fica aqui, ar rarefeito,
tod'alegria que aceito
que me sufoque

a parede geométrica
o branco, ess'ascética
luz que invoque

uma fumaça-cigarro,
tosse seca, o escarro
d'um seu toque

aqui; exerço o sono
durmo e perc'o sono
sem um choque

de realidade, calma
sútil, toda sem alma
e sem porquê

terça-feira, 24 de maio de 2016

ainda que eu pudesse rendê-la
no reflexo de uma gota de chuva
que não explodisse no chão, e
jogasse sobre o cimento a imagem
dela em estilhaços; ainda que
a fragilidade dela não fosse, como
dizer?, tão frágil, e pelo chão ela
reinasse como um lençol de água
para embebedar a segunda-feira;
ainda que eu fosse imperador para
legislar os dias de chuva como dias
de casa, e atasse-a a este sofá,
que tão bem conhece a impressão
do corpo dela, e esparramássemos
úmidos como o orvalho destes móveis,
e pingássemos - a covardia na carne
aparecendo - uma preguiça mercurial
tão invencível que só podia ser divina;
ainda que o veneno da madrugada
tornasse o seu corpo espuma, e o riso
vapor, e a forma delicada, aparecida,
não permitisse mais o toque, mas só
um apalpar da atmosfera que contorna
a sua presença; ainda que só pudesse
beijar o que sublima pelos azulejos
após um banho quente, ou na tampa
duma panela cozendo minhas entranhas;
ainda que só pudesse me espraiar e
abrir um livro, de pernas cruzadas,
vendo ela dar a graça no suor de uma
cerveja, e ouvir a voz dela nas ondas
pelas praias vazias do inverno, eu, feliz,
aceitaria ser testemunha, e o prisioneiro,
do seu vai-e-vem

terça-feira, 17 de maio de 2016

continuo caindo em desgraça
continuo a ter no boca a casca
da pitomba explodida, vazia
da semente e da carne branca
translúcida que m'enche a boca
d'azedume e fiapo, raspando-a
nos dentes, até não ter sabor
e perder a fruta macia, que mora
perfeita, úmida (como teus olhos)
nesse envólucro amarelo e sujo
que um dia deu numa árvore
nordestina, pra chegar e'minha
boca e a acidez dela me comer
enquanto a como, e enquanto a
como, e enquanto a como, e en
quanto a como e penso em como
as pessoas viajarem as trouxeram
até mim e enquanto a como (e
enquanto a como) eu penso se
será eu que acabarei co'as pitombas,
ou as pitombas é que acabarão comigo

quarta-feira, 4 de maio de 2016

todas as coisas que se movem
o tempo inteiro: a grama que
revela a vida do vento, a água
oculta que navega as folhas secas -
embarcações furadas do nascer
d'outono - naufragando na boca
do inverno, c'o frio chegando
furioso nos pêlos dos gatos que
s'embraquecem, as patinhas sem
luvas que eles esquentam contr'as
nossas costas nuas fora das cobertas.
o sol empalidece, também o calor
tem os lábios rachados, e beija-nos
co' essa luz dourada que nos sufoca
sem misericórdia; não há canção
que nos aqueça, voz de pássaro
noturno, ou coração de jardim e flor
em que escondamos o que o verão
tinha feito pacífico, felicidade sem
pressa; tudo está às beiras de secar
sob o céu cinza, s'esconder entre
as nuvens se arrastando no horizonte
e desaparecer -- menos você, que
é parte delírio, e não se congela.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

há um único último desejo:
cair nos teus braços

e adiar todo sono,
porque não há pressa
por sonhos quando a
realidade é mais funda
de se sentir na carne
dos teus lábios

e querer, querendo tanto,
o teu silêncio, e um canto
de noite que se sustente
frágil com'uma linha ínfima
que quase s'arrebenta
e se evapora -- mas não.

e nós duramos, cada vez
mais concretos contra toda
construção, e toda rotina
e todo progresso e toda
repentina catástrofe que
o mundo nos cometa

e entranhamos quietos
nossas superfícies, suamos
e nos cobrimos do frio,
e encerramos o mundo

que não foi convidado

para cair nos teus braços

quarta-feira, 9 de março de 2016

essa é a tua natureza, assim restrita
no teu corpo, pequeno e branco,
que tu escondes de mim com tudo
que há de roupa, e com a distância
que me é a pena. é perpétua a tua
ausência, mas combina contigo e
com tua essência lacunar, que não se
preenche de nada, porque mudas
como a maré, em ondas constantes
de prazer que, aos poucos, consomem
teus desejos. apaixonas-te muito e
tudo que amas te muda da maneira
mais imperceptível, sussurras pela carne
que não és mais a mesma, numa língua
irreconhecível aos meus dedos, à boca
que te morde e aos ouvidos que escutam,
porque és própria, própria ao ponto
de ser oceânica e não poder ser contida
por nenhuma linguagem particular além
dos teus versos privados, que movem
os pés a palmilhar as encostas d'uma
existência de vidro e fogo, obscura
por trás de olhos doces e reflexivos,
mas não és doce, apesar de saber sê-lo
pelos lábios, és água e fogo, e amas demais.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

este arrepio n'espinha
ao teu desassossego,
teu pé que desaninha
o dia, e o desapego

da noite; és selvagem
com'a tarde de domingo,
forças-me à coragem
d'enfrentar o tédio imigo --

és-me gelo pelos ossos;
mirada a que me acosso
feito não fostes fumaça.

solidificas nos abraços
como se esses'tilhaços
fossem o que me enlaça.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

daqui os teus olhos vieram,
escavados da terra, pérolas
d'areia, das que cresceram,
também, entre ouro amarelo

do colar da tua vó. o papel
da pele é o mesmo, mas
tu desenhas-te, e ela, fiel
ao tempo, é frágil às chamas

dos dia. és o retrato vivo
do passado, pintura que pulsa
a possessão do que era altivo.

és as cinzas em carne avulsa,
o retorno do ontem esquivo
qu'o presente do peito expulsa

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

és-me o destino ao fracasso.
és meu desatino, meus erros,
lista de tudo que m'é escaço,
meu contudo, meus encerros.

és me a vírgula, primeiro,
pausa mácula do meu ritmo.
não és final, o ponto inteiro,
o completo, imortal no íntimo.

teu parêntesis é o efêmero
acoplar que é nada, mero
gênesis que não fecunda.

o mar que, quando fores,
será tormentoso e alhures
e'm qu'a minha nau afunda.
és-me a raiz do desejo
sem flor. és o mármore
que enrijece, ao cortejo,
de dor. és-me a árvore

sem sombra, e a fruta
que me falta à boca.
és o segredo de muita
coisa, mas és tão pouca.

o silêncio entr'as folhas
tu corrompes; arrolhas
a noite, com'um vinho -

tudo em ti afasta longe,
e 'ranca a dor que finge
seres, tu, um só caminho.

sábado, 30 de janeiro de 2016

metes-te pela garganta
dessa casa; teu cheiro
pelo sofá e as quantas
marcas do corpo inteiro

por janeiro, estendida
sobre a minha cabeça
flutuas ao teto, aparecida,
sem que nos aconteça

uma graça passageira,
um pecado, uma ligeira
agonia. entras demais,

me atravessas, és frio
em'eio verão, a sutil
fome que insacia mais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

piso-te com a sensibilidade
dos embriagados, o chão
mais fundo que a realidade
dos olhos, os pés 'inda não

preparados para o impacto;
dispara-me peito, o engano
da tua lonjura. é teu intacto
que me causa todo o dano.

se acerto-te, nada me falta
finco-me fundo, o pé exalta
tua presença, não m'esmago;

mas és chão tão, tão raro...
só há inébrio, nunca é claro:
todo passo é um passo vago
és-me a tensão no pescoço,
a cólera nos rins que logo
goza-se em fogo. és esboço
da paixão (frio no estômago)

ainda sem medida. és-me
a carne consumida, língua
pela pele, garra que geme
e suspira. minh'alma míngua

pelo teu caminho, tropeço-te
por canto de lábio, ou rente
ouvido, par'arrancar pedaço.

és-me a métrica do vazio,
o peito infinito, escorregadio,
que, ao entrar, eu me desfaço

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

(medusa)

não vês a carne dos cabelos
convoluta, ou tua profusão
de superfícies. és cego ato
do tempo em comunhão
com a retina; um impacto
do relógio contra o infinito
da ruína. és, nos pelos,
serpente. na pele, granito.


és, do tempo, a última
habitante, à tua mira
apenas o sólido pretérito
imperfeito; és a ira
sem reflexo, e o ínquerito
da certeza - trai-te, ver-te,
tua natureza, mas sublima
a glória qu'a verdade verte

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

(centauro)

o ruído pastoral
do teu hálito; a mácula
azeda dentro da chaga
desses cascos, coagula
a dureza que esmaga
a duração das rochas
contra as quais o litoral
se espuma, de águas cochas.


não és ar, o vento
que se reúne em fundo
peito - fincas-te imóvel
ao voar o fecundo
ferro, na fuça miserável
o sangue seco de aljofre -
és o órgão por intento
que, osso, a honra sofre.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

(minotauro)

o hábito das pedras,
o tempo a que te aferras
de cornos íngremes
e tez quieta; as guerras
a que, incólumes,
teus olhos resistem -
deles, tu engendras
o término, e a origem.


és o eterno labirinto,
a impossível arquitetura
que se contorce --
não o monstro, a tecitura.
mas, âmago que force
a fera à fúria,
és o bestiário sucinto,
e a morte incúria.

domingo, 6 de julho de 2014

já é noite e apenas o gato
sabe navegar a maré do escuro
somente o gato sabe, é fato,
além do mar, onde é seguro.

o gato, e só ele, dá um salto
no negro e não erra a esquina;
a sombra antecede o gato,
o verso antecede a ruína.

o gato no canto abandona o canto.

pra cima, o gato sobe mais
estrela à nuvem, nuvem à lua
por essas penumbras, imortais
ele não erra; ele flutua.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

porque eu não desejo
desejar mais nada
nem querer querer-te
nem pedir cada
gota do alentejo
numa garrafa.

ela tinha olhos salgados
e lábios de sal, e a imoral
língua dela salgava o dia

ela tinha os olhos salgados
e o gosto era insone
de olhar para o teto.

quero-te mais que a água
do atlântico, e quero-te pacífica
e quero uma nau que desbrave
e não naufrague nunca
no redemoinho das tuas noites.

quero-te possuída de matar sede
e quero que me seques e me feches
a garganta e que estejas do meu lado
e tenha piedade do meu sufoco
e do meu afogamento, minha agonia,
meus olhos vidrados; meus olhos doces.

desejo a tua morte
com a fúria da fome

desejo não desejar mais nada
nem querer mais nada,
nem te querer, ou desejar-te
mas nada acontece.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

queria ser meu gato, para
passear pelas suas pernas
ronronando, para ter voz
de gato e miar olhando
o alto da sua cabeça, e
ver sua alma saindo pelas
suas orelhas quando você
dorme e sonha com amores
antigos. queria ser meu
gato e você me pegar no
colo, me fazer carinho na
cabeça, me deixar fechar
seu livro dizendo que não
é era de s'educar, é hora
de me amar um pouquinho.
queria ser meu gato, para
você me olhar e querer me
amassar me morder ficar
feliz em me ver no fim do
dia, falar de mim para as
suas amigas e para estranhos;
para eu morder você na mão
nas pernas, para eu deitar
na sua cama e não deixar
que ela se arrume, para
insistir que você deite mais
um pouco, para miar para
as suas costas e você morrer
de pena de me abandonar,
e pensar em ficar comigo
um pouco além, só um carinho
a mais, mais um minuto ou
quem sabe, eu convença você
olhos de gato, a ficar pra sempre.
eu queria ser meu gato, queria
ser meu gato, queria ser meu
gato, eu não queria ser a sua
sombra.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

ao longo tive sonhos
estranhos sobre você.

um quarto alugado
de hotel barato
as cortinas enormes
pesadas unindo-se
ao carpete do chão
e vedando a janela.

tinham me pagado
como diretor dessa
cena em que você
estaria de joelhos
para dois homens

a luz do quarto era
esverdeada (lógico)
e você havia cortado
os cabelos e carregado
muito os olhos negros

não lembro, nunca,
de você tão linda
quanto nesse sonho.

em outro, era ruiva
e a via numa foto.
essa foto existe,
existe seu rosto.

mas mudou-se algo
irreconhecível nele
e eu sorri enorme
por não entender mais
te achar linda.

nem um deles me acordou triste

sabendo talvez
tenha outra de você
que não seja você
para eu encontrar
sei lá
por aí.

domingo, 19 de maio de 2013

passageiros os cabelos pela janela
a estrada
a estrada

cuba mais distante
ao redor brasil
argentina pertinho
uruguai, paraguai

wu-tang clan no rádio

vergonha de partir
sem dizer adeus
aos seus olhos

(protect ya neck!)

nada para dizer adeus
dizer no adeus
dizer ao adeus

não queria partir
por isso preciso tanto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

antes fosse, se assim sêsse
pingolejando na chuva da tarde
tardando na manhã que estende
juntando os pés sobre a cadeira
e bocejando um rio de madeira

nunca diziam errado, os velhos sábios,
sobre a desgraça humana: talharam
a dor dos lábios rachados no frio do
inverno, e rechaçaram tod'os beijos
roubados

e foi assim, assim sem ir
assim meio ficando:

largou-me um oi vagabundo
e um adeus de meia boca
rumou acima num fecundo
adeus, àdeus de santa oca

deixou-me o poema.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

a cama mudou-se com a casa,
alguma coisa ficou no caminho.

dormí-la é apenas passageiro
ligeiro acordo ela me expulsa.
minha cama não me quer mais.

olho-a inviesado da cadeira,
da rede, da porta, da noite,
como corpo estranho no quarto.
não é-la mais parto de sonho
e oponho-me em deitá-la.
não aguento sua indiferença,
seu ódio misturado ao meu suor.

há tempo não trepo mais nela
nem para olhar a lua pela janela:
cravaram-me dentes no asfalto
da rua do colégio, deitaram-me
línguas pela areia da praia, e
sorri para o brasil com a boca
cheia de sangue nos braços
eternos brancos sagrados
dessa pátria vencida.

talvez isso explique a cara feia
das minhas cobertas, meus lençóis.

a cama me jogou para o mundo
e eu ando sendo imundo por aí.

é o que me resta.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

essa hora inversa de sentido
e adversa de desejo
e da vontade de versar

(converso só com versos
só quando já é tarde
ou só tarde demais)

estende por esses mares distantes
e esse mar em que repousam os deuses,
(esse mar que não me quer nem afogado)
a chaga virginal do meu cansaço.

lembro que escrevo, ou escrevia
(nunca ao dia: somente noite e somente fria)
mas não para mandar notícias,
não para ver na água o seu rosto de água,
não para ver seu rosto na água do seu rosto.

o poeta em mim anda em falta.

(partiu sem espanto pelo canto
em que s'empilham as tristezas)

um dia já coube o mar no meu bolso
as costas e o silício das areias
e o suplício verde da lua
e qualquer palavra nua
que queria virar verso

hoje cabe calar a boca
e bocejar para o infinito.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

se eu soubesse cantar
e eu dançasse direito
e se eu levasse jeito
para pensar devagarinho,
eu chegava de fininho
para chover nos seus pés.

domingo, 9 de setembro de 2012

esqueci o teu corpo.
misturo, o teu, com
o da que descobria
as pernas de cobre;
uma das duas tinha
uma cova no sorriso
e a outra também --
nenhuma eras tu

esqueci o teu rosto
que vi mudar tanto.
teus olhos mudaram
de lugar, e o cabelo
ficou menor, comprido.
tua boca sumiu.

esqueci minha pele
das costas por baixo
das tuas unhas curtas,
e o nome mais bobo
que tu me davas era
igual à voz d'outras
me chamando sem saber.

esqueci o teu olho
numa fundura insone
escura como a noite,
verde, muito verde,
azul como os mares
infinitamente senfim
dos meus sonhos cegos
em que naufragaste.

esqueci a tua preguiça
agitando o meu domingo;
esqueci os teus pés
trazendo o inverno
e o verão do teu umbigo;
teu cabelos louros
encaracolando negros
no chão do meu banheiro.

esqueci o teu rosto
duas vezes e mais outra.
duas vezes tuas mãos
se perderam e voltaram.
teu sorriso quase que
me acha ontem no terminal
mas não era o teu
e eu não o reconheceria.

esqueci de tudo.
até do que eu lembro.

só não esqueci o teu nome,
que é o que mais me faz falta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

possuo-me de sono, passageiro
(pelos olhos cai-me ligeiro
o sono que colho dos teus)

intento ser o santo primeiro
um pedaço sem parte, inteiro
cosendo teus sonhos nos meus

e em tu' cama perder-me certeiro
naufragar teus lençóis, marinheiro
ser escombro pelos pés teus

pra acordar algum dia em janeiro
atirar-me a adentrar fevereiro
e juntar os teus anos aos meus

sábado, 3 de setembro de 2011

me mandaram uma carta
de sangue mas limpa
sem marcas de dentes
que eu não sei porque sangrou.
o abatedouro perto de casa
anda silencioso de gente
desde que a gente deixou
de falar com as vacas;
vamos precisar lembrar
às pessoas que comem
que essas entranhas
estão cheias dos nossos sonhos
(malpassados)
.
abro a carta e o sangue
não se derrama pinga
- pingo, pingoleja -
o sangue adentra a carta
porque só sabe ser por dentro
por fora ele parece gente
mas não a gente, parece letra
mas não parece palavra, ângulo
mas não canto, canção mas
não música, melodia mas não
trovoada, relâmpago, medo.

a carta traz notícias velhas
e fotografias do passado
do tempo que passa (e no passado
eu aindo olho a carta e suas
fotografias do passado
- que agora já não olho mais
e se eu nunca mais olhar,
nunca mais essa frase significará
presente e eu vou estar livre,
sendo, nunca mais tendo sido
- vou ter um verbo a menos,
mas o verbo da saudade -
e isso, meus olhos sobre a fotografia,
solidificarão no passado eterno)

juntos perdemos o sentido
da solidão
mas agora, tarde,
acabou faz tempo
e todos dormem.

sábado, 27 de agosto de 2011

hoje dei pra te perceber imatura
no canto a cantar amargura
remoendo rancor de arrancado
sem lembrar de mim ao teu lado
(e sagrada de me seguir silenciosa
e salgada de me sorver chorosa)
que já nem ouves o que me dizes
na distância glacial dos teus países
nem a substituta da tua substância
a paz abandono da tua inconstância
que acoberta a mente entreaberta
enfim desperta nessa certeza incerta
de que também à morte caminha o fogo
no incandescer frágil do meu sossego
porque te quero de benquerer bem quista
vendo-a a arte fazer-te artista
co's fins dos dedos sempre mais frios
e ao teu suave, de-navegar-navios,
cheiro lançado-me de me moribundo...
... meu amor, já é setembro,
e eu sinto saudade de todo mundo.

sábado, 6 de agosto de 2011

escrevo uma carta para você lembrar de mim
para você lembrar de mim mesmo sem a ler
só de ver o meu nome e saber que sou eu
e lembrar de mim, mesmo sem querer ou ter vontade
escrevo uma carta para você para você lembrar
das coisas que lembra quando me vê ou
quando pensa no meu nome, e em nós dois juntos
e começo a ficar curioso sobre quais coisas são
porque as minhas são diferentes das suas, eu sei
porque quando eu penso em você lembro de como nós éramos diferentes
escrevo uma carta para você para, quem sabe,
você sinta saudade de mim e da nossa felicidade passageira
escrevo sem me preocupar que você a leia
sem escrever nada dentro do envelope, sem um poema,
sem uma rima, sem uma palavra
escrevo sem ter nada para te dizer, nem vontade
de falar contigo, de saber como você está
escrevo uma carta para você para eu me lembrar de todas as coisas
escrevo uma carta para você não me esquecer
como eu ando te esquencendo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

à noite, no silêncio da
tempestade quase caindo
além do tempo ou nuvens,
por dentro de uma outra terra
que já secou e fez árida
o que um dia fez jardim e
árvore e florestas e animais
e rios que seguiam e imortais
noites sem tempestades, que
retornavam ao redor da boca
do copo, cavalgando o álcool
da cerveja ou vodka e rum,
os resíduos de tudo que havia
se deitado sobre o peito
para escutar, orelha posta sobre,
o trabalho incessante da máquina
do mundo, cuspindo vapor e
sangue, para então acabar e
acabar novamente e outra vez;
e a visita é como esse menino
tão pequeno na cama, aprendendo
a rezar para o escuro e para
o vazio sussurrando o nome
sagrado do que não se encontra
como se o nome pudesse
curar a distância ou salgar
a água dos olhos dos santos
caídos do nosso passado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

deu que a manhã, assim adormecida
rendeu teu rosto enredado ao rio
e morri de frio, e morreria de vida,
esperando o rio embora.

a despedida disse-me, tu aparecida
e teu sorriso sóbrio, lendo sombrio
o teu sutil e secreto vício da vida--

a verdade é que te fingias esquecida
e um tropeço de tristeza a encobriu
de vazio, pedindo a próxima partida,
embarcando o rio embora.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ofélia

das árvores àlgum rio, em ponto
que moveu e foi com a correnteza
teus cabelos, e a tua nobreza
procuraram rédeas d'água, tanto

que, agarrando, as mãos esqueceram
se jogar, e o escuro rosto do pai morto
apagou, também a loucura, procurou porto
no amor efêmero do príncipe, e sofreram

teus olhos, por lágrimas semelhantes
à essas águas, aberta boca, sem amantes
que te devoraram, com'o mundo, com desdém.

e tua morte foi uma luta de entrega
que teu destino órfão, enfim, sossega
mas só ele: nem mais o meu, nem o de ninguém.
e no vento alguma coisa me disse
meu irmão - mon frère -
há no mundo um outro irmão
da mesma tua fraternidade
que sabe o teu nome, já,
por entre os dentes e os lábios,
e nos teus também o dele
e nada mais há de ser dito entre os dois
mais que os nomes
e o sangue apagado
e vós juntos numa só voz
irão escrever cartas sobre essa coisa
que um dia foi sofrimento
sem qualquer amargo
porque a dor, que um dia então esfria,
nas vossas mãos tentará ser poesia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

retrato de um casal se beijando em uma banheira, mulher dentro e homem fora, apaixonados e absolutamente (sério) nada trágico

a deriva de dois barcos
sabiand'o assobio dos sabiás
feitos sem portos ou faróis
mas juntos de ladoalado
águ'à ondular adocicado
horizontando à girassóis

caíam juntos celestiais
sem o querer-se sasonais
pela banheira tod'inteira
penduradas lendas emrendas
nas saias de enfim cansadas
de giros dançar sem sujeira

e bocas d'em gelo e água
acertam vilanias de paisagem
submarina'mãos de borbulhos
oceanam tod'os navegantes
chamas queimam cortantes
e calam a poesia imprecisa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sai, menino
que eu não quero mais ver
seu sorriso pequenino
me impedindo de chorar

larga essa rosa, menino
a roseira é mais que flor
e tá em todo destino
se aversar por esse olor

menino, para de correr
essas voltas ao meu redor
assim fica fácil esquecer
como dói essa minha dor

ah, menino, quando eu
não te encontrar mais
vou ser feliz no meu
jeito de adulto
não vou querer sorvete
nem vou querer palacete
de soldados de chumbo
não vou acordar cedo
nem morrer de medo
do bicho papão
não vou ter cor favorita
nem ter laço de fita
nos meus presentes
não vou chamar mãe pai avó
vou chamar uma pessoa só
que eu não quero esquecer
e vou chorar só com custo
esse choro robusto
que não sabe verter.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

esse calor
essa cerveja
esse amor
que ela deseja

ah, minha flor
essa felicidade
um dia ainda vai
encher saudade.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

essa nossa fotografia
não me lembra daquele dia
nem dessa alegria
que a lente forçava, arredia
quando nos decidimos sorrir.

me lembra dos meus óculos
sujos; de fazer minúsculos
gastos, carinhos maiúsculos
multiplicando nos cálculos
todos os beijos roubados;

me lembra do frio, do calor
de cenas obcenas do amor
que eu não sei mais viver;

me lembra sensatez sem sal
um dia e outro sempre igual
a aventura trivial no litoral
daquele, na praia, temporal
que estragou meu livro favorito;

lembra o feijão que não comi,
vodka misturada que não bebi,
dor que não senti (nem gemi),
declaração que eu não recebi
porque disse que Não (por ti?);

me lembra quando aconteceu
e dormi como se fosse Orfeu
nos braços de Eurídice;

e lembra quando eu te disse
que o amor eu não entendia
mas, meu deus, como eu sentia!

domingo, 26 de dezembro de 2010

soneto da lembrança de uma tarde de mentira

ai esses mares de azuis verdes
reflexo procuro-te nas rosas
da mangueira em que perdes
a sã imaturidade das coisas

ai teu cantar junto ao Cartola
sorvendo os sempre estalos
que tumultuam som da vitrola
embolando música em novelos

ai a lã que rolava pela sala,
tu e eu bebendo coca-cola,
e sendo-nos tricotados juntos!

ai teu riso de água escura,
o doce da tua boca que jura,
fazendo mentira nossos assuntos!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

aqui o desenho do teu corpo
foi feito na luz
a lua fez ampla tua forma
ondulada e azul
e o sol queimou meus olhos
por onde não te vi

toma, da boca vil que te atormenta
a mesma tempesta'de voz sangrenta
o mesmo medo que era a escuridão!

no contorno da tua linha
e peito exposto
uma chuva quente em
meio agosto
mostrou a mesma graça
nas águas

quand'os olhos que amam estranham
a beleza castanha dessa sorte
dúvida dessossega, anjos cantam
o prenúncio certo dessa morte!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

não me certifico de dúvidas
mas eu vou-te no vamo-nos
das mãos (nossas quentes) dadas
que voz vossa faz bossa e enganos
morrerem de fome.

(o amor é como a fome melhorando a comida)

hoje:
tudo que não morre
queima
vou é morrer de ridículo
e queimar de amor.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

(haikus fingindo poesia)

uma música
desconcertada
pela estrada
tira ritmo
da tua voz
após

(-na infância
uma concha
cantava o mar,
hoje sei que
é sangue
porque o mar
sou eu)

as folhas secas
sentem sono
no outono
mas no verão
sente sono
o coração

(-tuas unhas
tem carne
por debaixo,
em que meu mar
desemboca
por fluir)

e quando fogo
bateu porta
na casa torta
do nosso amor
o inverno
parecia eterno

(-o sal das
minhas águas
secam tua terra,
cativa peito
e julgamento
de solidão)

a primavera fez
grama amarela
pela janela
e num relance
nosso romance
fez céu azul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

tua beleza saturnina
imiscuída na retina
minha, bêbada
uma taça vazia
numa terça de dia

no aeroporto
levo meu morto
peito sóbrio
(coração não é bagagem
que se leva para viagem)

demos abraço
e um beijo laço
por gente olhando
lembra dele?
foi o último.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

soneto da pressa

o vento retalhou mar calmo
em onda lambida de som oceano
e a cólera que fez esse ano
coube encentrada num palmo

virou cansaço, o era escárnio
profundo como o sono da puta
embebedada dessa vida enxuta
chorando o choro do canário

e a dor que era pensamento
no centro de um labirinto
ganhou asas

voou pelas paredes, além gaiola
improvável pelo céu, pela pistola
e pelas casas

sábado, 11 de dezembro de 2010

você não devia ter abandonado
seu sorriso recém-acordado
nas minhas dobras de lençol

no frio, me põe saudade
quando encontro a felicidade
dos nossos dias sem sol

e no calor do seu sorriso
o meu riso mostra preciso
a sua presença vazia

e na cama ensaio desmaio
pra ver como eu me saio
fingindo essa tal alegria

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

esse refúgio é tenda
que tecida de versos.
com um deus no meio
talhado de versos.

e quando rompe linha
como vertigem num
semparapeito, aproxima
a queda toda. um
nó salva, mas, todo verso
entramado, arrisca
o próximo ao chãobatido
quando se arisca.

fogem, sutilmente
(não sei porquê)
para que os busque
pela mão, e dê
-lhes um novo lugar
no firmamento
conspirado de seus
rumores tortos.

quero matá-los.

mas não posso,
pós-tão-difícil-
esse (me) parto.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quieto & negro

entendo no silêncio
tanta coisa a mais
do que me poderiam dizer
aquele dia, aquela gota
de vinho na tua boca

(quase rompiam com a luz)

e como no teu jeito
de mexer no meu cabelo
vi nascer nossos lábios colados
brotando flor, arfando
degolando noite adentro
a madrugada em nossos sussurros

nos arrastamos pelo gosto
até pingar treva pelo céu
e escorrer em nosso sono
mal dormido, nossa manhã
vomitada, nosso futuro
esquecido.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

onde o proposto?
o fio da tarde
que me leva exposto
sempre me arde
e
teus pés nus
de caminhos
dançam escuros
sobre espinhos
e
me olham dentro
movendo montanha
sujos do outro
sangue e tamanha
da
vida, teus olhos
de vidro refletem
tantos agulhos
que quase se partem
mas
partimos os dois
quando a pálpebra
apaga os corações
em fundo de sombra